Com o nome artístico daSilva, o paulistano Kevin da Silva assina os bordados elaborados cuidadosamente para seus clientes todos os meses. No centro de cada peça, o artista plástico de 30 anos modela estampas coloridas com figuras de orixás e de outras entidades sagradas da umbanda. O ofício apreendido há mais de 10 anos virou um negócio e a principal fonte de renda para ele desde 2020, além de fazer parte de uma jornada pessoal de conexão com a arte e a religiosidade.
A primeira inspiração para explorar suas habilidades artísticas surgiu dentro de um monastério em São Paulo (SP). Em 2012, Silva vivia em um templo Hare Krishna como monge quando começou a se interessar por modelagem e customização de roupas. Naquele contexto, ele conheceu o bordado e decidiu aprender as técnicas das tramas. Como os cursos eram caros, ele mesclava as informações teóricas que conseguia acessar com os conhecimentos prévios de costura.
“Fui fazendo de forma intuitiva e, como eu já sabia costurar, eu já tinha mais ou menos na minha cabeça como [o bordado] funcionava ou como ele deveria funcionar”, lembra o artesão.
Empreendedorismo negro:
A prática foi aprimorada somente quando Silva teve acesso aos materiais para bordar, na casa de uma amiga. Ele havia se mudado para outro monastério em Florianópolis (SC) e, durante a estadia no local, passou a fazer bordados mais simples para amigos e pessoas conhecidas, que incentivaram o trabalho.
O aprendizado prático e a aprovação das pessoas fizeram Silva perceber que poderia apostar nas artes manuais para empreender. A decisão serviu de motivação para uma nova fase de vida, com a volta para a capital paulista e o rompimento com as atividades como monge. Inicialmente, ele precisou conciliar o artesanato com outro tipo de trabalho para complementar a renda, mas durante a pandemia ele decidiu se demitir para poder focar somente na confecção de peças bordadas.
Decidido a imprimir uma representação ancestral da população negra em seu trabalho, Silva conta que escolheu retratar entidades da umbanda nos materiais que produzia. Para isso, ele buscou informações sobre os orixás e, durante os estudos, acabou se encantando pela religião e adotando a nova filosofia para a sua vida. “Eu queria poder falar sobre nossa ancestralidade de uma forma bonita”, diz.
“O trabalho com o bordado fez com que eu me interessasse mais pelas religiões africanas porque eu precisei estudar sobre elas. Eu necessitava entender o que eu estava desenhando, e fui desenvolver esse interesse ao começar a entender de uma forma mais real, na vivência”, complementa Silva.

Desde então, o artista paulistano conseguiu consolidar sua marca própria. Toda a produção é realizada sob demanda em um ateliê dentro de sua casa no bairro Cambuci, exposta para mais de 30 mil seguidores no Instagram e entregue pelos Correios ou nas estações de metrô em São Paulo. Os pedidos são feitos de forma agendada – são em média 15 por mês – e têm a proposta de entregar peças exclusivas para cada cliente.
As ilustrações são feitas por Silva e transferidas para o tecido por meio de linhas e tintas. Em média, ele gasta dois dias para bordar cada peça. Com a venda dos itens bordados, que custam a partir de R$ 320, e de outros produtos com desenhos impressos, ele fatura mensalmente entre R$ 4 mil e R$ 6 mil.
Preços acessíveis
Para dar amplitude à marca, Silva planeja ir além dos bordados atuais e produzir novos tipos de peças. A ideia é ampliar o acesso do público às ilustrações, sem perder a conexão da empresa com as entidades ancestrais. Assim, em 2024, ele deve investir na produção de camisetas e de outros itens com ilustração digital, que possam ser vendidos por um preço menor.
“Tenho estudado pintura digital e estou sempre buscando coisas para fazer com a minha identidade. Gosto de tentar atingir todos os públicos para que as pessoas que gostam do meu trabalho consigam adquiri-lo”, afirma Silva “Quero aprender mais para poder diversificar o meu trabalho, mas mantendo a mesma identidade e a mesma temática.”







