Disputa eleitoral nacional passa pelas prioridades de cada região

Fonte: Redação

Lúrya Rocha (sob supervisão)

Publicado em 21/8/2026

No primeiro turno das eleições gerais de 2026, em 4 de outubro, cerca de 158,7 milhões de eleitores e eleitoras estarão aptos a escolher novos representantes políticos, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O total representa um crescimento de 1,46%, em relação ao pleito de 2022.

Esse crescimento, bem como a distribuição dos eleitores pelo território, não é uniforme pelo país. Por exemplo: o Norte foi a região que mais cresceu proporcionalmente, com alta de 4,37% do seu eleitorado. Mesmo assim, os seis estados somados reúnem pouco mais de 7,5% do eleitorado nacional.

Já o Sudeste, única região em queda desde 2022 — perdeu 0,56% do seu contingente — ainda possui quase metade do peso eleitoral: pouco menos de 42%.

As prioridades locais de cada região brasileira ajudam a explicar por que a distribuição territorial dos votos ocupa posição central nos cálculos das campanhas pelo Palácio do Planalto. Embora cada eleitor tenha o mesmo peso na eleição presidencial, independentemente do estado onde vive, a forma como se concentram ou se dispersam os votos influencia as estratégias dos candidatos.

Cerca de 158,7 milhões de eleitores e eleitoras estarão aptos a votar este ano Tânia Rêgo/Agência Brasil e Tomaz Silva/Agência Brasil

É nesse ponto que as demandas regionais passam a ter peso político. Uma pauta pode ter apelo mais forte em uma determinada região e, com isso, ampliar ou reduzir a votação de um candidato naquele local. Os presidenciáveis precisam formar uma maioria nacional, mas podem chegar a ela por diferentes combinações de estados e regiões.

A mudança na participação relativa do eleitorado, portanto, ainda não altera quais áreas concentram mais votos, mas pode influenciar onde cada candidatura buscará apoio e quais temas receberão maior atenção.

O consultor legislativo Caetano Araújo, do Núcleo de Direito do Estado do Senado, defende que a busca por votos em uma disputa presidencial exige presença nacional equilibrada, mesmo que a intensidade da campanha varie entre estados.

— Não é plausível que os candidatos competitivos venham a optar pela estratégia da concentração em determinados estados ou regiões. Essa estratégia, contudo, pode vir a ser racional para candidatos que, cientes da derrota futura nas urnas, pretendam apenas o fortalecimento eleitoral de seu nome ou da sua sigla em determinadas unidades da Federação.

A escolha do presidente também repercute diretamente nas políticas que chegam aos estados e municípios. Além de definir prioridades do governo federal, o chefe do Executivo elabora e envia ao Congresso o Plano Plurianual (PPA), a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e a Lei Orçamentária Anual (LOA), que estabelecem os recursos destinados a áreas como saúde, educação, segurança, infraestrutura e assistência social. As decisões presidenciais também afetam transferências da União e programas que dependem da cooperação entre os três níveis de governo, como SUS, Fundeb, Bolsa Família e iniciativas de segurança pública.

As decisões do presidente orientam ministérios responsáveis por programas que chegam à população Roque de Sá/Agência Senado e Jefferson Rudy/Agência Senado

A capacidade de uma região de fazer suas demandas avançarem, porém, não depende apenas da Presidência. Ela também passa pela representação no Congresso Nacional. Na Câmara dos Deputados, os 513 parlamentares são distribuídos entre os 26 estados e o Distrito Federal conforme o tamanho da população de cada um (respeitados o mínimo de oito e o máximo de 70 cadeiras por estado).

Bancadas maiores tendem a ter mais condições de ocupar postos de liderança, relatorias e espaços de influência na Câmara, o que pode facilitar a tramitação de projetos de interesse regional. Enquanto isso, estados com menor número de deputados dependem mais da capacidade de articulação com outros partidos e regiões.

Assim, também no Parlamento se reproduz a dinâmica do peso populacional orientando a bússola da política. No entanto, o consultor Caetano Araújo destaca que a distribuição atual das cadeiras não acompanha integralmente as mudanças demográficas ocorridas no país.

— Na prática, nossa Câmara dos Deputados reflete a distribuição da população dos anos 1980. Contudo, houve mudanças importantes desde então na distribuição da população brasileira.

A defasagem na distribuição das cadeiras produz efeitos distintos entre as unidades da Federação: em termos estritamente numéricos, alguns estados cresceram em população e estão subrrepresentados, enquanto outros têm mais deputados do que o seu total de habitantes poderia justificar. Segundo Caetano, o argumento utilizado para defender essa configuração, bem como o piso e o teto de deputados por bancada, é que a sobrerrepresentação dos estados menores funcionaria como compensação à concentração econômica em São Paulo e ajudaria a preservar o equilíbrio federativo.

Porém, já existe um contrapeso: no Senado, todas as unidades da Federação têm a mesma representação — três senadores. Isso garante pelo menos um espaço onde os estados menores possam dialogar, reivindicar e influenciar as decisões nacionais em pé de igualdade.

Na Câmara dos Deputados, as vagas dos estados são distribuídas conforme a população Pedro França/Agência Senado e Saulo Cruz/Agência Senado

Nesse cenário, quais são as prioridades dos eleitores e como elas se manifestam no mosaico regional? A pesquisa Panorama Político, publicada em junho de 2024 pelo Instituto DataSenado, mostrou que, de modo geral, a saúde é a principal preocupação dos brasileiros, seguida pelo custo de vida, pela corrupção e pela segurança pública. Educação e emprego, por sua vez, estão entre os temas que recebem menos menções.

Mais recentemente, um levantamento do PoderData/Aya, realizado entre 9 e 12 de agosto, revela a segurança pública como prioridade da população. Saúde e educação vêm em seguida, enquanto inflação, emprego e renda e combate à corrupção ocupam as últimas posições.

O consultor Caetano Araújo observa que a existência de diferenças regionais não oculta a presença de demandas comuns entre os eleitores de todo o país. Essa convergência ajuda a explicar por que temas nacionais continuam relevantes mesmo em disputas marcadas por interesses locais.

— As semelhanças na pauta de interesses verificada nos diferentes estados parecem ser mais relevantes que as diferenças entre eles.

Ainda assim, particularidades sociais, econômicas e demográficas entre as regiões ajudam a contextualizar a priorização das demandas, embora as pesquisas não estabeleçam uma causa direta para cada preferência.

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Norte

No Norte, a saúde é apontada como prioridade por 31% da população, de acordo com o DataSenado. O resultado está associado às dificuldades de acesso a hospitais, profissionais e atendimento especializado em áreas rurais, ribeirinhas e afastadas das capitais. Estudos sobre desigualdades regionais indicam obstáculos maiores de deslocamento e de oferta de serviços, sobretudo em procedimentos de maior complexidade.

Além disso, é a região onde a preocupação com emprego tem o maior índice do país, sendo citado por 13% dos entrevistados, No Sul e no Centro-Oeste, em comparação, esse percentual é de 7%.

O perfil etário local contextualiza essa demanda. O Norte é a região mais jovem do Brasil, com cerca de um quarto dos habitantes com até 14 anos, segundo o Censo de 2022 promovido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica (IBGE). A presença expressiva de crianças e adolescentes reforça a necessidade de políticas de educação, qualificação profissional e ampliação das oportunidades de trabalho e renda.

A segurança pública, citada como prioridade por 22% dos nortistas segundo o PoderData, também recebe destaque. Além das questões comuns a outros centros urbanos, a região se distingue pela extensão territorial, a presença de áreas de fronteira e os conflitos relacionados a crimes ambientais e disputas fundiárias.

Saúde e segurança lideram as prioridades no Norte, onde o acesso a serviços públicos ainda é um desafio Átilas Moura/Pref. Rio Branco, Clóvis Miranda/Pref. Manaus e Marcelo Camargo/Agência Brasil

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Nordeste

No Nordeste, segurança e saúde também apareceram empatadas no Panorama Político, com 22% cada. A prioridade dada à saúde reflete desigualdades no acesso a serviços e grande dependência da rede pública, principalmente em áreas afastadas dos grandes centros. Segundo o DataSenado, a queixa é mais frequente entre pessoas com menor escolaridade e renda, sem cobertura de plano de saúde, mulheres e idosos.

Já a preocupação com a segurança se relaciona a um cenário em que a região concentra parcela expressiva dos homicídios do país e enfrenta o avanço de disputas entre facções em municípios do interior, além das capitais. A pesquisa do PoderData, mais recente, indica que o tema já tomou a dianteira na cabeça dos nordestinos.

A região também tem uma população relativamente jovem, embora esteja envelhecendo. Segundo dados do IBGE divulgados em 2025, 15% da população nordestina tinha 60 anos ou mais, enquanto 21% tinha até 14 anos. Esse perfil combina demandas por educação, emprego e renda para os jovens com a necessidade de ampliar o atendimento de saúde e a proteção social para a população idosa.

Diante dos registros de assassinatos de mulheres na região, a violência e o acesso à saúde para elas também são questões relevantes.

Violência e dificuldades de acesso a serviços médicos colocam segurança e saúde no topo das prioridades no Nordeste Rovena Rosa/Agência Brasil e Divulgação/Pref. Salvador

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Sudeste

O Sudeste se destaca como a região mais preocupada com a violência. A segurança pública aparece como demanda principal para 17% das pessoas. A presença de grandes regiões metropolitanas, marcadas por desigualdades urbanas, criminalidade e problemas de mobilidade, ajuda a contextualizar o índice.

Em âmbito nacional, a parcela de eleitores com 60 anos ou mais já representa 23% do total, segundo pesquisa da Nexus com informações do TSE. Isso equivale a cerca de um em cada quatro votantes, o que amplia o peso desse grupo nas disputas eleitorais. O Sudeste, por sua vez, é a região com maior proporção de idosos, quase 18% da população.

Esse perfil amplia a demanda por atendimento médico, medicamentos, cuidado continuado e políticas de mobilidade e acessibilidade. Assim, mesmo quando a segurança aparece como prioridade na pesquisa, a saúde tende a permanecer central para uma parcela significativa do eleitorado.

Segurança e educação estão entre as prioridades do Sudeste, região com alta proporção de idosos Paulo Pinto/Agência Brasil, Tomaz Silva/Agência Brasil e Rovena Rosa/Agência Brasil

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Sul

No Sul, a preocupação com custo de vida e corrupção atinge os maiores percentuais entre as regiões na pesquisa DataSenado, com 19% das menções cada. O dado se repetiu no levantamento do PoderData, no qual a inflação também foi apontada como prioridade por 19% dos respondentes na região.

O impacto dessas questões está associado ao poder de compra das famílias e às condições enfrentadas por produtores rurais, trabalhadores e pequenas empresas. Com forte presença da agricultura, da indústria e de cadeias produtivas dependentes de crédito, insumos, combustíveis e infraestrutura de transporte, a região tende a vincular o debate econômico tanto ao consumo quanto à produção.

O Sul também está entre as regiões mais envelhecidas do país, com 17% da população com 60 anos ou mais. Esse fator traz ênfase também à temas como saúde, previdência, medicamentos e cuidados de longa duração.

A inflação lidera as prioridades no Sul, onde economia e poder de compra estão entre as principais preocupações Cesar Lopes/ Pref. Porto Alegre e Hully Paiva/Pref. Curitiba

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Centro-Oeste

No Centro-Oeste, custo de vida e corrupção se destacam, citados por 18% e 19% dos entrevistados pelo DataSenado, respectivamente. O resultado acompanha a preocupação com inflação, apontada o por 19% dos respondentes na região do PoderData.

A relevância das questões econômicas tem relação com o peso do agronegócio na economia local, um setor sensível aos preços de insumos e combustíveis, às condições de crédito, à logística e ao clima. Assim, os efeitos da inflação alcançam consumidores urbanos, produtores rurais e trabalhadores de diferentes etapas da cadeia agroindustrial.

O consultor Caetano Araújo explica que o assunto “corrupção” teria uma função diferente na disputa eleitoral. Em vez de apresentar soluções diretamente associadas à gestão pública e ao custo de vida, o tema pode ser usado para desgastar adversários e ampliar sua rejeição.

— A corrupção parece funcionar mais como instrumento de descrédito de adversários políticos do que como pauta propositiva. Em termos de campanha, seria um tema utilizado para aumentar a rejeição dos adversários, mais do que conquistar votos.

O  Centro-Oeste também é a região que mais prioriza a educação. Segundo a mais recente Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD)  do IBGE, de 2024, 25% dos habitantes têm ensino superior completo, a maior proporção do país. Esse perfil ajuda a compreender a atenção dada ao tema, especialmente entre grupos que atribuem maior importância à formação educacional.

Ao mesmo tempo, a região vive mudanças demográficas e forte expansão urbana. O crescimento das cidades, impulsionado pela migração e pela ampliação das atividades econômicas, pode elevar a pressão sobre infraestrutura e transporte.

No Centro-Oeste, economia, agronegócio e crescimento urbano estão entre os principais desafios da região Nexa/Adobe Stock e Erich Sacco/Adobe Stock

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