Pesquisa global analisou 1.400 exames e constatou que atividades como dança, música e games revertem o envelhecimento cognitivo; “São atividades cerebrais complexas”, diz especialista

Muitos empreendedores buscam hobbies apenas como uma válvula de escape para o estresse ou para desenvolver a resiliência. No entanto, a ciência acaba de confirmar um benefício ainda mais tangível: o “rejuvenescimento” biológico da mente. Um novo estudo, realizado pelo Instituto Latino-Americano de Saúde Cerebral (BrainLat) e publicado na revista Nature Communications aponta que adotar uma atividade criativa pode fazer o cérebro operar como se fosse cinco anos mais jovem.
O neurocirurgião Julio Pereira, da Beneficência Portuguesa e do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo diz que os resultados do estudo corroboram a realidade clínica: atividades de lazer desafiadoras funcionam como uma “musculação” para os neurônios.
“O cérebro não sabe se você está fazendo aquilo por hobby ou por trabalho; ele não distingue a intenção. Mas o fato é que você está exercitando aquela área”, explica Pereira. “Realmente é um fato: pessoas que têm hobbies e atividades complexas apresentam um atraso no envelhecimento do cérebro, porque ele está mais preparado.”
Como o cérebro “rejuvenesce”
O estudo, liderado pelos neurocientistas Carlos Coronel e Agustín Ibáñez, do Instituto Latino-Americano de Saúde Cerebral (BrainLat), utilizou inteligência artificial para criar “relógios cerebrais”. A tecnologia analisou exames de neuroimagem de 1,4 mil voluntários em 13 países.
O objetivo foi medir a diferença entre a idade cronológica e a “idade cerebral”. O padrão encontrado foi consistente: a criatividade protege áreas vulneráveis ao envelhecimento e torna a comunicação neural mais eficiente.
Segundo Pereira, do Sírio-Libanês, isso ocorre porque hobbies exigem o uso simultâneo de diversas áreas cognitivas, algo que ele define como “atividade cerebral complexa”. O especialista detalha como cada atividade impacta a mente:
- Dança: “Envolve raciocínio, memória (para os passos), atividade muscular e cardiovascular.” No estudo, dançarinos de tango apresentaram cérebros com aparência mais de sete anos mais jovem.
- Música: Exige coordenação motora fina e processamento auditivo. Músicos apresentaram cérebros cerca de cinco a seis anos mais jovens.
- Videogames: “Muita gente não sabe, mas o game usa diversas áreas do cérebro: a parte visual, a de estratégia e a de planejamento”, afirma o neurocirurgião. Gamers tiveram cérebros avaliados como quatro anos mais jovens, no estudo publicado pela Nature.
Nunca é tarde para começar
Para quem acredita não ter tempo ou talento, a ciência traz uma boa notícia: o benefício não exige uma vida inteira de prática.
Em uma segunda etapa da pesquisa, focada em aprendizado, novatos que começaram a jogar o jogo de estratégia StarCraft II mostraram um rejuvenescimento cerebral de dois a três anos após apenas 30 horas de prática.
Seja cantando desafinado, desenhando esboços simples ou aprendendo um novo jogo, o segredo não é a perfeição, mas o estímulo. Como resume Pereira: “Da mesma forma que você faz atividade física e o músculo trabalha, essas atividades melhoram as conexões cerebrais.”







