Em sua terceira edição, o Credit and Collection Experience (CCX) se consolida como um dos eventos mais importantes do País sobre o mercado de crédito e cobrança. Neste ano, o evento reúne executivos, especialistas e lideranças do mercado financeiro para discutir inteligência de crédito, risco, recuperação e eficiência operacional a partir de uma tema que vai nortear o futuro do setor: “Crédito sob tensão. O Brasil no limite da inadimplência“.
Jacques Meir, diretor executivo de Conhecimento do Grupo Padrão e mentor da CX Brain, deu as boas-vindas aos participantes e convidados e foi bem objetivo: “Que Brasil queremos ser?”
Jacques situou sua fala inicial em um ano de eleições e alertou para a ausência de qualquer discussão estruturada sobre o rumo econômico do país. “Ainda não se fala muito sobre isso”, afirmou.
Para o executivo, o Brasil ainda não decidiu entre dois caminhos possíveis: “Será que continuaremos sendo o fazendão do mundo? Ou será que realmente teremos um país que se notabilizará por uma economia de serviços muito pujante? Nós não sabemos”.
Os sintomas de um país de alta inadimplência
Essa indefinição, na leitura de Jacques, é acompanhada por sintomas que já aparecem nos números de mercado:
- Em maio de 2026, o Brasil chegou a 83,5 milhões de negativados, o maior número da série histórica, após 17 meses consecutivos de alta (segundo o Serasa, Mapa de Inadimplência e Renegociação de Dívidas, maio de 2026).
- O número de brasileiros inadimplentes chegou a 81,7 milhões em fevereiro de 2026, um aumento de 38,1% em relação a 2016, com o valor total das dívidas crescendo 176% no período.
Jacques também foi certeiro ao avaliar que o Brasil vive hoje uma contradição no mercado de trabalho: de um lado, empresas contratam profissionais com um a dois salários mínimos, muitos dos quais resistem a abandonar os programas assistenciais do governo. De outro, falta mão de obra qualificada, justamente o perfil mais disputado. Ou seja, a conta não fecha.

Efeito “rouba monte” e a conta que sobrou para os mais jovens
Outro ponto central da fala do mentor da CX Brain foi a instabilidade do crescimento econômico brasileiro, que ele descreve como um cenário de “rouba monte”. Segundo ele, o Brasil vive um ano de expansão seguido por outro de estagnação, sem uma consistência que permita às empresas planejar um crescimento sustentado de dois dígitos.
Jacques também chamou atenção para uma mudança estrutural pouco discutida: o fechamento da janela demográfica. “Se antes o crescimento do país foi financiado pelas gerações mais velhas, hoje é a geração mais jovem que precisa sustentar os mais velhos”, diz. Para ele, o país vive essa inversão delicada, que ainda não entrou de fato no radar do debate público.
Desigualdade, crédito e aposentadoria
O executivo também trouxe à tona um retrato da desigualdade brasileira: um país de renda média, marcado por poucos milionários e bilionários, enquanto a maior parte da população não consegue guardar sequer uma parcela da renda ao longo do mês.
Nesse cenário, Jacques entende que o crédito e sua boa gestão deixam de ser tema técnico e se tornam, em suas palavras, “condição para o próprio crescimento do país”.
A crítica do especialista se estendeu também às decisões econômicas tomadas até aqui, consideradas insuficientes por ele para garantir um futuro financeiro seguro à população.
O tom sobre a aposentadoria foi um dos mais duros em sua fala de abertura: “Podemos esquecer disso. Qualquer pessoa que pense em se aposentar antes dos 75 anos deve ser muito otimista”, disse, completando que o país “hipotecou o futuro” das próximas gerações.
O papel do CCX nesse cenário
Apesar do diagnóstico severo e realista, Jacques Meir coloca o CCX como parte da busca por soluções para esses desafios do Brasil. Segundo ele, ao colocar lado a lado a dinâmica da economia, a concessão de crédito e a recuperação de dívidas, sempre sob a ótica da experiência do cliente, o CCX busca justamente criar as condições para a construção de conhecimento e análises que levem a decisões empresariais, financeiras e econômicas mais assertivas.
Ao encerrar sua fala, Jacques salientou: “O Brasil precisa da nossa participação e precisa que nós, como pensadores, como executivos, possamos influenciar melhores decisões. Essa dinâmica da economia e da concessão do crédito é um elemento fundamental para o crescimento”.






