O setor de fintechs segue forte no Brasil. Segundo dados da plataforma Distro, o país concentra 55,9% das startups financeiras da América Latina. No que diz respeito a capital, de acordo com o Sling Hub, sete das maiores rodadas do ano no Brasil foram para fintechs. No entanto, 2025 foi atribulado para o mercado, com episódios que incluíram investigações da Polícia Federal e decisões importantes do Banco Central. Segundo especialistas consultados por PEGN, o próximo ano terá menos espaço para improviso e mais exigência de compliance e maturidade institucional para quem quer seguir operando e crescendo.
“O setor está mais alerta aos pontos que desencadearam os casos, até pela compreensão da capacidade investigativa dos órgãos estatais de repreensão. 2026 será um ano de revisão de estruturas e implementação de mudanças, além de busca pelo conhecimento de riscos ainda não dimensionados pelas operações de 2025”, opina Eduardo Dotta, professor do Insper Direito.
Uma das medidas já tem prazo correndo: em resposta a ataques cibernéticos e casos de crimes envolvendo fintechs, o regulador determinou em setembro que nenhuma instituição de pagamento (IP) poderá operar sem autorização prévia do órgão – o prazo de regularização foi antecipado de dezembro de 2029 para maio de 2026. Para funcionar, IPs deverão comprovar capital mínimo de R$ 7 milhões.
“Embora necessários, alguns desses ajustes podem trazer dificuldades para fintechs de menor porte, sobretudo por causa dos requerimentos mínimos de capital, que tende a restringir a entrada de novos participantes e gerar risco de retrocesso em inclusão e competição financeira”, declara Diego Perez, presidente da Associação Brasileira de Fintechs (ABFintechs).
Relembre a seguir as principais movimentações do ano para as fintechs e o que esperar de 2026.
Em 2025, o ambiente regulatório para fintechs brasileiras passou por apertos significativos com foco em integridade e combate a fraudes. Investigações da Polícia Federal apontaram que fintechs foram usadas por organizações criminosas para movimentar dinheiro de origem ilícita, apagando rastros do caminho do capital.
Em fevereiro, a Operação Hidra investigou as fintechs 2GO Bank e Invbank por fazer parte de um sistema bancário ilegal que lavou cerca de R$ 6 bilhões de facções envolvidas com tráfico de drogas, de armas e contrabando. Em agosto, a Operação Carbono Oculto desvendou um esquema ainda maior, que indicou o uso de fintechs, como BK Bank e Banvox, para a movimentação de R$ 46 bilhões pelo Primeiro Comando da Capital (PCC), em uma trama que envolveu postos de gasolina, refinarias e lojas de conveniência.
De acordo com a Receita Federal, os criminosos se aproveitaram de uma brecha na legislação, utilizando “contas-bolsão”, onde o dinheiro de todos os clientes fica misturado, dificultando saber de quem é o quê. As fintechs também não eram obrigadas a informar os dados das transações à Receita.
“A gravidade dos fatos colocou em dúvida a credibilidade do setor. Algumas fintechs não trabalhavam com políticas adequadas de compliance e prevenção à lavagem de dinheiro”, indica Dotta, do Insper.
Em resposta, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, anunciou que as fintechs seriam enquadradas como instituições financeiras pela Receita Federal, tendo de cumprir as mesmas obrigações que os grandes bancos. O objetivo era fortalecer a fiscalização e acelerar a identificação de crimes financeiros.
“As investigações desencadearam uma percepção distorcida sobre as fintechs, ainda que os episódios não representem o funcionamento do setor como um todo. Esse ruído reforçou a importância de comunicação clara entre empresas e reguladores, dinâmica já consolidada pelas entidades representativas”, aponta Perez, da ABFintechs.
Em dezembro, o Banco Central determinou novas regras para os nomes das instituições financeiras. Não será mais permitido usar termos que sugiram atividade ou modalidade de instituição, em português ou língua estrangeirab (como banco ou bank), para a qual não tenham autorização de funcionamento específica.
O Nubank, por exemplo, foi impactado. A fintech possui as licenças de Instituição de Pagamento, Sociedade de Crédito, Financiamento e Investimento, e Corretora de Títulos e Valores Mobiliários. Frente à decisão do BC, o unicórnio afirmou que pretende obter uma licença bancária no Brasil em 2026. De acordo com Perez, o debate sobre a nomenclatura já era discutido pelo setor e não trouxe surpresa. A percepção é positiva, de contribuição para maior transparência.
3. Suspensão do projeto do Drex
Em novembro, o Banco Central anunciou o desligamento da plataforma blockchain que foi usada nos testes para o Drex – projeto da versão digital da moeda brasileira –, iniciados em 2023. De acordo com o BC, a tecnologia não conseguiu alcançar os padrões de privacidade e segurança considerados necessários para o andamento do projeto.
A plataforma será reestruturada e uma nova tecnologia ainda será definida pela autarquia para a continuação do piloto em 2026. “Para o setor, a principal mensagem dessa mudança é que projetos de infraestrutura pública exigem maturidade de governança, clareza de cronograma, recursos adequados e aderência às prioridades institucionais. O debate precisa permanecer técnico, sem antagonismos entre gestões”, afirma Perez.
No início de dezembro, a Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado Federal aprovou o projeto de lei que aumenta a tributação de fintechs. O PL 5.473/2025, do senador Renan Calheiros, altera a Lei 7.689, de 1988, e prevê a elevação da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) de forma escalonada.
A partir de 2026, a alíquota para fintechs (empresas prestam serviços financeiros por meio de plataformas digitais) e instituições de pagamento, administradoras de mercado de balcão, bolsas de valores e de mercadorias sobe de 9% para 12%. Em 2028, passa a 15%. Sociedades de capitalização e instituições de crédito, financiamento e investimento têm alíquota elevada de 15% para 17,5% em 2026 e para 20% em 2028.
Lideranças do Congresso Nacional negociaram com o governo a inclusão desse tema no projeto de lei que reduz benefícios fiscais – que prevê o corte de 10% em descontos oferecidos pelo Fisco como uma forma de incentivo a atividades econômicas –, com o objetivo de aumentar a arrecadação para cerca de R$ 20 bilhões e fechar o Orçamento de 2026. A Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei Complementar (PLP) 128/25, do deputado Mauro Benevides Filho, na terça-feira (16/12).
No dia seguinte, o Senado também aprovou o texto. O projeto agora aguarda pela sanção presidencial: por decreto, Lula tem 15 dias úteis para sancionar ou vetar, total ou parcialmente, um projeto. Porém, há pressa para que o texto entre em vigor no ano que vem.
Futuro
Para Perez, 2026 deve ser um ano para o acompanhamento da evolução das propostas tributárias, o fortalecimento das exigências de governança e o endurecimento de medidas de prevenção a fraudes.
Uma pesquisa da AtlasIntel mostra que 85% dos brasileiros consideram que o crescimento do setor de bancos digitais e fintechs foi benéfico para a população. “As investigações em andamento podem resultar em regras mais robustas de rastreabilidade, critérios mais rigorosos para abertura de contas e maior responsabilização de gestores e instituições. Esses desdobramentos reforçam a necessidade de diferenciar empresas que atuam com rigor regulatório daquelas que não seguem padrões”, destaca Perez.
O presidente da ABFintechs aponta pontos de atenção para as startups do setor financeiro em 2026: fortalecer os processos de compliance, aprimorar o monitoramento transacional, atrair mão de obra qualificada, reter talentos e manter uma cultura onde transparência e governança são pilares estratégicos.
“É essencial investir em processos auditáveis e comunicação clara, reforçando a confiança em um momento de maior escrutínio. O ambiente regulado exige maturidade e diálogo constante, e as empresas precisam incorporar essa lógica de maneira mais estruturada”, conclui.







