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Chuvas no RS: é hora de ficar atento aos investimentos lastreados em agronegócio?

Fonte: Daniel Navas

Há algumas semanas, as chuvas no Rio Grande do Sul têm trazido enormes prejuízos para os moradores da região. São 463 municípios impactos, mais de 2,3 milhões de pessoas afetadas, sem esquecer das perdas financeiras que assolam diversos setores da economia. E a agropecuária é uma dessas áreas impactadas com mais de R$ 1,161 bilhão de danos, foi o que apontou um levantamento da Confederação Nacional dos Municípios (CNM). Diante disso, será que é o momento de o investidor ficar de olho nas ações do agronegócio?

Afinal de contas, algumas empresas do setor já são apontadas em relatórios com possíveis impactos por conta das chuvas e enchentes no RS.

Prejuízos no curto, médio e longo prazos

Ainda assim, vale saber que o agronegócio gaúcho não sofrerá com o impacto apenas no curto prazo, mas em período mais longos também.

Isso porque, em um prazo mais imediato, o problema encontra-se em segmentos específicos, como arroz, aveia, milho e proteína. “A logística é outro ponto fundamental. Tanto na questão humanitária quanto na questão da saúde financeira das empresas. Afinal, os produtos têm que chegar aos seus pontos de distribuição internos e externos (portos)”, pontua Talita Luiz, sócia fundadora da Quattro Investimentos.

Para se ter uma ideia, até o momento, os grãos foram os mais afetados. “Lembrando que haverá impacto no IPCA, pois o arroz faz parte da cesta de alimentos. A região tem um alto percentual na produção nacional, cerca de 70% do grão produzido vem da região Sul. Porém, 80% da colheita havia sido feita”, afirma a especialista.

Já a médio prazo (meses e anos), os efeitos das chuvas no RS se estendem sobre as economias regionais, afetando de forma mais perene os preços dos produtos provenientes das regiões afetadas.

“A longo prazo, o desastre climático deve empobrecer a qualidade do solo. A força da água ao mesmo tempo que varre a superfície do solo diminuindo a quantidade de nutrientes, também contamina essas áreas com as substâncias poluentes presentes na enxurrada”, pontua Claudio Felisoni, professor da FIA Business School.

Ações do agronegócio: empresas afetadas pelas chuvas

Claro que os impactos das enchentes no RS ainda não foram totalmente mensurados, mas já é possível ter um panorama. Até para você ficar de olho nas ações do agronegócio. Desse modo, um relatório da XP aponta que “no setor de alimentos, todas as empresas poderão ser impactadas, principalmente pela importância do RS na produção de alimentos”.

Ainda de acordo com o estudo feito pela instituição financeira, o estado gaúcho é responsável por 17% do volume de carne suína, 13% do volume de aves e 5% do bovino. “Além disso, também é responsável por cerca de 60% da produção de arroz do Brasil, além de ser um importante produtor de soja”, afirma.

Contudo, o relatório indica as empresas do agro na bolsa que podem ser mais diretamente afetadas. São elas:

  • BRF (BRFS3);
  • JBS (JBSS3);
  • Camil (CAML3);
  • 3Tentos (TTEN3)
  • SLC Agrícola (SLCE3).

Existem outras companhias do agronegócio que não entraram no relatório da XP, mas que também foram afetadas, como Marfrig (MRFG3), Minerva (BEEF3) e Minupar (MNPR3).

“Todas essas empresas do agro na bolsa têm fatias de negócio na região, no setor de proteínas (BRF, JBS, Marfrig, Minerva e Minupar), armazenamentos e gerenciamento (3Tentos e SLC Agrícola). Essas companhias foram afetadas pelas chuvas diretamente e pela logística indiretamente”, afirma Leonardo Campos, estrategista de renda variável da Quattro Investimentos.

Investir no agronegócio: de olho nos papéis das empresas

Então, diante desse alerta com relação às companhias do setor, muitos investidores se questionam se é o momento de ficarem mais atentos em relação às ações do agronegócio.

Afinal de contas, com toda a tragédia das chuvas no RS essas empresas perdem valor de mercado. Por outro lado, o impacto depende da amplitude da operação na região afetada.

“Por isso, investir ou não nesses papéis depende fundamentalmente de dois fatores. Primeiro, das características particulares de cada operação. Ou seja, do comprometimento que o desastre ambiental trouxe para o negócio de forma geral. Segundo, da disposição do investidor em relação a tomar risco. Isso porque, a queda no valor dos papéis pode ser uma oportunidade”, analisa Claudio Felisoni.

A visão de Leonardo Campos é bastante parecida. Segundo o estrategista de renda variável, em momentos de crise, é muito importante saber como a empresa foi afetada.

 “Além de quais serão suas estratégias quanto ao problema apresentado e o que isso pode afetar o caixa ou a aquisição de crédito para o andamento da estratégia estabelecida. É preciso observar como esses pontos irão afetar o desempenho, ou não, da receita da empresa. Mas vale saber que no curto prazo já respingou no preço das ações dessas companhias”, afirma.

Além das ações do agronegócio

E assim como as empresas do agro, os produtos de investimentos ligados ao setor também merecem um pouco mais de atenção nesse momento.

“Evidentemente, todos os instrumentos de captação de recursos com destinação para o agronegócio, como a Letra de Crédito do Agronegócio (LCA), o Certificado de Recebíveis do Agronegócio (CRA) e o Fundo de Investimento em Cadeias Agroindustriais (Fiagro) terão algum tipo de impacto. Ou seja, sinalizarão menores rendimentos. Essa situação decorre obviamente do comprometimento dos fluxos de caixa de produtores e de todas as estruturas de suporte atreladas ao agronegócio”, explica Felisoni.

Leonardo Campos é mais direto, e pontua um ativo com extrema exposição ao Rio Grande do Sul e que merece bastante atenção. O fundo de investimento imobiliário VGIA11.

“Isso porque este investimento tem uma exposição de 42,5% a CRAs, que são 46% de sua alocação”, argumenta.

O especialista faz uma conta rápida para entendermos.

“O valor patrimonial do VGIA11 é de R$ 9,66 por cota. Porém, atualmente está em R$ 7,82. Então, caso tivéssemos 100% de inadimplência dos pagamentos dos CRAs do RS, veríamos uma queda de 29% no preço atual da cota do fundo. Isso também impactaria seus dividendos pagos aos cotistas, chegando a níveis de 0,6% ao mês. Vale lembrar que o fundo vinha pagando 1,3% ao mês em média”, analisa.

E além de ficar de olho nessas ações do agronegócio e dos produtos de investimentos, outro ponto importante é entender como encarar eventos dessa magnitude pensando nas finanças.

E é aí que, mais uma vez, a diversificação entre em cena. “Afinal de contas, ao mesclar a sua carteira, você consegue mitigar os riscos de estar exageradamente posicionado em uma situação ou área afetada por uma grande catástrofe”, acredita Claudio Felisoni.

Por fim, como já dito, essa pode ser uma oportunidade de adquirir ações em um momento que o mercado enxerga um risco de curto prazo. “Existem formas de você participar deste mercado limitando seu risco ou até assegurando os juros usando algumas estruturas para isso”, afirma Talita Luiz.

A especialista, aliás, alerta que antes é preciso analisar o quanto os negócios destas empresas estão expostos a regiões com este tipo de variável. “Além de saber o quanto isso impacta a companhia”, conclui.

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