O desejo de trabalhar com arte, a necessidade de um café diferenciado e a experiência com produção cultural levaram os irmãos Anthony Barcellos, 36 anos, e Andherson Barcellos, 34, a fundarem a cafeteria Partícula Café em julho de 2022, na Zona Norte de São Paulo. A cafeteria, que encerrou 2025 com um faturamento de R$ 1,1 milhão, funciona como base financeira de um projeto cultural que grava artistas independentes e agora passa a operar como casa de shows em 2026.
Os dois nasceram e cresceram na região do Jardim Vista Alegre, na Brasilândia, Zona Norte de São Paulo. O pai se aposentou por invalidez aos 35 anos. A mãe trabalhava como escriturária e assumiu o cuidado da casa e da família. Eles moravam em um terreno doado por uma igreja católica, sem escritura.
A trajetória mudou quando a mãe conseguiu matricular Anthony e o irmão na Legião da Boa Vontade (LBV), organização do terceiro setor com escolas, centros comunitários, editora, rádio e televisão. Os dois entraram ainda no berçário, aos sete meses de idade. A escola fica no Bom Retiro, região central da capital, distante da periferia onde viviam.
“A gente vinha desde a infância para a escola, descia escadão, esgoto aberto. Era a condição de qualquer família em vulnerabilidade”, afirma Anthony.
A formação na LBV se estendeu até o terceiro ano do ensino médio. Segundo ele, a estrutura da escola ampliou a sua percepção de mundo. “A escola conseguiu colocar na nossa mente que tudo era possível e que a gente podia sonhar alto.”
Enquanto os filhos estudavam, a mãe passava em concursos públicos e se tornava professora da rede estadual. Anthony diz que a convivência entre realidades distintas — a escola com padrão privado e a periferia — ajudou a formar sua visão crítica.
A entrada precoce no audiovisual
A ligação com a arte surgiu cedo. Anthony relata uma tradição familiar ligada à música, poesia e desenho, tanto do lado materno quanto paterno. Aos 12 anos, Anthony passou a frequentar voluntariamente a televisão da LBV. Aos 14, foi registrado como aprendiz nos bastidores. Aos 16, atuou como produtor de um programa semanal. “A gente teve que aprender a editar, filmar, roteirizar. Aprendia um pouco de tudo”, afirma.
Por meio de acordos com sindicatos, ele e o irmão receberam DRT (registro profissional) ainda na adolescência. Aos 17 anos, começaram a trabalhar em grandes emissoras. Anthony foi para a Record; Andherson, para o SBT.
Com a experiência acumulada, os irmãos fundaram uma produtora audiovisual em 2010. Inicialmente chamada IB Filmes (Irmãos Barcellos), o nome mudou para AB Vídeos após conflito de registro. A empresa realiza trabalhos para marcas como Sony, Bradesco e Minalba, além de produtoras internacionais.
Anthony atuou como freelancer em grandes produções da televisão brasileira. Trabalhou em realities, sitcoms, novelas e documentários. Entre os projetos, ele cita The Masked Singer, A Ilha, Câmera Record, além de trabalhos com Silvio Santos, Danilo Gentili, Fábio Porchat, Zeca Camargo e Marcos Mion.
Apesar da estabilidade financeira, ele relata que vivia um incômodo crescente. “A nossa trajetória sempre foi muito comercial, mas faltava algo que tivesse propósito.”
O café como ruptura com o mundo corporativo
A decisão de empreender fora do audiovisual surgiu antes da pandemia. O gatilho veio de um problema de saúde do irmão, diagnosticado com uma úlcera no estômago. Um médico sugeriu a troca do café tradicional por café de grãos selecionados.
A partir disso, os irmãos passaram a frequentar cafeterias especializadas. Anthony diz que o contato com o café de qualidade despertou a ideia de negócio. “O café especial é, na verdade, o café natural. É só o grão selecionado.”
Eles decidiram criar um espaço que unisse alimentação, ambiente e cultura. “A gente queria nutrir mente, espírito e corpo físico.”
O Partícula Café nasceu com a proposta de desacelerar. O ambiente foi planejado para estimular presença e conforto, com música, cores e alimentos preparados sem ultraprocessados. O cardápio prioriza ingredientes frescos, fermentação natural e opções vegetarianas e veganas, sem divulgação explícita dessa característica.
“Hoje restaurantes são criados para gerar rotatividade. A gente decidiu que não seria esse o nosso caminho”, afirma Anthony. Uma frase estampada no espaço sintetiza o conceito: “O invisível te contará tudo e não te dirá nada.” Segundo ele, a atenção está nos detalhes que o cliente não percebe conscientemente.
Os irmãos alugaram o ponto uma semana antes da pandemia. Permanecem no contrato mesmo com a possibilidade de desistir. Passaram seis meses pagando metade do aluguel e depois assumiram o valor integral, de cerca de R$ 7 mil mensais.
Enfrentaram atrasos na reforma, empresas fornecedoras que fecharam, um golpe de R$ 70 mil e entraves com a Sabesp para adequação elétrica. O dinheiro acabou no fim de 2021.
O investimento total chegou a R$ 350 mil, somando recursos próprios, acerto trabalhista e empréstimos. Andherson foi demitido do SBT após dez anos e Anthony deixou a LBV.
A inauguração ocorreu em 26 de julho de 2022, data escolhida por uma série de coincidências simbólicas: o Dia Internacional dos Avós, o “dia fora do tempo” no calendário Maia e a data dedicada a Santa Ana, padroeira do bairro de Santana. A biblioteca do café homenageia o avô materno, poeta, com objetos pessoais expostos.
O projeto cultural como eixo central
Desde o início, o café foi concebido como base para um projeto cultural. Em 2024, nasceu o Partícula Cultural, inspirado no formato intimista do Tiny Desk. O espaço recebe artistas independentes para gravações ao vivo, sem superprodução. “Esse espaço só existe para chegar nesse projeto”, afirma Anthony.
Em três meses, o projeto alcançou mais de 30 mil seguidores no Instagram. Os vídeos chegaram entre 500 mil e 800 mil visualizações. As sessões são gratuitas para os artistas. A cafeteria sustenta financeiramente a iniciativa.
Em fevereiro de 2026, o Partícula passa a operar oficialmente como casa de shows, entrando no circuito de apresentações independentes da cidade.
Números do negócio
O espaço recebe de 35 a 50 pessoas por dia durante a semana e até 120 aos fins de semana, com tíquete médio entre R$ 75 e R$ 85.
O cardápio é temático, com nomes ligados à música. Entre os itens mais vendidos estão o queijo quente “Alegria” (R$ 43), o toast de avocado “Boa Sorte” (R$ 54) e o brunch para duas pessoas (R$ 96). Nos doces, destaque para o “Bolo da Vovó Deli” (R$ 17) e a “Rabanada do Vô Miramar” (R$ 42). Em 2025, o faturamento bruto anual soma R$ 1.131.610, 26.
Para o futuro, os irmãos afirmam querer consolidar o espaço como referência cultural e turística. A proposta inclui sustentabilidade, reaproveitamento de resíduos, redução de plástico e fortalecimento da cena artística independente. “Queremos que as pessoas tenham uma relação íntima com o espaço. Que digam: ‘esse é o lugar onde meu artista favorito toca’”, afirma Anthony.







