‘O Agente Secreto’ no Oscar 2026: negócios que aparecem no filme relatam impactos e até aumento de faturamento

Fonte: Redação

O longa “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, está no centro das atenções nesta quinta-feira (22/1), quando foram divulgados os indicados à 98ª edição do Oscar. A cerimônia aconteceu às 10h30 (horário de Brasília). O filme já acumula quase 60 prêmios, entre eles, dois Globo de Ouro – melhor filme em língua não inglesa e melhor ator em filme de drama para Wagner Moura – e está indicado em quatro categorias no Oscar: melhor filme, melhor filme internacional, melhor ator e melhor elenco. A cerimônia de premiação acontece em 15 de março.

Ambientado durante a ditadura militar, em 1977, “O Agente Secreto” usou diversas locações do Recife (PE) que acabaram se transformando em pontos turísticos de cinéfilos e de fãs da obra. Muitos pequenos negócios tradicionais da capital pernambucana ganharam destaque na trama e até relatam aumento no faturamento após a exposição global – alguns têm aproveitado o hype para embarcar no marketing positivo, inclusive.

PEGN conversou com empreendedores que cederam seus negócios como cenário para o filme para entender o que mudou com essa a repercussão. Confira:

Chá Mate Brasília

Alugado por dois dias para se tornar set de filmagens de “O Agente Secreto”, o Chá Mate Brasília é uma lanchonete tradicional do Recife (PE). Aberto em 1984, o estabelecimento é atualmente comandado por Paulo Pinheiro e José Suevânio, filhos do fundador Manoel Pinheiro.

Com o chá de erva-mate como carro-chefe, o local é conhecido por um cardápio variado de mates. Após a premiação do longa estrelado por Wagner Moura no Festival de Cannes, em maio de 2025, o menu passou a contar com um sabor especial para o filme. Batizada de Agente Secreto, a bebida, que leva canela e mate leite e é comercializada por R$ 6, já vendeu cerca de 6,8 mil unidades.

De acordo com Paulo Pinheiro, a demanda vem crescendo especialmente após as premiações no Globo de Ouro. Desde o lançamento do filme, o empreendedor afirma que as vendas gerais do local cresceram cerca de 25%. “É muito gratificante ver um negócio familiar, com mais de quatro décadas de história, dialogando com o cinema, a cultura e novos públicos, sem perder sua essência popular e afetiva”, diz Pinheiro.

Cinema São Luiz

O Cinema São Luiz não só serviu de cenário para “O Agente Secreto”, mas foi um elemento crucial para a narrativa do filme ao acolher personagens e retratar o passado da própria cidade do Recife. Inaugurado em setembro de 1952, o equipamento cultural é gerido pela Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe) e pelo Governo de Pernambuco.

Em setembro de 2025, o espaço foi palco da pré-estreia nacional do filme. Desde então, o Cinema São Luiz tem sua única sala com sessões lotadas e transformou-se até em destino turístico para quem deseja conhecer as locações da produção. Segundo o curador e programador do Cinema São Luiz, Pedro Severien, a repercussão do Globo de Ouro e da corrida pela indicação ao Oscar também contribuíram para manter a mobilização em torno da obra.

“No caso do Cinema São Luiz, desde que o filme estreou todas as sessões estão lotadas. Eu falo literalmente que todas as exibições que realizamos tiveram ocupação total da sala (450 lugares). Aqui em Pernambuco ocorre um fenômeno que não é tão comum em lugar nenhum do mundo: o público local ama o cinema pernambucano”, destaca.

Com funcionamento aos sábados e domingos, o Cinema São Luiz costumava registrar um fluxo de cerca de 3,5 mil pessoas por mês. Após a estreia do filme, Severien diz que o número dobrou e reforça que o espaço preza pelo fomento do acesso à cultura. Os ingressos custam R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia). Além disso, o equipamento cultural ainda realiza sessões gratuitas e já foi cenário para outras obras, a exemplo do documentário “Retratos Fantasmas” (2023), de Kleber Mendonça Filho – mesmo diretor de “O Agente Secreto”.

Padaria Santa Terezinha

Uma caminhada de cerca de dez minutos separa o Cinema São Luiz da padaria Santa Terezinha, um dos estabelecimentos tradicionais do bairro da Boa Vista, na região central do Recife (PE). Fundada em 1981, a padaria atravessou décadas acompanhando a rotina agitada da área e hoje está sob o comando de seu terceiro proprietário, Givanildo Bezerra de Andrade, que assumiu o negócio em 1998. Atualmente, a Santa Terezinha funciona com uma equipe de 11 funcionários e mantém as características originais que marcaram sua história.

Nos últimos tempos, no entanto, a padaria passou a atrair um público diferente: os cinéfilos. O interesse surgiu após o local servir de cenário para gravações do filme “O Agente Secreto”, em que os personagens Bobbi (Gabriel Leone) e Augusto (Roney Villela) fazem uma parada para jantar antes de circular pela cidade.

De acordo com Andrade, a equipe de direção procurava uma padaria que remetesse aos anos 1970, com estrutura antiga e interior sem grandes reformas — requisitos que a Santa Terezinha atendia. As gravações duraram cerca de oito horas, começando na noite de domingo e avançando pela madrugada de segunda-feira. Desde então, o movimento cotidiano pouco mudou, com exceção da presença mais frequente de fãs de cinema que visitam o local, fazem perguntas e tiram fotos.

Galeria Tereza Cristina

Ainda nas imediações do Cinema São Luiz, a Galeria Tereza Cristina ocupa o térreo de um edifício residencial homônimo e reúne oito salas comerciais, das quais três estão em funcionamento e uma em reforma. O mix de estabelecimentos — que inclui salão de beleza, estética e uma loja de discos de vinil — funciona de forma independente, mas mantém uma relação simbiótica com o condomínio. Segundo José Jorge Cavalcante Querido, proprietário da joalheria Lapidus e morador do prédio há dez anos, a convivência entre vizinhos e lojistas é o ponto forte da operação. “A relação é muito amigável e traz uma movimentação positiva para o prédio. Os moradores gostam de adquirir os serviços no local onde residem”, afirma.

A rotina do espaço, no entanto, foi transformada após a galeria servir de cenário para a perseguição final do filme “O Agente Secreto”, culminando na entrada dos personagens em uma barbearia. Querido, que transferiu sua loja de um dos apartamentos superiores para o térreo há cerca de um ano, viu seu ponto comercial se tornar o epicentro do interesse turístico. “Antes, o movimento era bem mais tranquilo. Depois do filme, recebemos diariamente grupos de turistas”, diz. Visitantes de São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Fortaleza agora frequentam o corredor comercial, muitas vezes acompanhados por guias e em busca de fotos com o cenário e com o porteiro do edifício, que fez uma participação especial no longa-metragem.

O impacto cinematográfico se refletiu diretamente nos indicadores financeiros da Lapidus. Especializada em alianças de moedas antigas — material que simula a cor do ouro com alta durabilidade —, a marca registrou um aumento de rentabilidade entre 10% e 20%. Mesmo em janeiro, mês tradicionalmente desafiador para o varejo, as vendas saltaram de uma média de 15 para cerca de 30 pares de alianças diários, um crescimento de até 50%. Embora 70% do faturamento da joalheria venha do canal digital, Querido adotou o filme como principal estratégia de marketing para o ponto físico. “Quando explicamos o endereço e mencionamos a gravação de ‘O Agente Secreto’, o interesse é imediato”, resume.

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