Crédito caro e elevado endividamento reduz apetite pelo consumo. Venda de móveis e eletrodomésticos, que costuma depender de acesso a financiamento recua 4,9%. Analistas de mercado esperavam recuo de apenas 0,1%

As vendas no comércio caíram 0,8% em julho ante junho, informou o IBGE nesta terça-feira. O mau desempenho veio pior do que o esperado por analistas, reforçando, segundo economistas, a percepção de desaceleração do consumo das famílias neste segundo semestre, efeito do crédito caro e do elevado endividamento. Mas, por outro lado, reforçando o espaço para o Banco Central (BC) seguir reduzindo os juros gradualmente.
Em junho, as vendas do varejo tinham crescido apenas 0,3% sobre maio. Na comparação com julho de 2025, houve alta de 1,2%, bem abaixo dos 2,8% registrados em junho ante junho do ano passado.
Já as vendas do varejo ampliado — que incluem os segmentos de veículos, material de construção e do atacado de bebidas, alimentos e fumo — avançaram 0,4% sobre junho, em seguida de uma queda de 1,1% em junho sobre maio. Frente a julho de 2025, houve alta de 1,8%, também bem abaixo dos 4,9% de junho ante julho do ano passado.
Analistas esperavam queda bem menor
Analistas de mercado esperavam uma queda de apenas 0,1% no varejo restrito e uma alta de 0,6% no ampliado, segundo pesquisa do jornal Valor. No caso do varejo restrito, a queda de 0,8% ante junho veio abaixo até mesmo da menor das projeções, que estimava um recuo de 0,5%.
A confirmação da desaceleração da demanda reforça que há espaço para mais um corte na taxa básica de juros (Selic, hoje em 14% ao ano), na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) que termina na quarta-feira. A expectativa de analistas é que haja mais uma redução de 0,25 ponto, para 13,75% ao ano.
Mesmo com o corte, o juro mínimo de referência da economia seguirá elevado, num nível que restringe o consumo — o BC elevou o juro a tal patamar justamente para esfriar a demanda e, assim, arrefecer a inflação, um dos principais mecanismos de funcionamento da política monetária; o ciclo de baixa iniciado em março procura mais ajustar a dose de restrição do que liberar a demanda.
O peso do juro alto
Por isso, o juro alto segue pesando sobre o varejo. Na passagem de junho para julho, o segmento que apresentou o pior desempenho foi o de móveis e eletrodomésticos (-4,9%), que costuma depender de financiamento, mas o mau desempenho não ficou por aí.
Dos oito grupos pesquisados, a segunda maior queda foi a de livros, jornais e papelaria (-4,2%). Tecidos e vestuário e calçados recuou 2,7%. Já do lado positivo, destacam-se combustíveis e lubrificantes, que tiveram avanço de 0,3%. Veja abaixo o desempenho por segmento:
- Combustíveis e lubrificantes: + 0,3%
- Hiper, supermercados, produtos. alimentícios, bebidas e fumo: -0,2%
- Tecidos, vestuário e calçados: -2,7%
- Móveis e eletrodomésticos: -4,9%
- Artigos farmaceuticos, mécios, ortopédicos e de perfumaria: + 0,6%
- Livros, jornais, revistas e papelaria: -4,2¨%
- Equipamntos e material para escritório, informática e comunicação: + 0,6%
- Outros artigos de uso pessoal e doméstico: -2,2%
Mesmo com deflação de alimentos, supermercados venderam menos
A queda de 0,2% na atividade de maior peso no comércio varejista, o setor de hiper e supermercados, chamou a atenção porque ocorreu num mês em que os preços de alimentos ao consumidor ficaram mais baratos na média, com deflação no IPCA, o índice oficial de preços, medido pelo IBGE.
Os dados “sugerem perda de fôlego do consumo das famílias, movimento que pode ser em grande medida atribuído ao patamar restritivo dos juros, o crescimento do endividamento das famílias e, consequentemente, o menor nível de renda disponível e propensão a tomada de crédito”, escreveu Matheus Pizzani, economista da empresa de meios de pagamentos PicPay, em comentário divulgado nesta terça-feira.
Segundo ele, a queda nas vendas ante junho “chama ainda mais atenção pelo fato de ser um dado pertencente a um período majoritariamente benigno do ponto de vista macroeconômico, com destaque para a inflação de alimentos, que apresentou forte queda no mês de julho”.
“O desempenho mais fraco do varejo, somado aos últimos dados da indústria e dos serviços, é compatível com a nossa leitura de que a economia brasileira está desacelerando de maneira gradual. Ainda assim, não esperamos uma perda brusca de força da atividade nos próximos trimestres”, escreveu Claudia, também em comentário divulgado nesta terça-feira.
A equipe do C6 projeta crescimento econômico de 1,7% neste ano. O quadro, segundo a economista do C6, reforça a perspectiva de corte na Selic na quarta-feira.
“Essa perda de fôlego da economia também entra na conta do Copom para a decisão de amanhã. Nossa expectativa é de um corte de 0,25 ponto percentual na Selic, para 13,75% ao ano”, escreveu Claudia.
Os economistas divergem sobre os passos seguintes do BC. A equipe do C6 espera que o Copom pare com o ciclo de cortes após a reunião deste mês. Já a equipe do PicPay vê mais uma redução de 0,25, com a taxa básica encerrando o ano em 13,5% ao ano.





