Ações da Vivara “perdem brilho” após mudança de comando? – NeoFeed

Fonte: Ivan Ryngelblum

Por que mexer em time que está ganhando? Essa é a questão que pesa no desempenho das ações da Vivara nesta segunda-feira, 18 de março, depois do anúncio inesperado do retorno do fundador da empresa, Nelson Kaufman, ao cargo de CEO.

As ações da joalheria fecharam o pregão com queda de 14,03%, a R$ 26,41, em meio a temores de que a mudança represente uma guinada na estratégia da companhia, considerada vencedora por analistas e investidores e tocada desde 2021 por Paulo Kruglensky, que renunciou à posição de diretor-presidente.

“A reação negativa do papel ao anúncio reflete as preocupações do mercado acerca de possíveis mudanças na estratégia da Vivara, enquanto os investidores tiveram poucas interações com o Sr. Nelson, que saiu da posição de CEO antes do IPO da companhia”, diz trecho de relatório da XP Investimentos.

Kaufman deixou o comando da companhia há 13 anos, antes da abertura do capital, ocorrida em 2019. Naquele momento a companhia era liderada pelo filho de Nelson, Márcio, que deixou a empresa em fevereiro de 2021, para dar lugar a Kruglensky, sobrinho do fundador.

Normalmente, os fundadores tendem a voltar para o comando de suas empresas quando as coisas não estão boas. Este não é o caso da Vivara. Desde a pandemia, a empresa vem apresentando resultados bastante expressivos, passando ilesa aos efeitos da crise que assombra o varejo nacional, conseguindo abrir de maneira bem sucedida uma marca de joias consideradas mais em conta, a Vivara Life.

No terceiro trimestre, a companhia registrou um crescimento de 16,4% da receita líquida, em base anual, a R$ 457,3 milhões, com o lucro líquido somando R$ 76,5 milhões, alta de 12,3%, e o Ebitda ajustado crescendo 23,6%, para R$ 88,6 milhões.

O reconhecimento do bom momento pode ser visto no desempenho das ações. Em 12 meses, as ações da Vivara acumulam alta de 18,4%, levando o valor de mercado da companhia a R$ 7,2 bilhões.

Considerando essa situação, a mudança não foi bem digerida, principalmente quando se leva em conta que Nelson Kaufman declarou à imprensa e aos analistas que participaram da teleconferência na segunda-feira, 18 de março, que ele quer avançar na internacionalização da Vivara. Atualmente, a companhia conta com 330 lojas pelo País, mas nada no exterior.

Segundo os analistas do Santander, apesar de a ida da Vivara para fora sempre ter sido uma possibilidade, eles consideravam como uma “opcionalidade” na tese de investimento. “Destacamos, portanto, que as preocupações com a alocação de capital da empresa entre as inaugurações de lojas Life e Vivara no Brasil, e agora uma potencial expansão internacional devem pressionar as ações”, diz trecho do relatório.

Essa questão foi levantada também pelos analistas do J.P. Morgan, que destacaram que a Vivara Life e as estratégias de omnicanalidade, os focos recentes da companhia, vêm apresentando resultados bastante positivos, levando a empresa a se destacar dentro do varejo.

Além das dúvidas quanto à alocação de recursos, os analistas citam as consequências para a governança da companhia, diante de notícias de que a troca causou ruído interno e que não teria sido consenso no conselho de administração da empresa, segundo informações apuradas pelo site Exame.

A ata da reunião do conselho de administração que definiu a troca, realizada em 15 de março, entretanto, traz que os membros do board “deliberaram, por maioria, sem quaisquer restrições ou ressalvas” em aceitar a renúncia de Kruglensky e aprovar a eleição de Nelson Kaufman.

Para o J.P. Morgan, essa situação acaba apontando para um “potenciais conflitos de interesse dentro do grupo de controle”, com efeitos nocivos para a governança da Vivara. Os acionistas de referência da joalheira, os membros da família Kaufman, detêm 44,7% do capital da companhia.

Já os analistas da XP entendem que a volta do fundador da Vivara não representa uma mudança significativa a ponto de alterar a recomendação de compra, considerando que ele tem “forte expertise no negócio” e comentou que “não deve realizar mudanças muito disruptivas estrategicamente”, mesmo com os planos de internacionalização.

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