Tecnologias digitais ampliam o apoio ao diagnóstico e tornam o atendimento mais preciso, integrando dados e informações clínicas à rotina de médicos e pacientes.
Há 59 anos, o Brasil reservou o dia 5 de agosto para lembrar que saúde também depende de prevenção. A data, criada em homenagem ao médico e sanitarista Oswaldo Cruz, continua atual. Mas, quase seis décadas depois, a discussão ganhou novos protagonistas: Inteligência Artificial, cirurgia robótica, interoperabilidade de dados e saúde mental passaram a influenciar a qualidade da assistência antes mesmo do primeiro atendimento ao paciente.
Para quem utiliza o Sistema Único de Saúde (SUS) ou a rede privada, essa transformação aparece de diferentes formas. Entre elas, exames mais precisos, cirurgias menos invasivas, atendimento digital e o uso crescente da IA para apoiar diagnósticos e decisões clínicas. Embora muitas dessas mudanças ocorram nos bastidores, elas influenciam diretamente a qualidade da assistência, a segurança do paciente e a experiência de quem busca atendimento.
Essa transformação também deslocou o debate sobre saúde. Além da prevenção, do acesso e da qualidade da assistência, o debate também passa a envolver a infraestrutura tecnológica que sustenta o atendimento. Equipamentos, dispositivos médicos e sistemas digitais agora são considerados parte essencial da capacidade de resposta do sistema de saúde.
A base invisível
É justamente esse o alerta da Associação Brasileira da Indústria de Dispositivos Médicos (ABIMO).
“Quando falamos em saúde, normalmente pensamos no momento em que o paciente chega ao consultório ou ao hospital. Mas o sistema começa muito antes disso. Ele começa na infraestrutura tecnológica que permite diagnosticar, monitorar, tratar e reabilitar pessoas com segurança e qualidade. É essa estrutura que torna o atendimento possível”, afirma Larissa Gomes, gerente de Projetos e Marketing da ABIMO.
Os números mostram a dimensão desse mercado. Segundo a entidade, a indústria brasileira de dispositivos médicos movimentou R$ 85,4 bilhões em 2025, crescimento de 13,9% em relação ao ano anterior. Entre janeiro e maio de 2026, as exportações do setor somaram US$ 407,4 milhões. Os produtos brasileiros chegaram a mercados como Estados Unidos, Alemanha, Bélgica, Suíça e Países Baixos. O setor, porém, ainda enfrenta um déficit comercial elevado. O resultado evidencia a necessidade de ampliar a inovação e a produção nacional de tecnologias para a saúde.
Apesar desse avanço, o Brasil ainda depende fortemente de fornecedores externos em segmentos estratégicos. Entre janeiro e maio deste ano, o déficit da balança comercial do setor alcançou US$ 9,9 bilhões, reflexo de importações superiores a US$ 11 bilhões.
A ABIMO defende o fortalecimento da produção nacional de dispositivos médicos. Segundo a entidade, essa estratégia amplia a segurança sanitária e reduz a dependência do País em momentos de instabilidade nas cadeias globais de suprimentos.

Tecnologia em ação
A transformação digital da saúde já pode ser medida. Hoje, 92% dos estabelecimentos de saúde do País utilizam sistemas eletrônicos para registrar informações de pacientes. O dado é da pesquisa TIC Saúde, produzida pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br/NIC.br).
A Inteligência Artificial também avança, fazendo parte da rotina de 18% das instituições de saúde brasileiras. Nos hospitais com mais de 50 leitos, a presença da tecnologia chega a 31%. Em síntese, nesses ambientes, ela apoia médicos e enfermeiros em atividades como diagnóstico e suporte terapêutico.
Esse movimento vai além da digitalização de prontuários. Plataformas interoperáveis permitem o compartilhamento de informações entre diferentes serviços de saúde. Ademais, algoritmos analisam exames em tempo real para identificar sinais precoces de doenças e apoiar decisões clínicas. Na prática, a tecnologia passou a fazer parte da rotina de hospitais, laboratórios e centros de diagnóstico.
Para Gabriel Alencar Coelho, CEO da Hospcom, empresa brasileira especializada em soluções tecnológicas para hospitais e serviços de saúde, a inovação deixou de ser um diferencial. Ela já integrar a rotina da assistência médica.
“A tecnologia que está transformando o futuro da medicina já é realidade em hospitais de todo o Brasil. A cirurgia robótica deixou de ser um privilégio para poucos”, afirma.
Quando a distância deixa de ser barreira
Um dos exemplos dessa evolução é o Toumai, plataforma de cirurgia robótica utilizada em hospitais brasileiros para procedimentos minimamente invasivos. O equipamento ganhou destaque ao ser empregado na primeira telecirurgia robótica de longa distância realizada pelo SUS, conectando o Hospital de Amor da Amazônia, em Porto Velho (RO), ao Hospital de Amor, em Barretos (SP).
Na oportunidade, o cirurgião conduziu remotamente a retirada de um tumor intestinal por meio de uma plataforma robótica. Para especialistas, experiências desse tipo demonstram como a tecnologia pode ampliar o acesso a procedimentos de alta complexidade, mesmo em regiões distantes dos grandes centros.

Mais tecnologia, mais acesso
Segundo Gabriel Coelho, a modernização também passa pela ampliação da infraestrutura hospitalar. Ele, inclusive, cita, o Programa PAC Cirurgias, do Governo Federal, que prevê a implantação de 229 salas cirúrgicas equipadas com tecnologias como sistemas de vídeo-laparoscopia 4K, ultrassonografia, monitores e equipamentos para suporte anestésico.
“A tecnologia tem um papel fundamental na qualificação da assistência hospitalar. Mais do que incorporar novos equipamentos, o desafio é criar condições para que hospitais públicos e privados ofereçam procedimentos com mais segurança, eficiência e previsibilidade”, afirma.
Além da aquisição de equipamentos, outro desafio está na integração das informações. Dados da pesquisa TIC Saúde, produzida pelo Cetic.br/NIC.br, mostram que 64% das unidades públicas já utilizam sistemas eletrônicos para encaminhamento de pacientes, enquanto, na rede privada, esse índice é de 28%.
A integração com a Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS) também avança e permite que diferentes serviços compartilhem informações clínicas de forma mais ágil e segura, reduzindo retrabalho e melhorando a continuidade do cuidado.

IA exige confiança
De um lado, a Inteligência Artificial amplia a capacidade de diagnóstico e apoio à decisão clínica. Do outro, ela impõe um novo desafio: garantir que as respostas geradas pelos algoritmos reflitam a realidade da população atendida.
Embora modelos de IA sejam desenvolvidos para identificar padrões e calcular riscos, especialistas alertam que esses sistemas podem perder precisão quando são aplicados em contextos diferentes daqueles em que foram treinados. Em um país com as dimensões e as desigualdades regionais do Brasil, fatores como perfil da população, acesso aos serviços de saúde e qualidade dos dados podem influenciar diretamente o desempenho dessas ferramentas.
É justamente nesse ponto que entra a chamada calibração estatística, processo que ajusta os algoritmos para que as probabilidades indicadas pela Inteligência Artificial correspondam ao comportamento observado na prática clínica.
Segundo a professora Leila Bergamasco, coordenadora dos cursos de Ciência da Computação e de Ciência de Dados e Inteligência Artificial do Centro Universitário FEI e especialista em modelagem preditiva e estatística computacional, um sistema pode apresentar excelentes resultados em laboratório e, ainda assim, precisar de adaptações para funcionar adequadamente em diferentes regiões.
“Na saúde pública, a falta de calibração pode fazer com que o algoritmo apresente variações de desempenho entre diferentes regiões. Como esses modelos orientam decisões importantes de triagem e priorização de exames, o monitoramento constante ajuda a distribuir os recursos de forma mais equilibrada e precisa”, afirma.
O alerta encontra respaldo em estudos recentes. Levantamento do Public Health AI Handbook aponta que apenas 6% das Inteligências Artificiais desenvolvidas para a saúde são testadas em cenários reais, fora do ambiente em que foram criadas.
Para Leila, o desafio não termina quando a tecnologia entra em operação. Segundo a pesquisadora, os algoritmos precisam ser monitorados continuamente para acompanhar mudanças no perfil epidemiológico da população e manter a qualidade das previsões ao longo do tempo.
Saúde também começa no trabalho
A transformação da saúde não acontece apenas dentro de hospitais e clínicas. Cada vez mais, ela se incorpora no ambiente de trabalho. O aumento dos afastamentos por transtornos mentais e a busca por ambientes mais saudáveis fizeram com que o bem-estar deixasse de ser tratado apenas como benefício e passasse a integrar a estratégia das empresas.
Esse movimento ganhou força com a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1). Desde 26 de maio de 2026, a norma passou a exigir que as organizações identifiquem e gerenciem riscos psicossociais como parte do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO).
Em junho, uma decisão liminar do Supremo Tribunal Federal (STF), na ADPF 1316, suspendeu por 90 dias a aplicação de multas e sanções relacionadas especificamente a esses fatores. A medida abriu um período de conciliação para definir critérios mais objetivos de fiscalização. As demais exigências do GRO e do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), porém, continuam em vigor.

A nova gestão do cuidado
Na prática, a mudança acelera uma tendência já observada nas organizações: investir em prevenção e criar condições para que as pessoas preservem a saúde física e emocional ao longo da jornada de trabalho.
É esse o caminho seguido pela Juntos Somos Mais, ecossistema criado em 2018 por Votorantim Cimentos, Gerdau e Tigre para conectar a cadeia da construção civil. A empresa estruturou sua estratégia de saúde integral em quatro pilares: saúde mental, saúde física, sono e nutrição e relações saudáveis.
Yasmin Lopes, coordenadora de Recursos Humanos da Juntos Somos Mais, explica que a empresa percebeu que ações isoladas já não eram suficientes para responder aos novos desafios.
“Quando falamos de saúde mental, percebemos rapidamente que ela está conectada à qualidade do sono, à prática de atividade física, à alimentação e até à qualidade das relações que construímos no trabalho e fora dele. Por isso, optamos por uma estratégia de saúde integral. Não queremos atuar apenas quando alguém adoece, mas criar condições para que as pessoas cuidem de si mesmas de forma preventiva e sustentável.”
A estratégia já apresenta resultados. Apenas no primeiro trimestre deste ano, 54 colaboradores utilizaram a plataforma de terapia on-line da empresa, somando 360 sessões. Além disso, a companhia criou o programa “Do Zero aos 6 km”, que incentivou colaboradores a adotar a prática regular de atividade física e participar de uma corrida de rua.
Para Fernando Dutra, CEO da Juntos Somos Mais, o cuidado com a saúde deixou de ser uma iniciativa restrita ao RH e passou a fazer parte da estratégia de crescimento das empresas.
“Alta performance e bem-estar não são conceitos concorrentes. Quanto mais complexo e acelerado se torna o ambiente de negócios, maior é a necessidade de criar condições para que as pessoas mantenham sua saúde física, emocional e mental. Nenhuma estratégia de crescimento é sustentável se não considerar quem executa essa estratégia todos os dias.”
Uma visão mais ampla da saúde
Quase 60 anos depois da criação do Dia Nacional da Saúde, a prevenção continua sendo um dos pilares da assistência. Mas o conceito de cuidado se expandiu. Hoje, ele começa na infraestrutura que sustenta hospitais e laboratórios, passa pela integração de dados, pelo uso responsável da IA e alcança o ambiente de trabalho, onde a promoção da saúde ganha espaço como estratégia de gestão.
Em comum, todas essas transformações apontam para um mesmo desafio: garantir que inovação, tecnologia e políticas de prevenção caminhem juntas. Afinal, equipamentos mais modernos, algoritmos mais precisos e ambientes corporativos mais saudáveis só cumprem seu papel quando contribuem para ampliar o acesso, fortalecer a segurança do paciente e melhorar a experiência de quem utiliza os serviços de saúde.





