Janiel Kempers explica como IA pode ajudar empresas na escala 5×2

Fonte: Redação

A chegada da escala 5×2 ao mercado de trabalho brasileiro deve trazer novos desafios para micro e pequenas empresas, especialmente aquelas que dependem de atendimento presencial e funcionamento durante seis ou sete dias por semana. Com menos horas de trabalho disponíveis e a necessidade de manter as operações, a inteligência artificial (IA) surge como uma possível aliada dos empreendedores na busca por produtividade e eficiência.

A mudança foi estabelecida pela Emenda Constitucional nº 141, promulgada em 16 de outubro de 2026. A legislação prevê dois dias de descanso semanal remunerado e a redução gradual da jornada máxima de 44 para 40 horas, sem diminuição salarial. A primeira etapa começa em 15 de dezembro, com a adoção da escala 5×2 e limite de 42 horas semanais. A jornada de 40 horas será implementada 12 meses depois.

O impacto pode ser significativo. Segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), referentes a dezembro de 2025, aproximadamente 14,7 milhões de trabalhadores com carteira assinada estavam submetidos à escala 6×1, o equivalente a 33,2% dos vínculos formais regidos pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).

Para o jornalista, publicitário, estrategista digital e especialista em inteligência artificial Janiel Kempers, a adaptação exigirá mais do que reorganizar folgas e horários. O empresário também precisará identificar atividades que podem ser simplificadas, automatizadas ou executadas de maneira mais eficiente.

“A mudança para a escala 5×2 exige que o empreendedor repense a maneira como sua empresa funciona. Muitos negócios ainda desperdiçam horas com tarefas repetitivas, processos manuais e falta de organização. A inteligência artificial pode ajudar a recuperar esse tempo, melhorar a produtividade e permitir que as equipes se concentrem no que realmente importa: atender bem, vender e gerar resultados”, explica Kempers.

Pequenas empresas já estão adotando inteligência artificial

O uso da tecnologia deixou de ser exclusividade das grandes corporações. Um levantamento do Sebrae, realizado em parceria com o Meta Instituto de Pesquisa e divulgado em agosto de 2026, mostrou que 52% dos pequenos empreendedores brasileiros utilizaram inteligência artificial em suas atividades nas duas semanas anteriores à pesquisa.

O estudo ouviu 7.182 empreendedores e identificou que 60% pretendiam adotar ou ampliar a utilização da tecnologia nos seis meses seguintes.

Outro dado chama a atenção: entre os pequenos negócios que já utilizavam IA, 90% não haviam alterado o número de funcionários em razão da tecnologia nos seis meses anteriores. O resultado sugere que, para a maioria dessas empresas, a inteligência artificial tem funcionado como apoio às atividades existentes, e não como substituta direta da mão de obra.

A reorganização dos processos também aparece como uma tendência. Segundo o levantamento, 46% dos negócios brasileiros que adotaram IA precisaram desenvolver novos fluxos de trabalho para incorporar as ferramentas.

Na avaliação de Kempers, esse movimento tende a ganhar força com a redução da jornada.

“O pequeno empresário não precisa necessariamente investir em sistemas caros ou desenvolver uma tecnologia própria. Hoje existem ferramentas acessíveis capazes de organizar atendimentos, analisar informações e automatizar atividades administrativas. O segredo está em identificar onde a empresa perde tempo e aplicar a inteligência artificial para resolver problemas reais”, afirma.

Como a IA pode ajudar na adaptação à escala 5×2?

Uma empresa com dez funcionários contratados para trabalhar 44 horas semanais dispõe, em termos contratuais, de 440 horas de trabalho por semana. Com a redução para 40 horas, esse volume cairá para 400 horas, uma diferença de 40 horas semanais, mantido o mesmo número de empregados.

Embora esse cálculo não represente automaticamente a necessidade de contratar outro funcionário, ele demonstra por que a organização das equipes e o aproveitamento do tempo passam a ser ainda mais relevantes.

Segundo Kempers, pequenas mudanças na operação podem contribuir para reduzir desperdícios e melhorar os resultados.

Em um restaurante, por exemplo, sistemas de inteligência artificial podem analisar o histórico de pedidos, identificar dias e horários de maior movimento e auxiliar na previsão da quantidade de alimentos necessária para determinado período.

Em uma loja de roupas, a tecnologia pode organizar informações de estoque, apoiar o atendimento digital e identificar padrões de consumo. Já em empresas prestadoras de serviços, ferramentas automatizadas podem ajudar a administrar agendamentos, confirmações e solicitações de clientes.

As aplicações também podem alcançar a gestão interna, desde a elaboração de relatórios até o planejamento de escalas de trabalho, sempre com supervisão humana e respeito à legislação trabalhista.

“Imagine um restaurante que recebe centenas de mensagens por dia perguntando sobre cardápio, preços e entregas. Se parte dessas respostas for automatizada, os funcionários conseguem dedicar mais tempo ao atendimento presencial e à operação. A ideia não é substituir pessoas, mas retirar delas atividades repetitivas que podem ser realizadas com apoio da tecnologia”, exemplifica Kempers.

Cinco áreas em que a inteligência artificial pode ajudar os empreendedores

O especialista aponta atividades em que a tecnologia pode ser aplicada de forma gradual, inclusive por empresas com equipes reduzidas.

1. Atendimento ao cliente: assistentes virtuais podem responder dúvidas frequentes, organizar solicitações e direcionar atendimentos mais complexos para funcionários.

2. Controle de estoque: ferramentas de análise de dados podem identificar produtos com maior saída, antecipar necessidades de reposição e auxiliar na redução de desperdícios.

3. Gestão de equipes: sistemas podem apoiar a previsão de demanda e o planejamento de horários, ajudando o gestor a distribuir melhor os profissionais dentro dos limites legais.

4. Administração financeira: a automação pode facilitar a organização de despesas, conferência de documentos, acompanhamento de pagamentos e elaboração de relatórios, com validação humana.

5. Marketing e vendas: ferramentas de IA podem apoiar a produção de conteúdo, a análise do comportamento dos clientes e a personalização de campanhas comerciais.

Para Kempers, o maior benefício não está necessariamente na quantidade de ferramentas utilizadas, mas na capacidade de integrar tecnologia à rotina do negócio.

“Não adianta uma empresa contratar cinco ferramentas diferentes se continua trabalhando de maneira desorganizada. A transformação começa pela revisão dos processos. Primeiro, o empreendedor identifica o problema. Depois, escolhe a tecnologia que pode ajudá-lo a resolver. É essa lógica que transforma inteligência artificial em produtividade”, diz.

Tecnologia pode aumentar produtividade, mas resultados variam

Estudos internacionais já identificaram ganhos de eficiência associados à inteligência artificial.

Uma pesquisa de Erik Brynjolfsson, Danielle Li e Lindsey Raymond, divulgada pelo National Bureau of Economic Research (NBER), analisou o uso de um assistente de IA por 5.179 profissionais de atendimento ao cliente.

O estudo constatou um crescimento médio de 14% na produtividade, medida pela quantidade de problemas resolvidos por hora. Entre profissionais menos experientes e com menor desempenho inicial, o ganho chegou a 34%.

Os resultados não significam que todas as empresas obterão aumentos semelhantes, mas oferecem evidências de que a tecnologia pode contribuir para melhorar o desempenho de determinadas atividades.

No Brasil, um levantamento do Sebrae em parceria com a Fundação Getulio Vargas (FGV) e o Google identificou que a economia de tempo era o benefício mais citado pelas micro e pequenas empresas que utilizavam inteligência artificial, mencionado por 34% dos entrevistados.

Esse aspecto pode ganhar importância diante da nova jornada de trabalho, sobretudo em negócios nos quais o proprietário acumula funções de gestão, vendas, atendimento e administração.

E os custos? IA não elimina a necessidade de funcionários

Apesar das oportunidades, a tecnologia não resolve todos os desafios decorrentes da mudança na jornada.

Supermercados, restaurantes, hotéis e lojas continuarão precisando de profissionais para atividades presenciais, atendimento, produção e outras funções que não podem ser integralmente automatizadas.

A adoção da escala 5×2 poderá exigir novas contratações, revisão dos horários de funcionamento ou reorganização de equipes, dependendo da estrutura de cada empresa.

A Emenda Constitucional nº 141 também prevê a possibilidade de criação, por lei complementar, de medidas transitórias destinadas a mitigar impactos sobre microempreendedores individuais, microempresas e empresas de pequeno porte, condicionadas à manutenção dos níveis de emprego. Essas medidas, porém, dependem de regulamentação específica.

Kempers ressalta que a inteligência artificial deve ser encarada como ferramenta complementar ao trabalho humano.

“A tecnologia não vai substituir a necessidade de uma equipe bem preparada. Em muitos negócios, o contato humano é justamente o principal diferencial competitivo. O objetivo deve ser usar a inteligência artificial para apoiar os profissionais, reduzir tarefas burocráticas e oferecer melhores condições para que as pessoas desempenhem suas funções”, afirma.

A implementação também exige atenção à proteção de dados de clientes e funcionários, aos custos de contratação das ferramentas e à necessidade de treinamento.

Por onde o pequeno empresário deve começar?

Para empreendedores que ainda não utilizam inteligência artificial, a recomendação de Kempers é começar com um diagnóstico simples da operação.

O primeiro passo é identificar quais atividades consomem mais tempo da equipe. Em seguida, o empresário deve avaliar quais tarefas são repetitivas, quais exigem presença humana e quais podem receber apoio de ferramentas digitais.

A partir desse levantamento, é possível testar soluções em uma área específica e acompanhar indicadores como tempo de atendimento, quantidade de pedidos processados, redução de erros e satisfação dos clientes.

A expansão do uso da tecnologia deve ocorrer conforme os resultados observados, evitando investimentos que não tragam benefícios mensuráveis.

Para o especialista, a transição para a escala 5×2 pode se tornar um momento de modernização dos pequenos negócios brasileiros.

“Durante muito tempo, a produtividade foi associada à quantidade de horas trabalhadas. A inteligência artificial nos permite olhar para outro indicador: o resultado produzido durante essas horas. O empresário que conseguir organizar seus processos, qualificar sua equipe e utilizar a tecnologia de maneira estratégica terá melhores condições de enfrentar as mudanças e continuar crescendo”, conclui Kempers.

Com a nova jornada prestes a entrar em vigor, o desafio dos pequenos negócios será encontrar um equilíbrio entre eficiência operacional, investimento em tecnologia e valorização do trabalho humano. Nesse cenário, a inteligência artificial pode deixar de ser apenas uma ferramenta de inovação e passar a ocupar um espaço mais relevante nas decisões de gestão.

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