O setor de apostas no Brasil cresce a cada dia. Dados do Ministério da Justiça mostram que já são 27 milhões de apostadores ativos no País. Um em cada quatro brasileiros aposta todos os dias. Juntas, as bets já movimentam R$ 30 bilhões por mês – um volume que rivaliza com setores inteiros da economia e que, ao mesmo tempo, carrega a suspeita de ser responsável pelo aumento da inadimplência e da ludopatia no País.
Diante do cenário marcado por controvérsias, o Grupo Padrão e a Consumidor Moderno promoveram o A Era do Diálogo Best Bets, um evento que cria um espaço neutro onde empresas, reguladores e órgãos de defesa do consumidor dialogam em prol de um mercado mais seguro e transparente, com foco em quem mais importa: o consumidor.
Ao abrir essa discussão, Jacques Meir, diretor executivo de conhecimento do Grupo Padrão e mentor da CX Brain, lembra que, milhares de anos antes de existir qualquer aplicativo de apostas, tribos antigas já jogavam pedaços de pau, varetas e folhas no chão para decidir se aquele era ou não um bom dia para caçar. Por isso, para ele, entender o comportamento do apostador de hoje passa por reconhecer que o impulso de arriscar não é um fenômeno recente, nem exclusivamente brasileiro.
“As apostas por padrões monetários datam de mais de 2.600 anos antes de Cristo. Logo, a ideia de aposta faz parte da nossa evolução e ela caracteriza a diferença entre uma opinião e um resultado”, afirma.
Parte do entendimento do contexto que envolve o mercado de apostas no País passa, segundo ele, por compreender que correr riscos sempre fez parte do processo adaptativo e evolutivo da humanidade.

As chances já estão contra o consumidor
Se apostar é antigo, o motivo pelo qual o brasileiro tem apostado tanto é, para Jacques, uma consequência da vida cotidiana.
“Me perdoem se eu, de repente, soar um pouco polêmico. A ideia básica é que quando o brasileiro sai para a rua, todas as chances estão contra ele. Ele não sabe se vai ser assaltado, se vai perder o celular, se vai conseguir pegar o transporte público e chegar na hora onde precisa. Se todas as chances já estão contra ele, por que não fazer uma ‘fezinha’?”, provoca.
A questão é que, esse consumidor que decidiu apostar, precisa encontrar mais transparência e segurança para que a tomada de risco não seja tão crítica.
O vácuo regulatório que se repete
Muito além do comportamento do consumidor, a verdadeira falha, na visão de Jacques, é a falta de informação de qualidade para embasar decisões. Algo que não é exclusividade do mercado de apostas.
“Nós criamos a assimetria de informação o tempo todo. Nós, efetivamente, como sociedade, estamos falhando nesse ponto”, disse. Como exemplo concreto, ele cita uma pessoa que depende de um remédio controlado, recebe uma receita válida por 30 dias, mas só consegue nova consulta pelo convênio depois de 35. Nesse intervalo, fica sem cobertura.
“Qual vai ser a tomada de risco dessa pessoa? Ela vai buscar no mercado paralelo? Tem um vácuo regulatório aqui, e nós temos esses vácuos regulatórios acontecendo o tempo todo em muitos segmentos: no financeiro, na saúde, na eletricidade, e no mercado de apostas”, afirma.
A comparação traz para o debate um fator importante: as bets precisam ser vistas a partir de uma visão mais ampla, que envolve comportamentos, lacunas regulatórias e fatores que envolvem diferentes setores da economia.
O convite para uma discussão madura
Na busca do equilíbrio entre regulação, experiência e combate às bets ilegais, o Best Bets é um evento que qualifica o debate sobre o mercado de apostas no País.
“Que nós possamos ter uma discussão madura sobre como podemos melhorar a qualidade da informação para que as pessoas, apostadores e não apostadores, possam tomar melhores decisões com aquilo que as caracteriza. E mais do que isso, que elas possam tomar boas decisões financeiras para não colocar em risco a sua própria evolução social, financeira, familiar e assim por diante”, diz Jacques.
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