TikTok corre risco nos EUA, mas prepara novidades para o e-commerce no Brasil | InvestNews

Fonte: Olivia Bulla

Enquanto o TikTok se prepara para uma batalha judicial nos Estados Unidos, a ByteDance, controladora do aplicativo de vídeos curtos, prospecta o mercado brasileiro para trazer ao país o TikTok Shop – plataforma de live commerce para promover vendas ao vivo de produtos dentro da rede social.

A previsão inicial era de que essa modalidade – que tem na China seu principal mercado e que ganha força no comércio eletrônico mundial – chegasse ao país no ano passado. A operação pode estar demorando um pouco mais do que o previsto por especialistas, mas isso não quer dizer que a ByteDance tenha reduzido seu interesse pelo Brasil, apurou o InvestNews. O país pode ser o primeiro da América Latina a receber a plataforma de e-commerce.

Representantes chineses do TikTok têm visitado o Brasil em busca de parceiros para colocar a operação em funcionamento. “O time deles que cuida do TikTok Shop já veio aqui algumas vezes para fazer pesquisa de mercado e visitar algumas empresas”, comenta um profissional que acompanha as principais empresas chineses do setor, que prefere não ser identificado. 

Para ele, o fechamento do cerco ao TikTok em vários países com mercados relevantes deve levar a ByteDance a explorar novas frentes de negócios em países promissores.

Em outubro do ano passado, por exemplo, a empresa teve que deixar de operar o TikTok Shop na Indonésia, onde tinha 125 milhões de usuários ativos, para atender a uma regulamentação do governo. O país movimenta US$ 52 bilhões anuais em comércio eletrônico e a consultoria Momentum Works estima que 5% disso passava pelo TikTok.

O revés mais recente foi a lei aprovada nos Estados Unidos para banir o aplicativo do TikTok caso a ByteDance não aceite vendê-lo até 2025. A empresa já informou que vai à Justiça contra a medida. Segundo a Reuters, os EUA foram responsáveis ​​por cerca de 25% das receitas globais do TikTok em 2023, que aumentaram para quase US$ 120 bilhões no ano passado, de US$ 80 bilhões em 2022.

Nos Estados Unidos, a modalidade de live commerce do TikTok foi lançada em setembro do ano passado e, segundo a empresa informou em seu TikTok Shop Safety Report, 500 mil vendedores ofereciam seus produtos pela plataforma em dezembro de 2023, o dobro do número de três meses antes.

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Em todo o mundo, a ByteDance informa que tem mais de 15 milhões de vendedores utilizando sua plataforma TikTok Shop – desse total, 6 milhões foram incorporados no segundo semestre do ano passado. Isso mostra o quanto a modalidade tem crescido em todo o mundo.

Zero barreiras

Na América Latina, a expectativa é de que o Brasil seja o primeiro mercado a ser explorado pelo TikTok Shop, ainda este ano. “O Brasil é um destino potencial muito provável, até mais que o México, porque poucos países têm o número de usuários conectados como aqui, onde as pessoas usam cartão de crédito e têm uma renda per capita considerável”, explica o especialista em live commerce. 

Hoje, os aplicativos da Meta são os principais canais de live commerce na América Latina. Segundo a empresa de consultoria Mckinsey & Company, 71% dos que frequentam live commerce na região fazem compras no Instagram e 51% no Facebook.

Ainda segundo o estudo “Ready for prime time? The state of live commerce“, 83% dos usuários de plataformas que oferecem live commerce na região fizeram compras nessa modalidade pela primeira vez no ano (2023) e 63% dizem querer comprar mais produtos por meio deste formato. A faixa etária é concentrada em pessoas de 25 a 44 anos, predominantemente do gênero masculino (58%) e de áreas urbanas (86%).

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Outro estudo recente da Mckinsey & Company sobre o sentimento do consumidor mostra que 50% das compras online são feitas em marketplaces. Desse total, as varejistas exclusivamente virtuais – como Shein, Shopee e Amazon – alcançam 36% das compras. Ou seja, os players de tecnologia atendem às necessidades dos consumidores.

No Brasil, um mercado sensível a preço, o TikTok terá o desafio de buscar o melhor custo-benefício com larga escala de produtos e uma cobertura extensa da rede logística – mesmo desafio, aliás, de outra chinesa que deve iniciar em breve sua operação no Brasil, a Temu, acirrando a competição com varejistas locais como Mercado Livre e Magalu. 

Afinal, o que é live commerce?

Na modalidade de live commerce, tudo acontece dentro da rede social: os produtos são anunciados durante transmissões ao vivo e podem ser comprados – e pagos – durante a live a partir de um clique. Ou seja, a rede social se transforma em uma plataforma de e-commerce.

Esse processo é chamado de ciclo fechado entre vendedor online e usuário da rede social. Não há, portanto, a necessidade de pular para links externos. Isso evita o risco de perder usuários ou de causar algum tipo de fricção na experiência do consumidor na rede social. 

TikTok
Na live commerce, tudo acontece dentro da rede social, sem links externos

“O principal objetivo é transformar o processo de compras no ambiente on-line em uma jornada genuinamente digital”, conta Daniela Sena, CEO da Continental Corporation, com sede em Hangzhou (China). Para isso, é preciso integrar os serviços de meio de pagamentos com o de logística. 

Uma opção que o TikTok pode vir a adotar para testar o mercado antes de partir para uma operação de ciclo fechado é a de centralizar o sistema de pagamento em uma parceiro e transferir a responsabilidade pela logística para esse terceiro. “Seria uma forma de testar um novo mercado e ver se vai dar certo o modelo de vendas por aplicativo de vídeo curto”, afirma a fonte consultada, que concedeu entrevista sob a condição de anonimato.  

Algoritmo valioso

Apesar de a live commerce ser uma combinação de compra instantânea de um produto com a participação do público dentro de uma plataforma ao vivo, um executivo de uma agência especializada no Brasil afirma que a estratégia ainda é mal compreendida pelos marketplaces brasileiros. 

Segundo ele, alguns dos tradicionais varejistas de comércio eletrônico na América Latina apenas tentam imitar sem entender os algoritmos por trás das lives. O executivo explica que a proposta do TikTok Shop é utilizar os algoritmos da plataforma para personalizar recomendações, aumentando as taxas de conversão. Para se ter uma ideia, no mercado chinês, a conversão da live commerce é 2,17 vezes maior que a do e-commerce tradicional. 

Desde 2016, quando o Alibaba usou a live commerce pela primeira vez, a estratégia tornou-se a forma mais eficiente de vendas on-line na China. Dados disponibilizados pelo executivo da agência de live commerce mostram que mais de 30% das vendas no comércio eletrônico chinês são geradas por meio de lives, movimentando o equivalente a R$ 3 trilhões por ano.

Procurado, o TikTok Brasil informou que está sempre avaliando e procurando evoluir nas soluções de comércio: “Não finalizamos nenhum plano de lançamento para o TikTok Shop no Brasil. Assim que tivermos mais informações, avisaremos.” A empresa tampouco forneceu informações sobre fontes de receita no país.

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