Quanto custa estar lá? Shows entram no orçamento e mudam o consumo

Fonte: Victoria Pirolla
  • A participação dos brasileiros em shows musicais passou de 45% para 51% entre 2025 e 2026.
  • Para participar desses eventos, 83% dos consumidores se planejam financeiramente. Mesmo assim, 33% já contraíram dívidas e 14% deixaram uma conta básica sem pagamento.
  • Quando a venda oficial termina, parte da procura migra para o mercado secundário.
  • Plataformas de intermediação tentam organizar uma negociação antes concentrada em grupos e redes sociais.

Às 10h, a venda começa. Em poucos minutos, centenas de milhares de pessoas estão diante da mesma fila virtual. Quando finalmente chega a vez de parte delas, a tela informa que os ingressos acabaram. Para a bilheteria oficial, a história termina ali. Para o fã, começa uma nova saga.

Ele atualiza a página, busca uma data extra, pergunta nos grupos e publica nas redes sociais. Depois disso, embarca no mercado secundário. O desejo de viver aquela experiência é tão grande que a palavra “esgotado” já não significa, necessariamente, desistência.

Um exemplo recente exemplifica essa disputa: para os três shows que o BTS realizará em São Paulo, mais de 1,9 milhão de pessoas passaram pelo processo de compra no site oficial. Somadas, as apresentações no MorumBIS têm capacidade prevista para cerca de 253 mil espectadores. Mesmo considerando quem acessou a plataforma mais de uma vez, a diferença dá uma ideia de quantas pessoas ficarão de fora.

Mas a alta nas buscas não é um hype isolado do grupo. O brasileiro está saindo mais de casa, frequentando mais shows e reservando parte da vida financeira para essas experiências. Segundo a pesquisa Hábitos Culturais, da Fundação Itaú e do Datafolha, 88% da população realizou alguma atividade cultural presencial, alta de quatro pontos percentuais em relação a 2025. A participação em apresentações musicais passou de 45% para 51%.

E essa prática também conquistou um espaço no planejamento financeiro. Uma pesquisa da Serasa, realizada com o Mapa dos Festivais e o Instituto Opinion Box, mostra que 83% dos frequentadores de shows e festivais se organizam financeiramente para participar desses eventos. Quase metade começa a preparar o orçamento entre um e três meses antes.

Mas nem sempre o planejamento é suficiente. Entre os consumidores ouvidos, 33% já se endividaram para participar desses eventos, a mesma parcela recorreu à reserva de emergência e 14% deixaram uma conta básica sem pagamento para não ficar de fora.

É entre o “esgotado” e a vontade de estar lá que cresce o mercado secundário. Porque se o fã se planejou ou até tirou o dinheiro de onde não podia, ele não medirá esforços para viver o que deseja.

O consumidor não aceita ficar de fora

Diferentemente de outros produtos, um show tem data e hora. Se o consumidor perder aquela oportunidade, não poderá voltar na semana seguinte e encontrar a mesma experiência na prateleira.

Por isso, quando os ingressos terminam na bilheteria oficial, a procura migra. De um lado, está quem quer participar, mas não conseguiu comprar. Do outro, quem adquiriu a entrada com meses de antecedência e teve um imprevisto ou quem nem é tão fã assim e agora vê na alta procura uma oportunidade faturar com a sua valiosa entrada.

A aproximação entre esses dois consumidores formou um mercado que já existia muito antes das plataformas digitais, mas funcionava principalmente em grupos, redes sociais e negociações na porta dos eventos.

“O mercado secundário sempre existiu, mas nunca foi assistido. Sempre ficou na neblina, muito associado a golpes e cambismo”, afirma Angelo Bimbato, fundador e CEO da BuyTicket.

Criada em 2023, a plataforma funciona como intermediária entre quem precisa vender um ingresso e quem continua procurando depois do esgotamento oficial. Segundo estimativa da empresa, a revenda movimenta entre 10% e 15% dos ingressos de um evento, dependendo do nível de procura.

A urgência abre espaço para golpes

Quanto mais próximo o show, menor costuma ser o tempo dedicado a conferir quem está vendendo. O consumidor encontra um perfil nas redes sociais, recebe uma imagem ou um suposto comprovante, faz a transferência e espera pelo ingresso. Em muitos casos, ele nunca chega.

A própria BuyTicket nasceu depois que Angelo, que organizava festas em Brasília, viu pessoas chegarem aos eventos com bilhetes falsos ou relatarem que haviam pago a desconhecidos.

“O famoso ‘Pix caiu, a foto sumiu’. A pessoa chegava até a organização, mas não havia muito o que fazer, porque a compra não tinha acontecido pelos canais indicados”, lembra.

Nem mesmo conhecer esse risco torna alguém imune. Depois da criação da empresa, os próprios empreendedores já cairam em golpes ao tentar comprar ingressos para amigos pouco antes de um show.

“O que o desespero não faz? Faltava menos de uma hora, não havia nenhum ingresso anunciado na plataforma e acabamos recorrendo a um grupo de WhatsApp. O golpista aproveita exatamente essa vulnerabilidade, esse momento de euforia do fã”, conta.

Na maioria das vezes, o criminoso nem sequer precisa ter um ingresso falso. Ele só precisa encontrar alguém que queira tanto participar que aceite transferir o dinheiro antes de considerar o risco.

Organizar essa procura virou negócio

A proposta da BuyTicket é retirar essa transação das mensagens privadas. O comprador não envia o pagamento diretamente a um desconhecido, e a plataforma acompanha a negociação e atua caso exista algum problema.

O começo coincidiu com duas turnês marcadas por uma procura enorme no Brasil: Taylor Swift e RBD, em 2023. Para chegar aos fãs, a empresa se aproximou de páginas que monitoravam ingressos e de fã-clubes que já tentavam conectar compradores e vendedores informalmente

“O administrador de uma página recebia todos os dias mensagens de pessoas perguntando se alguém tinha ingresso ou se determinado vendedor era confiável. Muitas vezes, ele próprio tentava ligar quem queria comprar a quem precisava vender”, explica Gustavo Celso, CFO e cofundador da BuyTicket.

A plataforma reúne quase 700 mil usuários cadastrados e já intermediou mais de 150 mil ingressos. Atualmente, a BuyTicket recebe, em média, um milhão de usuários únicos por mês.

Os números são da própria companhia, mas mostram a demanda existente por uma segunda chance quando a primeira venda termina.

O mercado secundário ganhou regras

A revenda pode ajudar quem ficou sem ingresso e quem já não poderá comparecer. Mas também abre espaço para preços abusivos, especulação e compradores profissionais que adquirem entradas apenas para revendê-las por valores maiores.

Por isso, em agosto de 2026, o Decreto nº 13.108 reconheceu formalmente a figura do intermediador secundário de ingressos e estabeleceu obrigações para essas plataformas.

Elas devem informar o valor original do bilhete, destacar quando o preço de revenda for superior, diferenciar vendedores profissionais de pessoas físicas e adotar medidas contra anúncios automatizados, abusivos ou especulativos. Além de deixar claro que não são o canal oficial do evento.

As regras não funcionam como um selo de aprovação para cada empresa nem eliminam todos os riscos. Mas tornam mais claras as responsabilidades de quem decidiu ocupar o espaço entre o comprador, o vendedor e a catraca.

A BuyTicket afirma que várias dessas práticas já faziam parte de sua operação antes do decreto. “O mercado sempre esteve em uma zona cinzenta. Recebemos o reconhecimento dessa atividade com bons olhos porque ele estabelece o que pode ser feito e quais são as responsabilidades do intermediador”, afirma Angelo.

Entre o desejo e o risco

O mercado secundário cresce porque resolve uma situação muito comum: os ingressos acabaram, mas o consumidor ainda quer estar lá. Muitas vezes até se planejou financeiramente ou deixou de pagar uma conta para viver esse sonhado momento.

Esse desejo movimenta dinheiro e sustenta uma cadeia que vai muito além do palco. No primeiro semestre de 2026, o consumo relacionado a eventos alcançou R$ 76,9 bilhões no Brasil, alta de 8,2% em um ano, segundo a Associação Brasileira dos Promotores de Eventos.

Mas a mesma vontade que fortalece esse mercado pode tornar o fã mais suscetível a golpes, dívidas e preços que sobem muito acima dos valores originais.

É nesse espaço que plataformas como a BuyTicket tentam encontrar seu lugar: não criando a revenda, que sempre existiu, mas oferecendo uma estrutura segura para uma procura que antes acontecia inteiramente no escuro.

O consumidor não desiste quando encontra a palavra “esgotado”. Ele procura outra porta. E, diante de uma experiência que não quer perder, segurança pode (e deve) pesar tanto quanto conseguir o ingresso.

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