Ocupando cada vez mais espaço no ecossistema de negócios do Brasil, os empreendedores negros são maioria no país. Entretanto, o avanço no número de donos de negócios pretos e pardos não vem acompanhado de um cenário de melhoria nos desafios enfrentados. Seja na motivação para empreender, na busca por crédito ou em resultados de faturamento, a população negra ainda encontra um ambiente desigual na comparação com a jornada de pessoas brancas.
De acordo com dados da pesquisa Empreendedorismo Negro no Brasil, feita pelo Sebrae em 2025 a partir da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua Trimestral, do IBGE, o número de empreendedores negros saltou de 13,1 milhões, em 2014, para mais de 16 milhões em 2024, o que representa um crescimento de 22,1% nos últimos 10 anos.
A pesquisa mapeou mais de 30 milhões de empreendedores em atuação no Brasil no último trimestre de 2024. Destes, 52,7% eram negros. Atualmente, o total de empreendedores negros é cerca de 14% superior ao de brancos.
Para Adriana Barbosa, fundadora e diretora executiva do Instituto Feira Preta, maior plataforma de cultura e economia negra da América Latina, mesmo sendo maioria, os empreendedores negros enfrentam limites de escala, competitividade e longevidade dos negócios. Na avaliação da empresária, isso se dá sobretudo em razão das dificuldades de acesso a crédito – questão apontada como maior desafio para os empreendedores negros no Brasil, segundo pesquisa realizada pelo Plano CDE, CAF e Instituto Feira Preta.
“Quando a gente fala que o crédito é o gargalo central para quem empreende sendo pessoa negra no Brasil, estamos falando de um sistema financeiro que ainda opera a partir de lógicas que não nos reconhecem como sujeitos econômicos plenos”, afirma Barbosa, que indica que o histórico das desigualdades estruturais aparece logo na porta do banco: “menos acesso ao emprego formal, menos herança, menos bens que funcionam como garantia. Sem esse lastro patrimonial, o empreendedor negro chega com menos documentos para comprovar e, portanto, enfrenta mais barreiras”, aponta.
Além disso, Barbosa ressalta que a maioria dos empreendimentos geridos por pessoas negras é pequena, informal ou começou com poucos recursos. “Do ponto de vista das instituições financeiras, isso vira sinônimo de risco, mesmo quando há tração, potencial e consistência”, comenta. Foi o caso de Gabriely Beraldo, 23 anos, que fundou em 2020 o Urbi Afro, salão de beleza especializado em cabelos crespos, com um investimento inicial de R$ 300 e buscou financiamento para expandir seu negócio em 2024.
Segundo Beraldo, mesmo com um negócio lucrativo e mais de três anos de operação, a empresa recebeu mais de uma negativa de empréstimo em banco. “Enviei meus comprovantes bancários e até mesmo os dashboards do negócio para comprovar, mas foi reprovado”, conta a empreendedora, que conseguiu capital apenas depois de buscar um fundo de empreendedorismo social organizado por um grupo de mulheres.
Nesse cenário, a jornada empreendedora de pessoas negras é marcada ainda por uma média de faturamento equivalente a quase metade da média de pessoas brancas. De acordo com o Sebrae, empreendedores negros têm um rendimento real médio habitual de R$ 2.477, contra R$ 4.607 de empreendedores brancos. No recorte de gênero, a diferença é ainda maior: donas de negócios negras têm uma receita média 27% menor que de homens negros e 61% menor que de homens brancos.
Jean Custódio da Silva, analista de negócios do Sebrae-SP, atribui a diferença sobretudo à chamada economia do cuidado, que abrange todos os trabalhos de cuidado de pessoas e do lar. “Ela sobrecarrega as mulheres por todo o Brasil, mas tem um peso maior sobre mulheres negras que vivem o funil do mercado de trabalho formal, sendo prejudicadas por não acessar ou mesmo se manter neste mercado, e empreendem por necessidade mais do que outras mulheres, principalmente após a maternidade”, diz Silva.
Para Cátia Casimiro, 37 anos, fundadora do Ateliê Pretear, marca de bolsas e acessórios utilitários com estética afro, a dupla jornada de trabalho é um dos principais desafios que enfrenta enquanto empreendedora. “É um trabalho invisível, mas que consome grande parte do tempo que poderíamos dedicar mais ao negócio”, afirma Casimiro.
Barbosa, do Instituto Feira Preta, ressalta que a diferença no faturamento de donas de negócios negras ainda é reforçada pelo que ela chama de “violência de raça e gênero” do mercado de negócios. “Do banco à feira, do evento de networking à reunião com fornecedores, mulheres negras relatam ser menos acolhidas, menos legitimadas e menos ouvidas. Além disso, o ecossistema empreendedor brasileiro segue majoritariamente branco e masculino, o que restringe acesso a mentores, investidores e parceiros”, destaca Barbosa.

Mesmo com desafios, empreendedorismo negro tem mais propósito
Quando o assunto é a motivação para começar um negócio, empreendedores negros encontram na busca por representação e empoderamento cultural um caminho para trabalhar com mais propósito. Segundo o Global Entrepreneurship Monitor (GEM) 2024, 76,7% dos empreendedores negros em estágios iniciais começaram um novo negócio para “fazer a diferença no mundo”, quase 8% a mais que empreendedores brancos.
Para a fundadora do Ateliê Pretear, esta foi uma das principais motivações para a criação da sua marca. Apesar de já ter empreendido por necessidade antes, ela afirma que começou o primeiro negócio com gestão mais profissional quando começou a estudar sobre negritude e letramento racial.
“Partindo desse autoconhecimento iniciei um pequeno negócio de revenda de produtos de maquiagem e cosméticos específicos para peles negras e cabelos crespos. A partir do contato com outras mulheres negras identifiquei uma lacuna no mercado voltado para a cultura afro-brasileira e resolvi evoluir meu negócio para produção própria de bolsas e acessórios utilitários com estética afro”, diz Casimiro.
Adriana Barbosa avalia que a frase “fazer a diferença no mundo”, que aparece no GEM, conversa diretamente com a ética da economia preta. “Não é só sobre dinheiro, é sobre produzir impacto com pertencimento e ancestralidade. Empreender é tecnologia de futuro, e futuro que não apaga nossas origens”, afirma.
A busca por propósito, porém, não diminui o número de pessoas negras que empreendem por necessidade – e muitas vezes combinam as duas motivações para criar um negócio. Beraldo, da Urbi Afro, é um exemplo. De acordo com a empreendedora, que começou o próprio negócio aos 17 anos, o empreendedorismo foi o caminho que encontrou para sair da vulnerabilidade alimentar. Segundo o GEM, 78,4% dos empreendedores negros brasileiros começaram um negócio “para ganhar a vida porque os empregos são escassos”.
Mesmo impulsionada pela busca por conseguir renda extra, ela não deixou de lado a vontade de trabalhar com algo que representasse sua história. Apaixonada pelo poder de expressão cultural e empoderamento das tranças, ela começou a empreender como trancista e, hoje, vê no seu negócio mais que um salão de beleza. “É um espaço onde as pessoas podem se reconectar com suas raízes e se sentirem mais confiantes e empoderadas. Cada trança que fazemos é carregada de história, cultura e um propósito maior”, afirma Beraldo.
Apesar dos desafios impulsionados por questões históricas e estruturais, é possível perceber um avanço no cenário do empreendedorismo negro nos últimos anos. “Temos a maior participação de pessoas pretas no cenário econômico, e financeiro, valendo destacar instituições que fortalecem o afroempreendedorismo com formações, orientação e acesso a mercados até então inexplorados por empreendedores negros”, avalia Silva, do Sebrae.
Casimiro ressalta que, mesmo com as dificuldades em criar e manter um empreendimento próprio, as alegrias também fazem parte da rotina empreendedora. “Empreender na área artesanal e criativa, que é o meu caso, me traz uma satisfação enorme a cada peça que crio e cada venda que realizo, pois, para mim, vender minhas peças é ter a confiança e admiração do cliente em relação ao meu trabalho. Me sinto realizada e feliz ao parar e refletir sobre tudo que construí com meu próprio esforço e dedicação”, diz.







