Enquanto 2025 foi marcado pela popularização das ferramentas de inteligência artificial, 2026 deve ser o ano em que o discurso dará lugar à execução pelas empresas. Com soluções mais especializadas e agentes autônomos ganhando espaço, a IA entra em uma fase de amadurecimento e o impacto real vai pesar mais do que o hype, dizem especialistas ouvidos por PEGN.
O estudo “Desbloqueando o potencial da IA no Brasil”, lançado pela Amazon Web Services (AWS) em agosto, mostra que o uso da tecnologia está crescendo entre as empresas brasileiras. Em 2024, 2 milhões de negócios passaram a usar IA, levando a porcentagem de usuários a 40% – ante 29% em 2023. A pesquisa indicou, porém, que a maioria das PMEs (80%) utiliza a inteligência artificial apenas para operações básicas.
Para Edney Souza, professor da ESPM e conselheiro do Instituto Inteligência Artificial de Verdade (IAV), o destaque do próximo ano não será uma grande tendência tecnológica, mas o amadurecimento do uso pelas empresas. “Se criarmos estruturas de processos claras, com limpeza e qualificação dos dados, e juntarmos ao pensamento crítico das pessoas, é possível ganhar uma produtividade absurda”, pontua.
Os últimos anos registraram investimentos sem precedentes para a expansão da infraestrutura para o desenvolvimento dos modelos de IA generativa – os gastos mundiais com inteligência artificial devem alcançar US$ 1,5 trilhão neste ano e ultrapassar US$ 2 trilhões em 2026, segundo projeção da consultoria Gartner.
Startups:
No Brasil, uma pesquisa da IBM apontou que 95% dos entrevistados viram progresso na execução de suas estratégias de IA e 48% registraram retorno financeiro positivo (ROI) com os projetos implementados. Na opinião de André Nunes, diretor e conselheiro de tecnologia da 42Rio, as discussões sobre o ROI devem se intensificar em 2026. “Vai ter uma busca ferrenha por esse indicador. É um baita desafio manter as infraestruturas para entregar os modelos e os projetos como estão sendo feitos hoje.”
Nunes também destaca uma diversificação nas ofertas de soluções pelas grandes empresas, como OpenAI e Google, que inicialmente afirmaram que se limitariam à camada de infraestrutura. “O mercado vai ser tomado pelos grandes players, que vão comprar ou adotar funcionalidades que matam um conjunto de startups e empresas que estavam construindo em cima desses modelos, consumindo as APIs. Elas [big techs] estão construindo cada vez mais com cara de solução final”, aponta.
Veja algumas apostas de tendências de IA para 2026, de acordo com os especialistas consultados por PEGN:
Agentes
Os agentes podem ser vistos como a próxima etapa no uso da IA, trazendo automatização de tarefas que antes precisavam de um comando (prompt) para serem realizadas. Esses assistentes podem ser treinados de forma mais customizada, a partir de dados da empresa.
Souza alerta para os riscos. Os agentes podem ser usados para a máquina de vendas, por exemplo, trazendo escala para os envios de propostas para leads, mas a falta de capacidade operacional para cumprir os contratos pode impactar o negócio, ocasionando prejuízo financeiro, jurídico e reputacional.
“A promessa é exagerada. A tecnologia está pronta e pode fazer o que promete, mas as empresas não têm maturidade para deixá-la rodar com total autonomia e apenas revisar os materiais. As pequenas e médias também precisam tomar cuidado ao comprar fórmulas prontas, bibliotecas de prompts ruins e cursos mágicos”, alerta.
Calma é a palavra-chave para a adoção da tecnologia. Nunes destaca que é comum ver profissionais usando inteligência artificial no dia a dia, mas que escalar o uso para todas as áreas demanda mais maturidade.
“É preciso respeitar regras de governança, compliance e segurança da informação. Existe uma diferença entre testar com meia dúzia de colaboradores e com milhares de profissionais, com dados sensíveis disponíveis. É fácil montar um agente para responder perguntas repetitivas? Sim. Mas demanda tempo montar um agente com a devida segurança, com a camada de preparação que precisa existir para que haja qualidade”, aponta.
Validação de ideias
A IA generativa continuará sendo usada para testar ideias e dar os primeiros passos em negócios de forma mais rápida e econômica. Souza descreve a tecnologia como um “canivete suíço poderoso”, auxiliando em diferentes frentes, como:
- Pensar a estratégia, a partir da explicação do produto/serviço e público-alvo, na falta de sócios ou mentores;
- Ajudar no operacional, com insights de marketing e vendas, a partir de informações sobre o mercado, público e orçamento disponível;
- Backoffice, como nas áreas jurídica e de recursos humanos, para analisar riscos em contratos, fazer a triagem de currículos e dar dicas sobre como fazer entrevistas com candidatos.
Telma Soares, CEO do Centro de Excelência em Inteligência Artificial (CEIA), destaca que o uso também pode ser feito por empresas de tecnologia, em fase de desenvolvimento do software. “Enquanto o vibe coding [programar com uso intensivo de ferramentas de inteligência artificial, tendência entre startups] diz respeito ao código, existem outras etapas do desenvolvimento de um software que podem ser feitos pela IA para obter melhores resultados. A tecnologia fará seu teste inicial de produto, reduzindo a fricção inicial e o custo dessa etapa do processo”, aponta.
Empresas “AI-first”
Com a popularização da IA e o aumento da familiaridade com a tecnologia ao longo de 2025, os especialistas acreditam que a adoção pelas empresas deve crescer em 2026. “As empresas têm a percepção de que precisam adotar IA, mas é importante analisar onde e como. As LLMs trazem ganhos rápidos positivos, mas não podemos confiar cegamente no que ela produz, porque há muita alucinação quando o comando não é bem feito”, indica Luiz Durão, coordenador do curso de MBA em IA Aplicada à Gestão Estratégica de Projetos da Fundação Vanzolini.
Souza também destaca a importância de dar bons comandos para que a tecnologia traga os resultados desejados. “Entender como dar instruções claras e personalizadas é o real diferencial competitivo. Em 2026, usar IA não será mais o diferencial, nem qual modelo você utiliza, mas se destacará quem souber usar da melhor maneira, com informações do seu negócio.”
Nunes aposta que veremos as primeiras companhias se tornando “AI-first”, buscando soluções com uso de inteligência artificial – sem a substituição dos profissionais, mas trabalhando em conjunto com a tecnologia. “Vamos encontrar o ritmo de colaboração, quais tarefas nós podemos fazer e quais serão automatizadas”, conclui.







