Giselly Assis, 32 anos, gemóloga e fundadora da joalheria Make a Wish Jewel, faturou R$ 400 mil no primeiro ano de operação, entre junho de 2025 e junho de 2026, ao atender cerca de 50 casais em Vitória (ES). O negócio propõe uma experiência pouco comum no setor: os próprios noivos participam da confecção das alianças de casamento, sob supervisão de um ourives e da fundadora.
A ideia surgiu de uma vivência pessoal. Ao se casar em 2025, Assis decidiu fazer as próprias alianças com o então noivo, André Campanha, hoje marido, que nunca havia trabalhado com joalheria. “Foi um teste para ver se o público geral acharia isso legal ou se era algo muito segmentado para quem já é da área”, conta. O marido se adaptou bem às ferramentas, e o resultado deu origem à Make a Wish, que segmentou o negócio em anéis de noivado, alianças de casamento e a experiência de confecção artesanal.
O interesse de Assis pelo setor vem de influência familiar: o pai trabalha com mármore e granito, e ela visitava com frequência a Vitória Stone Fair. Aos 17 anos, ingressou no curso de Gemologia na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), único bacharelado da área no país, com a intenção inicial de migrar para Geologia. A mudança de plano veio ainda no segundo período do curso, quando decidiu se especializar em pedras.

Formada em 2016, ela chegou a projetar uma carreira acadêmica, com mestrado, doutorado e docência. Ao fim da graduação, porém, começou a dar workshops para joalheiros sobre como comprar pedras com segurança, o que a aproximou do mercado.
Também atuou por anos com certificação e avaliação de pedras e joias, e fez uma titulação em Joalheria Profissional pelo Instituto Gemológico das Américas (GIA) em 2020, período em que a instituição abriu inscrições gratuitas por causa da pandemia — hoje o mesmo curso custa algumas centenas de dólares.
Antes da Make a Wish, Assis teve uma primeira marca de joias, fundada em 2020 com uma sócia, voltada a peças em prata com pedras naturais. O contexto era o início da pandemia, quando parte do público passou a buscar ouro como reserva de valor diante da incerteza com os bancos. O negócio funcionou até o fim de 2023 e foi encerrado porque as duas sócias tinham objetivos pessoais e profissionais diferentes. Nessa fase, Assis já atendia noivos, mas sem foco exclusivo em casamentos.
O setor de joias e metais preciosos movimenta cerca de R$ 25 bilhões por ano no varejo brasileiro, segundo o Instituto Brasileiro de Gemas e Metais Preciosos (IBGM), com parte relevante do mercado ainda concentrada na venda tradicional de peças prontas.
O momento que confirmou o modelo
Antes mesmo de fundar oficialmente a Make a Wish, Assis já tinha clientes: casais que haviam comprado anéis de noivado na marca anterior pediram para viver a experiência de confecção, independentemente de qualquer lançamento formal. O primeiro teste prático veio com dois casais atendidos no mesmo dia, um pela manhã e outro à tarde.
A fala de uma das noivas naquele dia se tornou uma referência para a fundadora. Segundo Assis, a cliente disse que os preparativos do casamento vinham sendo estressantes, com muitos gastos e fornecedores, e que a manhã no ateliê tinha funcionado como uma pausa a dois, sem celular e sem distrações. “Ali vi que tinha em mãos um serviço com potencial muito rentável e algo que eu amo fazer”, afirma.
Como funciona o atendimento
A maior parte dos contatos chega pelo Instagram e pelo Google, com uma página que, segundo Assis, tem bom desempenho em buscas. O primeiro contato é feito por WhatsApp, com um orçamento prévio. Em seguida, os casais optam por uma reunião presencial ou online — hoje mais comum, já que a marca atende noivos de outros estados — para que a fundadora entenda o perfil do casal, incluindo preferências de comida e música.
No dia da experiência, o ambiente é montado com trilha sonora e cardápio personalizados. Os noivos passam cerca de três horas confeccionando as peças, que ficam prontas no mesmo dia, acompanhados pelo ourives da marca, também gemólogo, pela fundadora e por uma equipe de fotografia, que registra o processo e entrega as imagens ao casal como um ensaio pré-wedding. Há também clientes que preferem apenas encomendar as peças, sem participar da confecção.
O tíquete médio da experiência gira em torno de R$ 6 mil. Ao todo, a marca já atendeu mais de 50 casais, sendo cerca de 20 na experiência presencial de confecção. Todas as peças são personalizáveis: os clientes costumam levar referências e, em alguns casos, combinam elementos de modelos diferentes em um projeto exclusivo.
A produção é feita exclusivamente em ouro 18k, amarelo e branco — a marca não trabalha com prata para alianças de casamento nem mantém estoque, já que toda a joia é sob encomenda.
Etapas como aquecimento de metal, solda, lixa e polimento exigem cuidado redobrado quando o próprio cliente participa da confecção. Assis afirma que o atendimento é sempre restrito a um casal por vez, com dois profissionais — ela e o ourives — dedicados exclusivamente àquele atendimento, além de orientação prévia sobre vestimenta, calçado fechado e uso de equipamentos de proteção individual, especialmente durante corte, lixamento e polimento.
O maior desafio comercial, segundo a fundadora, está nos casais que buscam alianças para bodas ou renovação de votos: um público mais tradicional, que tende a resistir mais à ideia de participar da confecção. Já entre os noivos de primeira viagem, a aceitação costuma ser imediata.
Ser mulher jovem em um mercado tradicional também trouxe resistência, mais intensa no início da carreira como gemóloga, quando lidava com compradores e empresários mais velhos. “Mesmo com 10 anos de formada, isso ainda é considerado pouco tempo em um mercado centenário”, diz Assis, que aponta a transparência como estratégia para reduzir a desconfiança: pesar os materiais e avaliar as pedras na frente do cliente, com explicação técnica de cada etapa.

Perfil do cliente e investimento em marketing
O público da Make a Wish mudou ao longo do tempo. Assis esperava que a procura por alianças partisse principalmente dos noivos — o que ainda ocorre no caso dos anéis de noivado —, mas o primeiro contato para alianças de casamento vem majoritariamente de mulheres. A mudança também influenciou a decoração do ateliê, que foi de uma estética mais rústica, com predominância de madeira, para elementos de alta joalheria clássica, como toca-discos e detalhes mais sofisticados.
O perfil predominante tem entre 28 e 35 anos, mora majoritariamente na Grande Vitória, com expansão para outros estados, e tem rotina profissional intensa — motivo pelo qual a marca abriu agenda aos fins de semana. A empresa também recebe casais de outros estados que viajam até Vitória especificamente para a experiência, com entrega das peças em todo o país via Correios, com seguro.
Assis administra pessoalmente as redes sociais da marca, com apoio de designer, fotógrafa e videomaker na produção de conteúdo, além de uma consultoria de marketing para direcionamento estratégico. Em 2025, investiu R$ 6 mil na anuidade de um grupo de networking profissional, que já gerou cerca de 20 clientes, direta ou indiretamente, e um retorno estimado em R$ 50 mil. Outros investimentos recentes incluem assessoria de imprensa e melhorias na experiência do cliente, como embalagens e buffet.
Modelo sob demanda e planos de expansão
O investimento inicial da Make a Wish foi zero: Assis optou por um modelo de trabalho sob demanda, em que os custos só surgem depois do pagamento do cliente. O primeiro atendimento exigiu um investimento inferior a mil reais, sem necessidade de estoque — modelo que segue até hoje.
A empresa não pretende franquear a marca nem abrir unidades em outros estados, para preservar a exclusividade do atendimento. A estratégia de crescimento é inversa: atrair casais para Vitória, inclusive por meio de uma parceria em estruturação com uma agência de viagens voltada ao conceito de destination wedding. Recentemente, a marca uniu escritório e ateliê em um espaço próprio, com investimento de R$ 25 mil — antes, a fundadora sublocava o local de trabalho.







