Martin Woodtli fundou a Baan Kamlangchay em 2003; hoje o local atende cerca de 10 hóspedes e cobra a partir de R$ 14,9 mil por mês

Martin Woodtli, de 65 anos, formado em serviço social e psicoterapia, fundou a Baan Kamlangchay, uma instituição de longa permanência para pessoas com demência na Tailândia, depois de considerar as opções disponíveis na Europa muito burocráticas. Os planos custam a partir de US$ 2,9 mil (R$ 14,9 mil) por mês, com hospedagem, cuidados 24 horas por dia e refeições inclusas. A casa conta com cerca de 50 colaboradores, entre zeladores, cozinheiros e outros funcionários de apoio.
Tudo começou quando o empreendedor decidiu deixar a Suíça para morar na Tailândia com sua mãe, que sofria de Alzheimer. No início do diagnóstico, o pai dele assumiu os cuidados, mas, com o tempo, o quadro da mãe foi piorando e o pai, desgastado emocional e fisicamente, entrou em depressão e tirou a própria vida, deixando a responsabilidade para Woodtli, filho único.
Foi então que ele começou a pesquisar casas de repouso na Suíça, mas todas as que encontrava, além de caras, tinham um ambiente muito institucional, parecido com o de um hospital. Diante disso, considerou voltar a Chiang Mai, cidade no norte da Tailândia onde havia morado e trabalhado por quatro anos na década de 1990, atuando pelo Médicos Sem Fronteiras.
Ele se lembrava de que o respeito pelos idosos era um costume enraizado na cultura local e percebeu que a cidade poderia oferecer uma qualidade de vida melhor à sua mãe. Chiang Mai já era popular entre estrangeiros e aposentados, em parte por seu baixo custo de vida e por suas opções de visto de longa duração, que ajudaram a atrair uma comunidade estrangeira considerável na região.
Em 2003, mãe e filho se mudaram para lá. A ideia inicial era morar em uma casa contando com o apoio de uma equipe de três cuidadores. Woodtli encarava a decisão com tranquilidade: “Se funcionar, ótimo. Se não funcionar, voltaremos depois de duas semanas de férias”, disse ele.
A mudança fez grande diferença na vida e na saúde da mãe, que deixou de ser introvertida e desenvolveu um jeito próprio de se comunicar. “Minha mãe costumava ser muito isolada porque tinha medo de dizer algo, especialmente em grupo, pois percebia que não conseguia mais se expressar tão bem”, comenta Woodtli.
Ao ver que havia conseguido ajudar sua mãe, ele decidiu ajudar outras pessoas em situação parecida e fundou a Baan Kamlangchay com a herança do pai.
O local ganhou mais visibilidade depois que um cineasta suíço produziu um documentário sobre a jornada de Woodtli e sua mãe, o que atraiu o interesse de famílias da Suíça e da Alemanha.
Hoje, Woodtli e sua esposa tailandesa administram a instituição, que atende cerca de 10 residentes, todos com Alzheimer ou outras formas de demência, a quem ele chama de hóspedes. Para que o convívio fosse mais natural e os hóspedes pudessem interagir com pessoas de fora da casa de repouso, os moradores não vivem em um único prédio: estão distribuídos em oito casas em um bairro residencial compartilhado com moradores tailandeses locais. O próprio Woodtli mora em uma casa na vila com a família.
Segundo o fundador, a casa de repouso opera como empresa registrada na Tailândia e conta com cuidadores, mas não com equipe médica no local; os residentes recorrem a profissionais de saúde locais quando necessário.
Rotina
Em Baan Kamlangchay, cada hóspede tem uma equipe fixa de três cuidadores, que se revezam em turnos e ficam com ele durante todo o dia; à noite, um deles dorme no mesmo quarto.
“O relacionamento é muito importante porque vai muito além do que acontece em um centro de cuidados , onde você apenas cumpre sua função e passa de uma pessoa para outra”, disse Woodtli. “Aqui, os cuidadores são muito próximos de cada hóspede.”
Ao longo do dia, os hóspedes, acompanhados de seus cuidadores, circulam entre suas casas e espaços compartilhados, incluindo uma área de refeições comunitária e um centro de atividades com piscina. As refeições são tipicamente europeias, preparadas por um cozinheiro com experiência em hotéis. Woodtli também gerencia um pequeno mercado, onde os hóspedes podem comprar itens do dia a dia e interagir com os moradores locais, o que, segundo ele, ajuda a manter um senso de independência.
Woodtli conta que muitos hóspedes permanecem por anos, geralmente até o fim da vida, como aconteceu com sua própria mãe, que morou lá até falecer, em 2006.
“Eu penso nisso, na verdade, como as últimas férias deles“, disse ele.







