Jornada de deeptechs é longa e árdua; conheça 6 histórias de empreendedores

Fonte: Redação

De um lado, o mercado aumenta sua demanda por soluções para grandes problemas globais, como geração de energia limpa, produção de alimentos e tratamentos de saúde. De outro, cientistas desenvolvem pesquisas de ponta com potencial para suprir essas necessidades. Entretanto, o caminho entre a bancada das universidades e o produto ou serviço pronto para o consumo da sociedade é longo e árduo.

Quando tratamos de startups cujo foco é a inovação disruptiva – as chamadas deeptechs –, temas como barreiras de entrada e maturação do negócio alcançam patamares tão avançados quanto os das tecnologias que embasam esses empreendimentos.

“Existem quatro grandes problemas que elas enfrentam”, afirma Marcus Leite, gestor de programas de deeptechs e coordenador do Sebrae for Startups. “O primeiro é que precisam de muito dinheiro, e muito mais nas fases iniciais, porque fazer pesquisa é caro. A segunda questão é que a solução, em geral, demora muito mais tempo para chegar ao mercado que nos negócios mais tradicionais, até porque há muitas regulações necessárias que envolvem processos complexos.”

Também é preciso acessar laboratórios e times de pesquisadores para expandir o projeto, e as ofertas, tanto desses espaços quanto dos profissionais, costumam ser limitadas – sem contar que se localizam em pontos espalhados pela geografia do país e mesmo do mundo. Por fim, há o perfil excessivamente técnico das pessoas que empreendem com deeptechs, característica que invariavelmente as obriga a associar-se com especialistas em negócios.

As soluções para esses desafios passam por programas de financiamento das próprias pesquisas e da esfera de desenvolvimento de modelos de gestão. No Brasil, atrair investidores para negócios de tecnologia profunda, de acordo com Leite, não é nada simples. “O empreendedor precisa mostrar que o seu produto é muito viável e rentável para conseguir um aporte”, diz.

startups:

Visão de mercado

Um aspecto fundamental para atrair capital é oferecer uma tecnologia que atenda a grandes mercados, afirma Daniel Pimentel, sócio-fundador da Emerge, organização que apoia cientistas empreendedores e impulsiona tecnologias de base científica até o mercado. “Nesse caso, o risco pode valer a pena.”

Além disso, considera ele, deve haver uma base tecnológica muito bem consolidada para que a hipótese de o empreendimento escalar faça sentido. “Para isso, é importante a interdisciplinaridade de perfis à frente da empreitada, não só em complementaridade técnica, mas também em termos de visão de mercado”, afirma.

Segundo Leite, um entrave mais característico no Brasil do que na Europa e nos Estados Unidos, por exemplo, é a visão predominante da ciência como estado da arte, fazendo com que as universidades vejam com reservas as possibilidades de converter projetos científicos em produtos ou serviços comercializáveis.

“Falta ainda a cultura de que o empreendedorismo pode ser uma maneira de levar a ciência para a sociedade”, diz. “É complexo e burocrático acessar as estruturas dos laboratórios, sendo que elas ainda são insuficientes para a etapa mais industrial de escalar a produção.”

Números levantados pelo BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) corroboram essa avaliação. Se é do Brasil a grande maioria de pesquisadores (77%) e patentes (58%) entre os países da América Latina e Caribe, o percentual brasileiro de deeptechs (30%) cai em proporção na região.

De qualquer forma, o país conta com centros de excelência no desenvolvimento de pesquisas científicas com potencial de gerar soluções para os desafios contemporâneos. “O Brasil também tem uma boa estrutura de parques tecnológicos e incubadoras”, afirma o coordenador do Sebrae for Startups. “Mas a maioria depende de recursos públicos, o que acaba sendo também um gargalo.”

Um facilitador da abertura de caminhos entre o campo científico e o do empreendedorismo no país é o Marco Legal da Ciência, Tecnologia e Inovação, criado em 2004. “De forma geral, ele cria um contexto favorável para que a ciência tenha contato com o mercado”, afirma Ana Calçado, diretora-presidente da Wylinka, organização que ajuda a construir essa ponte. “Ele permite, por exemplo, que sejam feitas pesquisas nos laboratórios das universidades públicas em parceria com empresas, possibilitando aos pesquisadores dedicar mais horas para empreender.”

RAIO-X DAS DEEPTECHS NO BRASIL

  • 101 startups
  • 30% do total da América Latina e Caribe
  • 37 valem mais de US$ 10 milhões
  • Valor total de mercado: US$ 1,9 bilhão (23% do total da América Latina e Caribe)
  • Capital total aportado: US$ 441 milhões (20% do total da América Latina e Caribe)
  • Fundos de venture capital com foco em deeptechs: 4
  • Fundos generalistas que investem em deeptechs: mais de 40
 — Foto: Fonte: “Deep Tech - A nova onda”, estudo do BID Lab do Banco Interamericano de Desenvolvimento (junho/2023)
— Foto: Fonte: “Deep Tech – A nova onda”, estudo do BID Lab do Banco Interamericano de Desenvolvimento (junho/2023)

 — Foto: Fonte: “Deep Tech - A nova onda”, estudo do BID Lab do Banco Interamericano de Desenvolvimento (junho/2023)
— Foto: Fonte: “Deep Tech – A nova onda”, estudo do BID Lab do Banco Interamericano de Desenvolvimento (junho/2023)

Bright Photomedicine: em busca da luz dos gurus de negócio

O físico Marcelo Sousa desenvolveu uma terapia que usa a luz para combater a dor, evitando efeitos colaterais — Foto: Wanezza Soares/Divulgação
O físico Marcelo Sousa desenvolveu uma terapia que usa a luz para combater a dor, evitando efeitos colaterais — Foto: Wanezza Soares/Divulgação

A vivência de um episódio de doença na família, em 2007, foi o ponto de partida para que o cearense Marcelo Sousa, hoje com 37 anos, direcionasse seus estudos para a área da saúde, fazendo um mestrado de física aplicada à medicina e um doutorado de física aplicada à neurociência.

Parte do doutorado pela USP foi cursado na Universidade Harvard (EUA). Lá, Sousa ouviu de um fundador de uma startup que sua tese de conclusão do curso tinha um potencial enorme para se tornar um negócio lucrativo. O físico tinha em mãos um tratado de fotobiomodulação, que consiste no uso da luz para atuar sobre o metabolismo celular e combater a dor. “Provoca um efeito analgésico sem efeito colateral”, diz.

Em 2014, voltou ao Brasil focado em defender a tese e, ao mesmo tempo, convicto de abrir a empresa – o que fez em novembro daquele ano. Mas conta que, até então, não tinha conhecimento algum sobre o universo do empreendedorismo. Assim, os anos de 2015 e 2016 foram dedicados a participações em eventos, mentorias e aceleração, prospectados em buscas pela internet.

Entre os apoios obtidos, Sousa destaca os programas PIPE Empreendedor, da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), o Startup Farm, de mentoria e aceleração, e o programa governamental InovAtiva.

Nessa época, também constituiu um networking que ele avalia como fundamental para a evolução do negócio. “Em 2016, um curso com Steve Blank, o grande nome do empreendedorismo moderno, me ajudou a definir que meu público-alvo seriam os médicos que prescrevem o nosso tratamento, porque, ao criar uma terapia totalmente nova, precisamos de todo o ecossistema de saúde do nosso lado.”

Só em 2017 a Bright, com um investimento-anjo, contratou seus cinco primeiros funcionários – hoje, a equipe tem 15 pessoas – para, de fato, montar o equipamento necessário para escalar a solução.

Em 2019, com tudo finalizado e a homologação da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), a startup estava pronta para a etapa de comercialização. “Um problema de deeptech é convencer os investidores a financiar algo de muito risco, que vai levar quatro ou cinco anos para ir a mercado e que poderá ou não dar certo”, diz Sousa. A recompensa de quem acredita vem a longo prazo: “Quem investiu no começo da Bright valorizou em cem vezes seu capital”.

A expectativa de faturamento para 2024 é de R$ 3,5 milhões. “Nosso sonho é tratar mais de 1 bilhão de pessoas no mundo todo”, diz o empreendedor. Atualmente, a solução atua sobretudo em ortopedia e anestesiologia, mas a ambição é abarcar cada vez mais especialidades médicas.

Nanovetores: fórmula caseira para a criação de um negócio

A farmacêutica Betina Zanetti Ramos comercializa ingredientes ativos de alta performance para a indústria de cosméticos — Foto: Divulgação
A farmacêutica Betina Zanetti Ramos comercializa ingredientes ativos de alta performance para a indústria de cosméticos — Foto: Divulgação

A farmacêutica Betina Zanetti Ramos, 46 anos, sabe bem que uma deeptech só progride por meio da união de expertises. No seu caso, a constituição de parcerias bem-sucedidas já começou em casa: o marido, o administrador de empresas Ricardo Henrique Ramos, 51 anos, é seu sócio da Nanovetores desde a sua fundação, em 2008 – e é também CEO da startup.

A doutora em química pela Universidade de Bordeaux – que também possui pós-doutorado em nanossegurança e é conselheira do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) – conta que, ao voltar da França, pensava em prestar concurso público, mas recebeu a “provocação” do companheiro para gerar um negócio.

A Nanovetores, que desenvolve e comercializa ingredientes ativos de alta performance – as nanopartículas – para aplicações cosméticas, passou os primeiros dois anos focando em desenvolvimento de portfólio e transposição de escala. “Foi uma etapa bem complexa para mim, como cientista”, diz Betina. Também foram realizadas validações de dados de segurança e de performance de produto.

Se, nas pesquisas acadêmicas da cientista, o foco era o setor farmacêutico, os estudos para lançar a empresa a direcionaram para o segmento de cosméticos, isso em termos de “exigência regulatória e de um mercado mais ávido por inovação”, afirma.

“O tempo de desenvolvimento e de validações do segmento farmacêutico é muito longo, e submeter-se a ele, para uma startup que está começando, pode ser fadá-la à morte”, justifica. No setor de cosméticos, a prospecção de oportunidades passou por participações em feiras e viagens internacionais em busca de tendências.

No momento de desenvolvimento de protótipos, dentro da incubadora Celta, em Florianópolis (SC), a deeptech passou a se inscrever para prêmios de inovação, impulsionando o negócio. “Foram carimbos de procedência para que pudéssemos brigar com os gigantes do mercado”, diz Ricardo.

Em 2011, o fundo Criatec, do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), adquiriu uma participação na startup e deu novo fôlego ao empreendimento. Um ano depois, a fabricante suíça de fragrâncias, aromas e matérias-primas cosméticas Givaudan comprou essa cota.

“Uma grande dor para nós foi gastar tempo e recursos financeiros para catequizar o mercado sobre a nanotecnologia”, afirma Betina. “Desenvolver inovação é um buraco sem fundo para os recursos”, diz Ricardo. “E depende de órgãos reguladores, o que dá muito mais complexidade.”

A empresa, hoje com 70 funcionários, faturou R$ 30 milhões em 2022.

Investimentos em startups:

Neogenys: diversificar a aplicação para faturar mais

O biólogo Ricardo Bonfim ajudou a configurar um exame que diagnostica um dos tumores no cérebro mais comuns em crianças — Foto: Divulgação
O biólogo Ricardo Bonfim ajudou a configurar um exame que diagnostica um dos tumores no cérebro mais comuns em crianças — Foto: Divulgação

Foi no meio universitário, no campus da USP (Universidade de São Paulo) em Ribeirão Preto, que os doutores em genética e biologia molecular Ricardo Bonfim, hoje com 39 anos, e Gustavo Cruzeiro, 37, se encontraram pela primeira vez. Em uma conversa informal em um laboratório, Bonfim ficou impactado com alguns resultados de uma pesquisa que o colega havia conduzido na Suíça, com o patrocínio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), para seu doutorado sanduíche.

“O foco da tese era identificar e desenvolver uma tecnologia para diagnosticar tumores cerebrais infantis”, diz Cruzeiro. No caso, subgrupos do meduloblastoma que acometem o cerebelo e requerem diferentes tratamentos. O método utilizado para classificar as neoplasias foi o PCR em tempo real, de custo-benefício adequado para ser aplicado no Brasil. Bonfim, por sua vez, tinha amigos pesquisadores que andavam incubando startups – o que lhe deu a ideia de “pensar um pouco além de transformar pesquisas em artigos científicos, que é o predominante na academia”.

Logo que os dois se uniram para empreender, depararam-se com a primeira dificuldade. “Precisávamos de dinheiro”, conta Bonfim. Procuraram, então, a Fapesp e lá descobriram o PIPE (Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas), programa para projetos científicos com viés de transformação em produtos ou serviços, no qual inscreveram a proposta que daria origem à Neogenys.

A solução da startup é um exame de classificação molecular do meduloblastoma. “Se não houvesse o PIPE, possivelmente a empresa não existiria”, afirma Bonfim. “No programa, focamos na aprovação e na otimização do produto.”

Para agregar o conhecimento da área de empreendedorismo que não tinham como acadêmicos, foram incubados no Supera Parque, centro de inovação tecnológica de Ribeirão Preto. Para escalar, entre as adaptações em relação à pesquisa original, foi necessário mudar o método de conservação das células para realizar o exame – em vez de congeladas, passaram a ser parafinadas, sistema mais usual fora dos grandes centros brasileiros.

Atualmente, para ampliar as possibilidades de faturamento, a deeptech, que tem um time de dez pessoas e um terceiro sócio, Carlos Alberto de Biagi Jr., trabalha para aplicar seu arcabouço no mapeamento de outro tipo de câncer, o linfoma, um tumor mais frequente. Também busca entrar em outros mercados, como Argentina e México, e firmou parcerias com o Hospital das Clínicas de São Paulo e o Albert Einstein.

Aberta em 2019, a Neogenys só agora começa a comercializar seus primeiros testes. A expectativa para os próximos anos é atingir um faturamento anual entre R$ 2 milhões e R$ 2,5 milhões.

SDW For All: a dificuldade de chegar ao mais simples

A biotecnóloga Anna Beserra desenvolveu um equipamento que usa a luz solar para eliminar contaminações microbiológicas da água — Foto: Divulgação
A biotecnóloga Anna Beserra desenvolveu um equipamento que usa a luz solar para eliminar contaminações microbiológicas da água — Foto: Divulgação

A leitura do romance Vidas Secas, de Graciliano Ramos, despertou na biotecnóloga Anna Beserra, 25 anos, a motivação para desenvolver um projeto que ajudasse as pessoas a enfrentarem um problema usual sobretudo em regiões semiáridas do Brasil: a falta de água potável.

Ela ainda era uma adolescente de 15 anos quando, na escola, fez as primeiras pesquisas pela internet para criar aquele que hoje é o carro-chefe entre os produtos da SDW (Sustainable Development & Water) For All, sua startup: o Aqualuz. Trata-se de um equipamento simples que utiliza a própria luz solar e seus raios ultravioletas para eliminar contaminações microbiológicas da água.

Mas era preciso amarrar várias pontas de complexidade para condensar sua solução para o mercado. “O primeiro desafio foi acessar um laboratório para testar e validar o produto”, diz. Quando ela ingressou no curso de biotecnologia da Universidade Federal da Bahia, aos 17 anos, o projeto começou a ganhar corpo. Em 2015, um de seus professores sugeriu que montasse uma startup.

Beserra conseguiu, então, uma vaga na incubadora da universidade. “Minha ideia era ter um produto simples o suficiente para garantir não só a eficiência a um custo acessível, mas também a durabilidade, a replicabilidade e a autonomia de quem o utilizasse, pois identifiquei que esses usuários seriam de zonas rurais e teriam pouco acesso a compras de refis ou algo do tipo.”

No entanto, “o difícil foi ficar simples”, diz ela – o produto está em sua 15ª versão. Tampouco foi fácil especificar o público-alvo e o modelo de negócio a ser adotado. Fatores climáticos e geográficos, além da qualidade da água – o Aqualuz é ideal para tratar a água da chuva –, são determinantes para a aplicabilidade da solução.

Pela limitação de recursos para visitas de campo, a empreendedora demorou dois anos para mapear seus potenciais clientes – no Brasil, cerca de 10 milhões de pessoas. Para conseguir parcerias, aumentou seu networking, participando de eventos de empreendedorismo e acelerações.

Ter sido selecionada para um curso de lideranças e novos empreendimentos do MIT (Massachusetts Institute of Technology), aos 18 anos, foi um fator de atração de mentores. Em 2019, foi premiada pela ONU (Organização das Nações Unidas) com o Jovens Campeões da Terra, que reconhece projetos ambientais.

Hoje a deeptech tem mais uma sócia, a engenheira ambiental Letícia Nunes, e uma linha de produtos de saneamento para atender outros tipos de público. Desde que saiu para o mercado, em 2019, a SDW For All – o nome em inglês é estratégia para a internacionalização – faturou R$ 2,5 milhões, com projeção de alcançar em 2024 o patamar de R$ 10 milhões por ano. Já há 2 mil unidades do Aqualuz instaladas no país, e um projeto piloto no Equador está em andamento.

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Technomar : um time para manobrar o leme do negócio

O engenheiro Carlos Fucatu foi um dos idealizadores do primeiro simulador nacional de manobras hidroviárias — Foto: Divulgação
O engenheiro Carlos Fucatu foi um dos idealizadores do primeiro simulador nacional de manobras hidroviárias — Foto: Divulgação

Olhar para o horizonte e enxergar uma possibilidade de manobra empreendedora. Foi isso o que levou um grupo de pesquisadores mestres e doutores de um laboratório da Escola Politécnica da USP a criar a Technomar. Após anos desenvolvendo simuladores digitais de plataformas de exploração de petróleo em alto-mar, esses especialistas partiram de uma carência bem específica para idealizar o negócio: a necessidade da Transpetro, subsidiária de logística da Petrobras, de treinar os comandantes de comboios de balsas na hidrovia Tietê-Paraná.

“Não existia um simulador de manobras nacional, e a demanda por treinamentos das tripulações era crescente”, diz Carlos Fucatu, 58 anos, um dos sócios da empresa. Estava, então, aberta a comporta para o TMS® – Technomar Maritime Simulator, o primeiro simulador de manobras hidroviárias do Hemisfério Sul a obter, em 2020, a certificação internacional Classe A da DNV, entidade que qualifica tecnologias da indústria do petróleo.

A primeira versão do produto levou dois anos para ser desenvolvida, com recursos próprios. Para os aprimoramentos seguintes, foram contratadas linhas de crédito em órgãos como Fapesp, CNPq e Finep (Financiadora de Estudos e Projetos). O tempo de incubação da empreitada na própria USP foi fundamental para que o negócio zarpasse.

“Nesse período, a Technomar agregou um grupo de pesquisadores com diferentes expertises para a venda de serviços especializados na área de exploração de petróleo em alto-mar”, diz Fucatu. “Em 2014, a entrada de um novo sócio, não acadêmico, Marcelo Cyrillo, com grande vivência do mercado, trouxe ao grupo uma visão empresarial mais prática, coincidindo com a ideia de explorar o simulador comercialmente fora da universidade”, lembra. “É importante agregar pessoas com diferentes talentos, mas com objetivos e visões em comum, tanto de negócio como de impactos esperados na sociedade.”

Atualmente, o TMS® está instalado em 17 centros de simulação no Brasil e prevê seu primeiro desembarque no exterior para dezembro deste ano, no Paraguai. Em 2021, a deeptech lançou também um sistema de monitoramento portuário projetado para aprimorar a segurança das manobras realizadas por navios nos portos: “O objetivo primordial é fornecer respostas precisas e confiáveis para os operadores, permitindo-lhes tomar decisões objetivas em tempo real”, afirma Fucatu. Hoje com dez sócios e 30 colaboradores, a Technomar tem uma receita anual na casa dos R$ 10 milhões.

InQuímica: um passo atrás para a retomada

Sem agrotóxicos - A química Taynara Alves está desenvolvendo uma solução para remover metais pesados de frutas, verduras e legumes — Foto: Divulgação
Sem agrotóxicos – A química Taynara Alves está desenvolvendo uma solução para remover metais pesados de frutas, verduras e legumes — Foto: Divulgação

A química Taynara Alves, 32 anos, conduziu de maneira informal e sem supervisão as pesquisas científicas para chegar ao seu produto – uma solução para remover metais pesados de frutas, verduras e legumes. Em determinado momento da carreira, optou por fortalecer seu lado empreendedor estudando gestão de negócios, mas hoje percebe que precisa reforçar sua jornada na academia de ciências.

Antes mesmo da graduação, Alves já havia adentrado o universo científico por meio de um curso técnico de química. Naquela época, fez uma iniciação científica no Ipem-SP (Instituto de Pesos e Medidas do Estado de São Paulo). Na sequência, foi aprovada no vestibular para química. Logo que começou o curso superior, conseguiu um estágio remunerado, com carteira assinada, e acabou deixando a iniciação científica. “Eu não conseguiria viver com bolsa para levar a pesquisa adiante porque tinha que ajudar financeiramente em casa”, diz.

Seguiu, então, com o projeto nas lacunas das obrigações diárias, em uma pegada mais informal, usando estruturas dos laboratórios que tinha à mão – da empresa em que trabalhava e da faculdade. Mas não tinha supervisão de um professor, por exemplo.

Ao terminar sua graduação em química, ela partiu para um curso de gestão de negócios e inovação com o intuito de transformar os resultados da pesquisa que já havia conseguido em negócio. Assim, fundou em 2017 a InQuímica.

Entretanto, mesmo passando por processos de aceleração como o da Artemisia, Alves diz ter sentido falta de uma “formalidade acadêmica” até para conseguir aportes de capital e entrar no mercado. “Foram etapas que acabei pulando. Quero aprofundar mais as pesquisas de campo antes de efetivamente sair para o mercado”, diz ela, que, por conta desse gap, resolveu pausar a startup durante a pandemia.

Agora, negocia com uma grande empresa do setor químico uma parceria para a retomada. “Com eles, terei laboratórios e recursos para aprimorar ainda mais a solução e produzir um artigo científico sobre ela, algo que faltou no meu percurso e que é importante até para torná-la mais atrativa para investidores”, diz. “Mais que dinheiro, preciso de um direcionamento.”

Um dos pontos sensíveis é o tempo de ação do produto, que leva entre 40 minutos e uma hora para remover de 60% a 80% dos metais pesados dos alimentos. Potenciais clientes com os quais já conversou demandam um tempo menor. “Com mais um ano e meio de pesquisas, no máximo, conseguirei atender melhor à demanda do mercado”, afirma.

Esta reportagem foi publicada originalmente na edição de setembro da revista Pequenas Empresas & Grandes Negócios.

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