A Receita Federal deflagrou nesta quinta-feira (25/9) a “Operação Spare”, que revelou o uso de lojas de franquia e motéis em um esquema de lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio. A ação é um desdobramento da “Operação Carbono Oculto”, que investiga a movimentação de bilhões no setor de combustíveis com potencial envolvimento do Primeiro Comando da Capital (PCC).
Segundo a Receita, os investigados da “Operação Spare” são suspeitos de “utilizar postos, empreendimentos imobiliários, motéis e lojas de franquia como instrumentos para lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio”. Os nomes dos estabelecimentos não foram citados até o momento. Foram cumpridos 25 mandados de busca e apreensão em cidades do estado de São Paulo, incluindo a capital, Santo André, Barueri, Bertioga, Campos do Jordão e Osasco.
A investigação identificou mais de 60 motéis registrados em nome de laranjas, que movimentaram R$ 450 milhões entre 2020 e 2024. Esses estabelecimentos ajudaram a inflar o patrimônio dos sócios e geraram lucros desproporcionais. Um motel, por exemplo, distribuiu 64% da receita bruta.
Restaurantes localizados nos motéis também participaram da engrenagem. Em um deles, a Receita apontou distribuição de R$ 1,7 milhão em lucros após registrar receita de R$ 6,8 milhões em apenas dois anos. Além disso, empresas ligadas a motéis realizaram operações imobiliárias milionárias, como a compra de imóveis de R$ 1,8 milhão em 2021 e R$ 5 milhões em 2023.
Outro braço da operação mirou lojas de franquias. A Receita identificou 21 CNPJs ligados a 98 estabelecimentos de uma mesma rede. Embora operacionais, essas empresas apresentavam indícios claros de lavagem. Entre 2020 e 2024, movimentaram cerca de R$ 1 bilhão, mas emitiram apenas R$ 550 milhões em notas fiscais.
A arrecadação tributária chamou atenção: os investigados recolheram apenas R$ 25 milhões em tributos federais, equivalente a 2,5% da movimentação financeira. No mesmo período, declararam R$ 88 milhões em lucros e dividendos.
O dinheiro obtido por meio do esquema foi convertido em bens de alto valor. Entre os itens rastreados pela Receita estão um iate de 23 metros, dois helicópteros, um Lamborghini Urus e terrenos avaliados em mais de R$ 20 milhões. A instituição estima que esses bens representem apenas 10% do patrimônio real dos envolvidos.
Também houve manipulação de declarações de Imposto de Renda para tentar dar aparência de legalidade ao patrimônio. “Membros da família do principal alvo aumentaram seu patrimônio informado de forma irregular em cerca de R$ 120 milhões”, segundo a Receita.
As investigações também encontraram vínculos entre os alvos da “Spare” e envolvidos em outras operações contra o crime organizado, como a própria “Carbono Oculto” e a “Rei do Crime”. Foram identificadas transações comerciais, negócios imobiliários e até uso compartilhado de helicópteros.
A Receita Federal reforçou que segue no combate ao uso de empresas formais como fachada para movimentar recursos ilícitos. “A instituição mantém o compromisso de proteger a economia nacional, excluindo do mercado empresas e indivíduos que atuam de forma irregular”, informou.





