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Investimento anjo tem potencial para crescer ao menos sete vezes no Brasil, diz Cassio Spina

Fonte: fernandoprandi

O montante de investimento anjo realizado no Brasil poderia ser ao menos sete vezes maior do que o aporte atual. A fala é de Cassio Spina, fundador da Anjos do Brasil, entidade que apoia o empreendedorismo de inovação. “Nossa pesquisa computou R$ 984 milhões aplicados em startups brasileiras no ano de 2022. Se compararmos com os Estados Unidos, que tem investimento anjo anual da ordem de US$ 20 bilhões (cerca de R$ 100 bilhões), vemos o potencial de crescimento por aqui. Nossa economia representa cerca de 7% do PIB americano, então poderíamos investir muito mais para sermos proporcionais”, diz o investidor, durante o Zero ao Topo Especial patrocinado por XP Empresas.

Cassio é um dos principais nomes de investimento anjo do país. Autodidata em programação, ele começou a empreender quando ainda estava na faculdade de Engenharia Elétrica, e teve empresas de vários setores, como tecnologia, equipamentos e soluções. “Recebi investimentos de grandes fundos e comecei a aprender de perto o dia a dia, as ferramentas e as estratégias dos investidores. Em 2009, eu vendi minha última empresa, completei o ciclo, e vi a oportunidade de devolver à comunidade empreendedora aquilo que aprendi”, afirma.

Foi assim que ele fundou a Anjos do Brasil, em 2011, quando o assunto ainda era desconhecido no país e sequer tinha menções no Google. “O fato é que o Brasil começou atrasado esse processo. Enquanto o mercado começou a se desenvolver por aqui em meados de 2014, os Estados Unidos têm investidores-anjo desde a década de 1970”, explica.

A Anjos do Brasil foi fundada para ser a ponte entre empreendedores e investidores-anjo, que já possuem uma certa bagagem de mercado — normalmente são empresários, executivos ou profissionais liberais — e aportam na empresa não só em termos financeiros, mas para agregar valor compartilhando conhecimentos, experiência e rede de relacionamentos. “Quando criei a Anjos do Brasil, a ideia era montar esse ecossistema, que funciona com o apoio na educação sobre o tema e na exposição de oportunidades para os empreendedores”, afirma.

Desde a fundação, a Anjos do Brasil intermediou investimentos em 186 startups. “Temos 510 membros ativos, divididos em 10 núcleos regionais nas principais cidades do Brasil. Nos primeiros anos, nós realizamos 2 ou 3 investimentos por ano. Em 2021, batemos o recorde de mais de 30 aportes realizados e o número não para de crescer”, afirma.

Entre os exemplos, o executivo cita alguns mais recentes que cumpriram o ciclo integral, que consiste em construção, aporte e venda. Um deles é a Prevision, uma construtech do Sul do país, que foi comprada pelo Grupo Softplan. A outra é a Manipulaê, marketplace para laboratórios de remédios manipulados, comprada pela Drogasil. Ambas passaram pela Anjos do Brasil.

Para se ter uma ideia, a Anjos do Brasil recebe mais de 1.500 aplicações por ano, mas só seleciona cerca de 20 delas anualmente para receber aporte. “Um pouco mais de 1% acaba recebendo investimento. Muitos empreendedores sobrevivem no feeling, muitas vezes não tem uma política de investimento, de governança para criar previsibilidade e isso atrapalha os planos”, diz.

Para ele, a aposta dos empreendedores deve ser em um modelo colaborativo, onde cada um tem seu foco. “Por exemplo, a XP Empresas pode ser uma ótima opção de gestão financeira e de investimento. Assim o empreendedor toca o negócio e a XP cuida do lado financeiro.  Além disso, as startups são enxutas na estrutura e contar com uma gestão financeira experiente ajuda a dar espaço para a inovação e crescimento”, diz.

Os desafios dos investimento anjo

De acordo com Spina, há um conjunto de desafios para ampliar os investimentos anjo no Brasil. Começando pelo conhecimento sobre essa possibilidade. “Atuamos com educação dos investidores e muitos não sabem sequer que isso existe, uma vez que a cultura do investimento ainda é recente por aqui”, explica. Além disso, há o contexto econômico do país, com taxas de juros que desestimulam os investidores a apostar na economia real. “Boa parte vai para renda fixa em busca de ganhos seguros”.

O terceiro ponto, segundo o executivo, é a ausência de uma política de estímulo para investimento em startups. “A maior parte dos países têm política definida. Se pegarmos os Brics como exemplo, todos possuem regras de estímulo. A África do Sul tem um programa em que, além de ter isenção, você pode compensar o aporte em até 100% no seu imposto de renda devido. Isso faz toda diferença para estimular o investidor anjo”, afirma.

Um estudo da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) traz uma recomendação expressa de criação de políticas de estímulo de investimentos para alavancar as economias.

“No Brasil, além de não ter política, se você investe em uma startup, o ganho é tributado até como ganho de renda fixa, não pode nem compensar. Então, há essa falta de equiparação tributária e de estímulo. Enquanto o Brasil não adotar vai ser difícil de acelerar isso. É importante frisar que o que queremos não é renúncia fiscal para investidor, é política. Tem estudo que mostra que o investimento em startup aumenta a arrecadação, por exemplo”, diz Spina.

Esse assunto está na agenda da Anjos do Brasil. Recentemente, o senador Carlos Viana apresentou um projeto para permitir que investidores-anjo deduzam do Imposto de Renda (IR) o aporte de capital destinado às startups. Segundo o parlamentar, o investimento deve durar pelo menos dois anos e a dedução será de no máximo 2% do IR. A operação ficará sujeita à fiscalização. “Estamos aguardando os desdobramentos, mas seguimos otimistas com o potencial”, diz Spina.

A Anjos do Brasil foi convidada para a edição do Zero ao Topo, podcast da InfoMoney. A íntegra do bate papo pode ser conferida aqui.

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