Casal de engenheiros cria boneco colecionável personalizado e fatura R$ 100 mil

Fonte: Redação

Com apenas cinco meses de operação e um único canal de venda — um ponto físico em um parque em Campos do Jordão, no interior de São Paulo —, a Fabrinque chegou a faturar R$ 40 mil em julho. O segredo para o sucesso do empreendimento parece estar justamente na faixa etária ampla do brinquedo: um boneco colecionável e personalizado.

Da estética à experiência de personalização, o negócio se moldou ao mundo dos jogos não por acaso. A ideia da empresa surgiu em uma conversa com amigos, quando o casal Thiago Vinicius de Matos Silva e Uliana Franco Medina Procópio, ambos com 31 anos, percebeu que poderia trazer a experiência de criação de um avatar para a vida real por meio da impressão 3D, tecnologia com a qual já trabalhavam.

Juntos há cerca de 15 anos, eles se formaram em engenharia mecânica e engenharia geológica, respectivamente. Antes mesmo da pandemia de covid-19, já vendiam bonecos de RPG (Role-Playing Game), jogo de interpretação de personagens, além de outros produtos genéricos e temáticos para datas festivas. A produção, pausada durante as políticas de prevenção, foi retomada no segundo semestre do ano passado e encerrada oficialmente pouco antes do lançamento da Fabrinque.

No início deste ano, o casal visitou a família de Silva em Campos do Jordão, se apaixonou pela cidade e encontrou a possibilidade de abrir um quiosque em um dos principais pontos turísticos do município, o Parque Capivari. Em pouco tempo, decidiram deixar Belo Horizonte para trás e apostar tanto no interior paulista quanto na ideia dos bonecos colecionáveis.

Para iniciar a operação, eles contaram com um investimento próprio de R$ 80 mil, que incluiu os custos de abertura da empresa, marcenaria do quiosque, contratos com o parque — que funciona em um modelo semelhante ao de lojas de shopping — e a compra de outras duas impressoras 3D, além das quatro que já tinham.

Montagem do boneco

“É como se fosse um self-service. Está tudo lá, você mete a mão no nicho e pega o que quiser”, explica Procópio sobre a montagem e a escolha dos bonecos.

Na prática, a pessoa chega ao quiosque da Fabrinque e encontra as partes do corpo do brinquedo separadas por nichos: cabeças, cabelos, camisetas, braços, roupas de baixo e pernas. Em cada uma dessas etapas, há variações de cores e modelos – nas cabeças, por exemplo, são quatro possibilidades de expressões faciais e cinco cores para cada uma. “Ao todo, tem mais de 2 milhões de combinações que a gente consegue fazer com os modelos que temos hoje.”

Embora a ordem comece pelo nicho das cabeças, eles contam que o cliente costuma ir e voltar e experimentar diversas combinações até encontrar a personalização ideal. “É muito raro a criança pegar de primeira uma mesma cabeça e cabelo e ficar até o final.”

O que possibilita a montagem e a desmontagem de forma prática é o ímã incluído dentro das peças. O componente é inserido durante a impressão em um processo manual: Silva e Procópio precisam parar as máquinas para colocar o ímã, que depois é coberto pelo material e fica praticamente imperceptível.

À primeira vista, o boneco parece um brinquedo, mas Silva e Procópio explicam que se surpreenderam com a adesão positiva também de adolescentes, adultos e até idosos que querem se ver imortalizados e personalizados em uma peça colecionável.

“A gente atua muito como um boneco colecionável. Tem muitos casais que querem montar um do outro, e adolescentes que querem fazer um deles próprios, como se fossem o personagem dos jogos”, detalha a engenheira.

Como os bonecos são feitos

O design do boneco remete à estética de desenhos animados dos anos 1990 e 2000. Isso por que a busca por inspirações para criar os primeiros esboços em 2D do que viriam a se tornar os produtos começou nas animações que eles assistiam na infância.

Com a ajuda de programas de inteligência artificial e softwares próprios de modelagem 2D e 3D, eles passaram a adaptar e desenvolver os desenhos até chegar a um catálogo de expressões, cores e formatos que atendesse, inicialmente, ao público mais diverso possível.

“São softwares semelhantes aos usados para fazer animação de desenhos”, conta Silva, que cria uma espécie de massinha no programa e, a partir disso, contorna até criar uma perna, um rosto, um braço ou o que chama de “escultura digital”.

Criar um modelo-padrão com precisão foi especialmente importante porque é a partir das medidas dessa estrutura que eles conseguem garantir o encaixe das demais peças.

“Com esse esqueleto fixo, a gente pode criar à vontade em cima e eu sei que essa camiseta vai encaixar em qualquer modelo de calça, de saia, de shorts. Esse bracinho encaixa em qualquer camiseta e por aí vai”, explica Procópio.

Depois do modelo digital pronto, o material usado para imprimir o boneco é o filamento, um polímero, ou plástico, feito a partir do amido de milho, que é depositado em camadas até criar o objeto. O material já é comprado em rolos coloridos e inserido na máquina, que pode ou não imprimir mais de uma cor ao mesmo tempo.

As peças dos bonecos da Fabrinque são impressas em impressoras 3D com um imã, o que permite o encaixe fácil — Foto: Divulgação
As peças dos bonecos da Fabrinque são impressas em impressoras 3D com um imã, o que permite o encaixe fácil — Foto: Divulgação

Ampliação para o meio digital

Com cinco meses de operação, entre maio e outubro, e um tíquete médio de R$ 99, a Fabrinque faturou R$ 100 mil. Quase metade desse valor, R$ 40 mil, foi registrada somente em julho, época em que Campos do Jordão recebe uma quantidade maior de turistas por causa das baixas temperaturas.

Apesar da surpresa positiva com a boa recepção dos clientes ao produto, o casal demonstra preocupação com a sazonalidade da região, já sentida neste segundo semestre. Por isso, nas últimas duas semanas, o negócio deixou de ser comercializado em apenas um ponto de venda e expandiu para as vendas on-line, por meio do site oficial da Fabrinque.

“Também recebemos esse pedido do nosso público, que compra com a gente e depois entra em contato querendo mais peças para mudar o seu boneco e colecionar.”

No negócio, o objetivo dos engenheiros foi levar ao máximo a experiência dos jogos para a compra, com o cliente escolhendo as peças como um jogador define as características de seu avatar. E a conexão com o universo dos games não para por aí.

A empresa vem negociando uma parceria com uma plataforma de jogos on-line, em que o boneco colecionável físico poderá ser transformado em um avatar dentro do jogo. “A pessoa vai conseguir resgatar o próprio boneco no ambiente digital e criar uma identidade, uma comunidade, ter aventuras e tudo”, explica Silva, detalhando que, na plataforma, o jogador também consegue criar o próprio jogo.

Apostam na experiência da montagem do boneco

Embora o produto em si seja o boneco, o casal percebeu, logo no início da produção, que a experiência de montá-lo pode ser uma grande aposta para o futuro. Pensando nisso, eles já começaram a conversar com buffets da região para lançar o Espaço Fabrinque, uma área recreativa móvel em que a criança poderá brincar de montar e desmontar seu próprio boneco personalizado.

“Pensamos em disponibilizar uma quantidade de peças para as crianças conseguirem montar os bonecos em buffets e em áreas kids de shoppings, onde a gente já conseguiria um valor por meio desse aluguel.”

A ideia é que, caso a criança queira comprar o boneco, procure o site da empresa, mas tenha primeiro a experiência de testar o produto nesse ambiente.

Nos próximos meses, sobretudo com a proximidade do Natal, a expectativa é incluir no catálogo peças temáticas, além de ampliar as opções que tendem a ser escolhidas pelas meninas e que, até então, são as que mais saíram.

Para conseguir isso, contudo, Silva explica que eles precisam superar um dos principais desafios do novo empreendimento: aumentar o capital de giro. Com o início da Fabrinque, os dois deixaram seus respectivos empregos na engenharia para se aventurar no empreendedorismo e seguem aprendendo sobre estratégias de venda, marketing e finanças.

“Mesmo com uma vantagem de que nossos produtos normalmente são vendidos à vista, nosso fluxo de caixa aperta porque precisamos desse capital de giro para fazer o negócio girar, comprar material e produzir mais.”

Atualmente, por exemplo, eles já precisam de mais impressoras para aumentar a produção das peças, que, além de toda a gestão e venda, é concentrada nas mãos dos dois.

“Nós somos dois engenheiros criados para ficar no computador, e ter que lidar com o público também foi uma novidade para nós. Estamos aprendendo e estudando tudo”, detalha Procópio, que não esconde a dificuldade de conciliar e dividir a vida profissional, amorosa, familiar e financeira.

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