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Selic: cortes melhoraram cenário de crédito, mas tomada de empréstimo ainda exige análise cuidadosa

Fonte: Redação

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) anunciou nesta quarta-feira (19/6) que manterá a Selic em 10,5%. O indicador, que é o parâmetro que os bancos comerciais utilizam para oferecer crédito, estava em ritmo de queda desde agosto do ano passado, e agora tende a ficar estável — e encerrar o ano no mesmo valor atual, segundo o Boletim Focus.

Em agosto de 2023, o BC aplicou o primeiro corte na taxa básica de juros desde 2020. O indicador estava estacionado em 13,75% havia um ano e encerrou o ano passado em 11,75% após cortes contínuos de 0,5 ponto percentual. No início de 2024, a expectativa era que a Selic encerrasse 2024 em 9%. Porém, no encontro dos dias 7 e 8 de maio, o BC apertou o freio e cortou o indicador em 0,25 ponto percentual. “A partir do momento que ocorrem cortes na Selic, também acontece uma expansão do crédito, mesmo que de forma discreta. Porém, os juros continuam altos”, avalia Renan Pieri, professor de economia da FGV EAESP.

Alguns fatores influenciaram a mudança de trajetória do indicador, diz Pieri. “A taxa de juros de bancos centrais de outros países, especialmente dos Estados Unidos, também influencia o resultado. Existia a expectativa de que o banco americano [o Federal Reserve System] fizesse cortes mais rápidos da taxa de juros, mas ele foi mais cauteloso”, afirma o professor, que também cita uma piora da percepção fiscal do Brasil:

“O novo arcabouço fiscal deu uma ideia de que o governo está comprometido com uma regra fiscal, e que estaria preocupado em manter a estabilidade da dívida pública. Porém, nos últimos meses, vimos indícios de que essas metas não serão cumpridas”, afirma. “Quando o governo aumenta os gastos e não arruma uma forma de arrecadar dinheiro para cobri-los, ele se endivida. Quanto mais alta a dívida de um país, mais altos serão os juros.”

As enchentes no Rio Grande do Sul tendem a impactar a produção no estado e, consequentemente, a inflação. “A queda na produção gera menos oferta, e os produtos ficam com preços mais altos, o que aumenta a inflação”, diz Pieri. “Neste cenário, o BC pode querer manter os juros mais altos, cortando menos a Selic.”

A consequência é sentida pelos pequenos negócios. “Fazer uma dívida com as taxas de juros neste valor custa muito caro para as empresas”, diz Renaldo Antonio Gonsalves, professor da faculdade de Ciências Atuariais da PUC-SP.

Por enquanto, os especialistas recomendam que os empreendedores avaliem seus negócios e procurem as melhores condições para solicitar crédito. “É preciso fazer as contas de como essa dívida será absorvida no custo operacional da empresa. Se possível, o melhor é considerar os empréstimos de curto prazo, de 6 meses, que tendem a ter juros menores por ter riscos bancários menores”, afirma Gonsalves. “Também é fundamental procurar pelo menos cinco instituições financeiras para comparar as condições e escolher a menor. É mais importante avaliar a taxa de juros do que o valor da prestação.”

Já Pieri lembra que tomar crédito para empreender envolve uma série de variáveis econômicas que devem ser analisadas. “Não é apenas o custo do banco, mas a percepção de crescimento econômico do setor que a pessoa atua, do mercado de trabalho, que influencia também se as pessoas terão poder de consumo. No momento, o mercado de trabalho está aquecido e os salários cresceram. Por outro lado, o cenário de juros ainda é complicado”, afirma.

Em sua visão, não existe uma resposta que se encaixe a todos os tipos de negócios: “O empreendedor deve fazer a análise considerando o que ele irá comprometer da sua receita futura com a expansão do negócio e se terá dinheiro para pagar essa dívida.”

O Boletim Focus prevê que, ao fim de 2025, a taxa básica de juros deverá ser 9,5%. Até 2026, deverá ser de 9%. “O ideal é, em algum momento, a taxa fique mais próxima da inflação [o IPCA acumula alta de 3,93% nos últimos 12 meses], o que ajudará a estimular a atividade econômica e melhorará o cenário para solicitar crédito”, afirma Gonsalves.

A próxima reunião do Copom para definir a taxa Selic está marcada para os dias 30 e 31 de julho.

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