Estamos de volta! Após uma breve pausa para o recesso de Natal e Ano Novo, damos o pontapé inicial de 2026. Nesta edição, conversamos com especialistas para saber as tendências para o ecossistema de startups em 2026. Segundo eles, o próximo ciclo não será de euforia, mas de produtividade real, reformulação de modelos e consolidação de uma nova régua para avaliar negócios e fundadores.
Depois de anos marcados por exuberância, correções bruscas e um inverno prolongado no capital de risco, o ecossistema de startups entra em 2026 em um novo estágio, impulsionado pela adoção da inteligência artificial.
Você também vai ler sobre os anúncios dos últimos dias de 2025 e as retrospectivas produzidas pela equipe de PEGN.
100 Startups to Watch é a newsletter de Pequenas Empresas & Grandes Negócios que leva a você as notícias mais relevantes do ecossistema de inovação.
Boa leitura e um ótimo ano novo!
Tendências para 2026
O ecossistema brasileiro de startups passa por um momento de ajustes depois que turbulências foram uma triagem natural no mercado. Para especialistas ouvidos por PEGN, vivenciamos a transição de um cenário impulsionado por capital e escala para um pautado por inteligência artificial, eficiência e sustentabilidade econômica.
“O ano de 2026 deve ser marcado pela virada de chave, em que startups competitivas não serão apenas aquelas que usam inteligência artificial, mas cujos modelos de negócio só são viáveis por causa da IA. A era do ‘crescer a qualquer custo’ termina e começa a era do ‘crescer com inteligência’”, afirma Betina Zanetti Ramos, vice-presidente de relacionamento da Associação Catarinense de Tecnologia (Acate).
Daniel Grossi, cofundador da Liga Ventures, concorda. Ele aposta na ascensão da IA Vertical, desenvolvida a partir do contexto de cada setor, como grande tese de 2026. “A IA generalista é um jogo global dominado por poucos players, mas quando olhamos para aplicações focadas em mercados como agro, saúde, varejo, logística, financeiro ou construção, existe um espaço enorme para as startups brasileiras criarem valor real”, declara.
Outro tema que está entre as apostas é a longevidade. Com o envelhecimento da população, surgem oportunidades para serviços e soluções de saúde, bem-estar, trabalho e moradia voltados a esse público. “São pessoas que querem se manter ativas e viver experiências, não apenas em termos profissionais, mas no tempo livre. Vai se tornar algo mais forte nos próximos anos”, opina Maria Rita Spina Bueno, fundadora do Mulheres Investidoras Anjo (MIA) e membro do Conselho da Anjos do Brasil.
A seguir, apontamos algumas tendências e apostas dos especialistas consultados por PEGN:
As fintechs devem continuar atraindo a maior parte do capital. Mas, para além das startups focadas em serviços financeiros, despontam também os setores de saúde e bem-estar, agronegócio, energia – por causa da evolução da IA e necessidade de processamento – sustentabilidade e clima.
Após um momento de adequação à democratização no acesso à inteligência artificial, a tendência agora é de que os produtos nasçam com IA no centro da proposta de valor e não mais como recurso adicional. O produto deixa de ser uma ferramenta organizacional para ser um agente executor de tarefas e tomador de decisões. Com isso, o ecossistema verá uma mudança no modelo de negócios que pode alterar a predominância do SaaS.
“A IA que se baseia na cobrança por tokens ou créditos também impulsiona a adoção de modelos de negócios baseados no uso ou resultado. Por outro lado, modelos de SaaS que dependem apenas de interface e fluxo de trabalho, sem inteligência real, tendem a perder tração. O mercado está migrando do ‘software que ajuda’ para o ‘software que faz’”, aponta Grossi, da Liga Ventures.
Pedro Waengertner, cofundador da ACE Ventures, ressalta que, além do produto, a IA também afeta a distribuição – e que esse tema deve ganhar protagonismo na avaliação de startups por investidores. “Se a barreira de construção é menor e o marketing pode ser otimizado pela IA, a tendência é a hipersaturação de canais. Devemos pensar em como a startup vai se diferenciar no mercado em mutação que estamos vivendo.”
A ascensão acelerada da IA nos últimos anos gerou o lançamento de produtos, mas também impactou a operação de startups e empresas, trazendo maior eficiência, potencializando entregas e possibilitando operações mais enxutas. Para este ano, especialistas apostam em novas categorias, como agentes autônomos que executam processos completos e cobots que trabalham junto a humanos em áreas como administrativo, vendas e atendimento.
“A maior parte das empresas está ganhando maturidade no tema. A IA ainda não faz parte da cultura do dia a dia e muita gente ainda está dando os primeiros passos, entendendo como usar a tecnologia de forma estruturada e segura. Enquanto isso, a tecnologia está transformando mercados. A convivência entre maturação interna e disrupção externa deve continuar marcando os próximos anos”, afirma Grossi, da Liga Ventures.
Essa janela de adoção massiva pelo setor corporativo, que está de olho no retorno do investimento, é uma oportunidade para startups. “O Brasil é o segundo maior usuário de ChatGPT no mundo. Por outro lado, temos problemas, como gaps educacionais e no setor de saúde, aberturas regulatórias no setor financeiro. Existe um cenário de captura de valor, oportunidades que não conseguíamos atender antes”, aponta Waengertner, da ACE Ventures.
Os especialistas não apostam em ver novas aberturas de capital de startups em 2026, mas dizem que uma janela pode se abrir a depender do cenário macroeconômico. O mais provável, porém, é que as saídas continuem acontecendo por fusões, aquisições ou rodadas secundárias.
“Para um IPO fazer sentido, a startup precisa mostrar consistência, governança, escala, lucros ou caminho claro para lucratividade, algo que nem todas conseguirão em um ambiente econômico mais incerto”, destaca Ramos, da Acate.
Waengertner opina que o mercado de investimentos é movido a sinais e comportamentos de manada. Por isso, é preciso que algum exemplo “puxe o bonde”. “Seria muito importante ter mais IPOs de tecnologia, tornaria a economia mais complexa e dinâmica.”
Movimentações
M&A. A TOTVS anunciou a assinatura do contrato para a aquisição da TBDC, empresa de softwares para o agronegócio, por R$ 80 milhões, reforçando sua estratégia de especialização por setor ao ampliar a oferta de tecnologia de gestão agrícola de ponta a ponta. Fundada em 2018, a TBDC é especializada em soluções para toda a cadeia produtiva, da manufatura ao produtor rural. Segundo a TOTVS, a complementaridade das soluções permitirá integração ao seu ecossistema e maior aderência para revendas, distribuidores e cooperativas, em um momento de aceleração da digitalização do agro brasileiro. O contrato prevê ainda o pagamento de preço complementar (earn-out), condicionado ao cumprimento de metas e outras condições.
M&A 2. A Bemobi, empresa de soluções de pagamentos, adquiriu 50,1% da fintech Paytime por R$ 28,1 milhões, com possibilidade de chegar a R$ 55,1 milhões caso sejam atingidas metas de desempenho financeiro. A Paytime, fintech focada em pagamentos embutidos e pagamentos como serviço (PaaS), atende mais de 700 clientes e registrou receita líquida de R$ 57,9 milhões nos nove primeiros meses de 2025; a empresa seguirá operando de forma independente sob a marca Paytime, voltada ao microempreendedor, enquanto a nova unidade Bemobi PaaS integrará seus serviços à plataforma Bemobi Pay, ampliando a presença da Bemobi em novos negócios e acelerando a diversificação de seu portfólio.
M&A internacional. No apagar das luzes de 2025, a Meta anunciou a aquisição da Manus, startup de inteligência artificial avaliada em mais de US$ 2 bilhões, fundada pelos chineses Xiao Hong, Ji Yichao e Zhang Tao (ex- ByteDance). De acordo com o Valor Econômico, a empresa ganhou projeção global ao lançar, em março, um agente de IA descrito como “geral”, capaz de executar tarefas complexas de forma autônoma — de pesquisas de mercado e análise de dados à criação de apresentações e programação. O negócio reforça a estratégia da Meta de acelerar o desenvolvimento de agentes avançados de IA, eixo central da visão do CEO Mark Zuckerberg para a chamada “superinteligência pessoal”.
Funding. A fintech britânica SumUp encerrou 2025 com uma captação total de R$ 1,75 bilhão via Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC) para a sua operação no Brasil. A empresa concluiu, em dezembro, o FIDC SumUp Smart III, de R$ 200 milhões, e o FIDC SumUp Smart IV, de R$ 350 milhões, que se somam a outras três captações realizadas desde abril. Eles foram estruturados com base em recebíveis de cartão de crédito originados dos clientes da fintech e os recursos serão destinados a ampliar a capacidade da SumUp de antecipar recebíveis para garantir liquidez e previsibilidade de caixa a micro e pequenos empreendedores.
Estreia. Leo Huan, ex-presidente da Youzan – primeira empresa de SaaS listada na bolsa da China –, fundou a Dealism, startup de inteligência artificial que usa agentes autônomos para automatizar conversas de vendas via WhatsApp e Instagram, com foco inicial em pequenos e médios empreendedores, e aposta no Brasil como mercado com grande potencial. Inspirada no modelo de comércio conversacional consolidado na China, a empresa desenvolveu a tecnologia de “vibe selling”, treinada para interpretar contexto e emoção e conduzir negociações completas, o que garantiu um aporte de cerca de US$ 15 milhões (R$ 80 milhões), liderado pela GL Ventures, para expansão internacional e evolução da IA. Após testes beta em julho, a Dealism foi lançada oficialmente em dezembro e já soma cerca de 10 mil usuários na América Latina e nos Estados Unidos.
Entrevista
Paulo Costa acumula uma trajetória diversa no ecossistema de startups: foi empreendedor digital, diretor de inovação na Accenture e gestor do fundo Neo Future, até assumir, há três anos, o cargo de CEO do Cubo Itaú, hub de inovação fundado em 2015 pelo Itaú Unibanco em parceria com a Redpoint eventures, em São Paulo. Criado para conectar startups, grandes empresas e venture capital, o Cubo reúne hoje 550 startups, que faturaram juntas R$ 10 bilhões em 2024, além de 70 companhias parceiras, consolidando-se como um dos principais pólos de inovação do país.
Em 2025, o hub avançou na estratégia de internacionalização com a abertura de uma filial no Uruguai, com o objetivo de atrair empresas de tecnologia e novos recursos da região, reforçando a visão de uma América Latina mais integrada e competitiva.
Em entrevista a Pequenas Empresas & Grandes Negócios, Costa comenta o papel das conexões no desenvolvimento de startups e analisa o momento do mercado, do apetite dos investidores aos impactos da inteligência artificial. A reportagem completa está disponível no site de PEGN.
Fintechs
O Brasil segue como principal polo de fintechs da América Latina, concentrando 55,9% das startups financeiras da região, segundo a plataforma Distrito, e atraindo sete das maiores rodadas de investimento do ano, de acordo com o Sling Hub. Apesar da força do setor, 2025 foi marcado por turbulências, com investigações da Polícia Federal e decisões relevantes do Banco Central, que elevaram o nível de escrutínio sobre as operações. Para especialistas ouvidos por PEGN, 2026 tende a ser um ano de maior rigor, com menos espaço para improviso e maior exigência de compliance e maturidade institucional.
Entre os pontos de atenção está a determinação do Banco Central de que instituições de pagamento só poderão operar com autorização prévia, com prazo de regularização antecipado para maio de 2026 e exigência de capital mínimo de R$ 7 milhões, medida vista como necessária, mas desafiadora para fintechs menores. A expectativa é de um período de revisão de estruturas, ajustes operacionais e maior foco na gestão de riscos. As principais movimentações de 2025 e o que esperar do próximo ano estão detalhadas em uma reportagem completa, disponível no site de PEGN.
Maiores rodadas do ano
Números da plataforma de dados Sling Hub mostram a crescente nos investimentos ao longo de 2025: no primeiro trimestre, as startups brasileiras captaram US$ 512 milhões, em 95 rodadas; no segundo, US$ 900 milhões, em 109 deals; e no terceiro, US$ 1,2 bilhão, em 130 rodadas. Os dados consideram captações por equity [participação societária] e dívida.
Nesta matéria, PEGN relembrou as 10 maiores rodadas de 2025 em troca de equity e as 10 maiores captações, incluindo rodadas primárias de equity, FIDC e dívida.
Mais lidas
Durante o ano de 2025, PEGN contou histórias de inúmeros empreendedores que transformaram tecnologia em soluções inovadoras. Dentre todos os cases de sucesso relatados, cinco startups chamaram a atenção dos leitores com soluções que vão de ensino de idiomas por WhatsApp a uso de inteligência artificial para otimizar processos. Para conhecer as histórias, visite o site de PEGN.







