Dia da Amazônia: Empreendedores transformam o látex nativo em produtos, biomateriais e experiências

Fonte: Redação

O látex que escorre das seringueiras vem ganhando novos destinos – e abrindo espaço para diferentes modelos de negócio. A matéria-prima associada à indústria agora também vira solado de calçados, fios para joias orgânicas e experiências turísticas. Ao unir criatividade, inovação e conhecimento tradicional, empreendedores diversificam o uso da borracha e criam produtos e serviços ligados à sua origem.

Iniciativas como Dr. da Borracha, Da Tribu e Seringô rompem com a lógica de venda da commodity ao incorporar tecnologias sociais e design autoral à cadeia produtiva. Métodos de beneficiamento que permitem realizar parte da transformação nas próprias comunidades aumentam a rastreabilidade e melhoram a remuneração das famílias extrativistas, além de aproximá-las de um mercado interessado em sustentabilidade, procedência e identidade.

Para Rubens Magno, diretor superintendente do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas no Pará (Sebrae-PA), a borracha natural é “um dos exemplos mais simbólicos da bioeconomia e da sociobiodiversidade”, por depender da conservação do ecossistema para existir. Nesse modelo, a floresta em pé ganha competitividade econômica e as pessoas assumem outro papel no processo, fazendo com que as “populações tradicionais passem de mão de obra explorada a protagonistas – fornecedores reconhecidos ou parte da própria identidade do produto”.

Riqueza da seringueira
Filho e neto de seringueiros, José Rodrigues de Araújo, 54 anos, aprendeu que a floresta podia ser território de sobrevivência e fonte de conhecimento. Acreano, morador de Epitaciolândia, começou no corte da seringa, atividade que atravessou gerações de sua família. Décadas depois, transformou a matéria-prima, antes vendida como insumo para a indústria, em calçados, biojoias, acessórios e experiência turística.

VALOR DA MATA - José Rodrigues de Araújo, o Dr. da Borracha, transforma látex em calçados e biojoias e aposta também no turismo ecológico — Foto: Divulgação
VALOR DA MATA – José Rodrigues de Araújo, o Dr. da Borracha, transforma látex em calçados e biojoias e aposta também no turismo ecológico — Foto: Divulgação

Conhecido como Dr. da Borracha, ele combina artesanato, inovação, sustentabilidade e valorização da identidade amazônica. O negócio produz 450 peças por mês, emprega dez pessoas e registrou receita de R$ 240 mil em 2025. Neste ano, espera alcançar até R$ 350 mil.

A virada ocorreu em 2004, durante uma capacitação com professores da Universidade de Brasília (UnB), quando conheceu uma tecnologia de processamento menos poluente que as técnicas tradicionais. Dois anos depois, fez um calçado para o filho e descobriu uma nova oportunidade: “O segundo sapato que fiz eu já vendi ele, e daí foi indo”.

Hoje, a transformação do látex dentro do próprio território está no centro da atividade, que incorpora trabalho manual, design e criatividade. Os calçados são o carro-chefe da empresa, com 30 modelos vendidos por R$ 150 a R$ 200. O portfólio inclui bolsas, chaveiros e itens personalizados.

Há dois anos, Araújo levou essa história também para o turismo ao criar o Parque Ecológico Dr. da Borracha, que recupera a memória da família e do seringal. Por R$ 50 a R$ 100, visitantes percorrem trilhas, conhecem a extração do látex e podem confeccionar peças.

A expansão passa agora por feiras e pela conquista de novos mercados. “Hoje temos um produto reconhecido mundialmente”, comemora.

Raízes da inovação
Em Belém (PA), a floresta é a base da empresa Da Tribu, fundada em 2009 pela artesã Kátia Fagundes, 63 anos. Criada como alternativa de renda para uma mãe que sustentava sozinha três filhos, a iniciativa cresceu apoiada nos saberes tradicionais e na transformação da borracha amazônica em peças de maior valor agregado.

NOVA TRADIÇÃO - Tainah Fagundes (à esq.) e a mãe, Kátia, transformam a borracha em joias, biomateriais e experiências na Da Tribu — Foto: Divulgação
NOVA TRADIÇÃO – Tainah Fagundes (à esq.) e a mãe, Kátia, transformam a borracha em joias, biomateriais e experiências na Da Tribu — Foto: Divulgação

A trajetória, até então pautada no artesanato, ganhou novo rumo entre 2014 e 2015, com a chegada da filha Tainah Fagundes, 44. À frente da área comercial, ela aproximou o negócio da economia criativa e da inovação em biomateriais. A rede inicial, formada por familiares, amigos e artistas, passou a incorporar comunidades produtoras de látex, usado nas peças, e outros parceiros.

Em 2025, o faturamento chegou a R$ 850 mil e pode alcançar R$ 1 milhão neste ano. Parte vem das joias orgânicas. O látex adquirido de seringueiros é beneficiado e combinado a fio de algodão ecológico para formar um tecido moldável, usado em anéis, brincos, colares e pulseiras, com preço médio de R$ 159. Bolsas chegam a R$ 600.

Da Tribu — Foto: Divulgação
Da Tribu — Foto: Divulgação

Da Tribu — Foto: Divulgação
Da Tribu — Foto: Divulgação

A tecnologia abriu um novo mercado: fios e tecidos de borracha natural são fornecidos a grifes e escritórios de arquitetura. “A gente se entende como uma plataforma de inovação.”

Cerca de 40 pessoas integram a rede produtiva, distribuída pelo Pará. Essa conexão com o território abriu as portas para o turismo: em uma imersão de um dia, visitantes acompanham a extração da matéria-prima até sua conversão em joia. A experiência custa R$ 560 para grupos de até seis pessoas.

Com pontos de venda nos EUA, na Inglaterra, na Itália e no Japão, a empresa mira o exterior. No fim de 2026, lançará na Brasil Eco Fashion Week uma coleção com pigmentos minerais desenvolvidos em parcerias de pesquisa internacionais.

Látex com propósito
O professor e pesquisador Francisco Samonek, 75 anos, acumulou décadas de experiência na Amazônia antes de fundar a Seringô, em 2018. A trajetória, iniciada no Acre, junto a indústrias nos anos 1980, resultou em um negócio que hoje contribui para proteger mais de 156 mil hectares de floresta nativa.

Francisco Samonek, fundador da Seringô, envolve 1.565 famílias ribeirinhas na cadeia da borracha — Foto: Divulgação
Francisco Samonek, fundador da Seringô, envolve 1.565 famílias ribeirinhas na cadeia da borracha — Foto: Divulgação

O empreendimento nasceu para ampliar a autonomia dos produtores e agregar valor à matéria-prima na origem. Atualmente, alcança 1.565 famílias ribeirinhas de 85 comunidades, distribuídas por 12 municípios do Pará. “O seringueiro é dono da borracha dele. No modelo tradicional, quem é o dono é o patrão.”

Um dos diferenciais é o Cernambi Virgem Ecológico (CVE), tecnologia certificada pela Fundação Banco do Brasil em 2021. O método dispensa maquinário pesado e permite o processamento na própria casa, abrindo espaço também para a participação feminina. Mulheres dos seringais fazem artesanato e biojoias, como brincos e colares.

A inovação chegou também ao portfólio, livre de derivados de petróleo ou minerais. Os tênis, vendidos a partir de R$ 400, levam 70% de borracha natural e 30% de caroço de açaí micronizado. Há ainda utilidades domésticas, vestuário com desenhos marajoaras e peças tingidas com corantes naturais.

Cada artigo possui QR Code que comprova a origem e permite rastrear os insumos. A empresa mantém fábrica em Castanhal (PA) e loja em Belém (PA). Após começar com até R$ 1 milhão em recursos próprios, recebeu R$ 2,5 milhões, para pesquisa e desenvolvimento, da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), empresa pública federal vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).

Em 2025, a empresa faturou R$ 600 mil e projeta superar R$ 1 milhão neste ano, com a abertura de mercados e o início das exportações.

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