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Dom João VI até tentou impedir, mas o azeite brasileiro vingou e conquistou o mundo – NeoFeed

Fonte: Eliana Castro

A magia dos azeites extravirgens premium começa muito antes da primeira gota pingar. Ao abrir a garrafa, o aroma fresco de grama recém-cortada é o anúncio da experiência gastronômica que está prestes a acontecer. Na boca, a promessa se cumpre.

O equilíbrio preciso entre picância e amargor revela o dom que eles têm de elevar à categoria gourmet até mesmo um simples pãozinho.

A boa notícia é que os bons olivicultores brasileiros têm condições de oferecer produtos com essa excelência. Doze deles estão entre os 500 melhores do mundo no Flos Olei 2024, o prestigiado guia que seleciona azeites de oliva extravirgens em mais de 50 países.

Um deles é o Sabiá. Produzido em Santo Antônio do Pinhal, na porção paulista da Serra da Mantiqueira, e em Encruzilhada do Sul, no interior gaúcho, em apenas quatro safras, a marca conquistou 100 láureas internacionais.

Entre elas, EVO IOOC, Leone D’Oro International e EVOOLEUM – o único brasileiro a se manter, pelo terceiro ano consecutivo, entre os top 100 do ranking espanhol.

Na quinta-feira, 2 de maio, as variedades Koroneiki e Blend de Terroir do Sabiá foram agraciadas com a medalha de ouro no Anatolian IOOC, na Turquia.

A história da marca começou em 2003 quando a jornalista Bia Pereira e o publicitário Bob Costa, moradores da capital paulista, interessados na vida no campo, compraram a fazenda em Santo Antônio do Pinhal, originalmente de criação de gado. Buscando alternativas de cultivo, se encantaram com um azeite produzido na região e, assim, se decidiram pelas oliveiras.

Estudaram, fizeram cursos, se cercaram dos grandes nomes da olivicultura mundial. Viajaram para conhecer plantações na Espanha e na Itália e visitaram os produtores gaúchos, responsáveis por 75% da produção de azeite nacional..

“O Brasil alcançou um nível de excelência na produção, porque começou tarde no ramo da olivicultura. Com isso, desde o início, os produtores já adotaram as melhores práticas”, diz Bia, em conversa  com o NeoFeed.

Paulo Marchioretto, da Casa Marchio (marca que também está no Flos Olei e, entre outros prêmios, recebeu o Double Gold Best Wordwide 2023, de melhor Koroneiki), concorda: “Entramos nessa atividade quando já era possível fazer cursos de especialização no exterior e ter acesso a modernos equipamentos”.

Embora a produção seja bem pequena, o investimento para garantir a qualidade é grande. Recentemente, a Sabiá contratou o italiano Nicolangelo Marsicani, conhecido como “o poeta dos azeites” para aplicar sua metodologia na safra 2024 e o azeite Arbequina ficou em segundo lugar da categoria do EVOOLEUM.

A delicadeza dos frutos

Frutos delicados, tão logo são colhidas, as azeitonas começam a deteriorar. Nas fazendas de Bia e Bob, elas são processadas, em, no máximo, duas horas depois de que deixam o pomar. Os lagares da marca estão equipados com máquinas modernas e ultra-higienizadas, para garantir a pureza do produto.

Não por acaso, Marchioretto, leva suas azeitonas para serem processadas na Sabiá. “Cada terroir tem suas características próprias de sabor e aroma. Mas saber extrair o melhor de cada tipo de azeitona é fundamental”, explica ele, ao NeoFeed.

A Casa Marchio nasceu em 2008, quando Paulo leu no noticiário sobre o início da produção de olivais no Brasil. Advogado, ele resolveu realizar o sonho de infância de cultivar a terra e entrou para o ramo em 2017.

Cinco anos depois, em sociedade com sua esposa, Maria Alice Migliavacca, as oliveiras da marca, cultivadas em Encruzilhada do Sul, começaram a produzir em quantidade suficiente para a comercialização.

Em apenas quatro safras, Bia Pereira e Bob Costa levaram o azeite Sabiá aos melhores do mundo (Crédito: Willy Biondani)

A produção da marca Oliq é para o mercado interno (Crédito: Oliq/Divulgação)

Vera Mincoff Menegon e as filhas Luana e Natasha se dedicam à produção de azeite desde 2016. Quatro anos depois, lançaram os primeiros produtos da marca Veroli. Em 2024, entraram para o Flos Olei. (Crédito: Azeite Verolí / Olival Alma da Mantiqueira)

Nos pomares, da Casa Marchio, no Rio Grande do Sul, as oliveiras levaram cinco anos para produzir em quantidades comerciais. Hoje, o azeite gaúcho está entre os mais premiados (Crédito: Casa Marchi/Divulgação)

Graças aos avanços nos conhecimentos e refinamento das tecnologias, a olivicultura encontrou seu lugar no Brasil: nas terras altas do Sudeste, nas divisas entre São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais; e na região que vai da Serra Gaúcha até a Campanha, no Rio Grande do Sul.

O país cultiva cerca de 10 espécies enquanto a Europa, mais de 200.

Embora o sucesso internacional dos concursos ajude a dar credibilidade e projeção aos azeites extravirgens brasileiros, o foco dos produtores ainda continua no mercado interno.

“Nosso custo ainda é muito alto, tornando o produto muito caro quando comparado aos dos azeites internacionais. Por isso, a venda direta ainda é uma alternativa tão atrativa para nós”, diz Vera Masagão Ribeiro, da Oliq, em entrevista ao NeoFeed. O azeite da marca também está no Flos Olei. Os melhores azeites produzidos custam em torno de R$ 100.

O oliviturismo

Para Vera, o contato direto, com um atendimento acolhedor por uma equipe que sabe o que está fazendo e vendendo, é o que seduz comprador em primeiro lugar. Por isso, além da Oliq, várias marcas de produto extravirgem, entre elas outras que também são premiadas, como Orfeu e Potenza, oferecem visitação guiada, com direito à degustação e pit stop na loja.

“É importante mostrar a diferença entre o azeite ‘clássico de prateleira de supermercado’ e o nosso produto”, explica Bia, do Sabiá, que recebe cerca de 500 visitantes por fim de semana.

A Verolí, sediada em Sapucaí-Mirim, no interior mineiro, ainda não mergulhou totalmente no oliviturismo, mas recebe pequenos grupos com hora marcada no seu Olival Alma da Mantiqueira.

A paixão pelas oliveiras fez com que Vera Mincoff Menegon se unisse às filhas, Luana e Natasha, em 2016 para dedicar-se à olivicultura. Em 2022, lançaram os primeiros produtos comercialmente e, dois anos depois, entraram para o Flos Olei.

Acostumou-se dizer que o Brasil não teria as condições necessárias para a produção de azeites de qualidade.

A crença teria nascido em 1821, quando Dom João VI voltou para Portugal. Com medo da concorrência ao produto português, ele mandou arrancar todas as oliveiras plantadas em solo brasileiro.

E assim o país seguiu até 2010, quando o primeiro produto nacional, o Olivas do Sul, chegou ao mercado. Desde então, como a história mostra, os brasileiros não deixam nada a desejar aos melhores azeites do mundo.

Para se ter ideia da excelência, um azeite só considerado extravirgem se tiver uma acidez de, no máximo, 0,8%. Nos melhores produtos nacionais esse teor é inferior a 0,2%.

Na safra 2024, estima-se que o Brasil tenha produzido 500 toneladas de azeite. E essa talvez tenha sido uma das melhores safras, em termos de qualidade, apostam os “nossos” olivicultores.

Como diz Ricardo Castanho, instrutor de azeites na Associação Brasileira de Sommeliers – São Paulo (ABS-SP), em conversa com o NeoFeed: “E, para nós, os brasileiros, a vantagem é que o produto viaja muito menos do lagar  até a mesa dos consumidores e, por isso, chega mais fresco, sem perder a riqueza sensorial”. Sorte a nossa.

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