Em Salvador (BA), uma lacuna de mercado deu origem a um negócio pioneiro. Incomodada com a falta de instituições que não reproduzissem apenas o padrão estético e cultural europeu, a professora e pesquisadora Bárbara Carine decidiu empreender. Com um investimento inicial de R$ 150 mil, ela fundou a Escola Afro-brasileira Maria Felipa, um case que une educação decolonial, gestão de crise exemplar e expansão interestadual.
A ideia surgiu em 2017, durante o processo de adoção de sua filha, Iana. Carine buscava um espaço onde a menina não sofresse a violência simbólica de ter sua estética e ancestralidade negadas. “A escola surge pela demanda de uma mãe no sentido de criar um espaço que seja também de segurança para a minha filha”, conta a fundadora.
Após dois anos de estruturação do Projeto Político Pedagógico e do espaço físico, a escola foi inaugurada em 2019. A proposta é clara: ser uma instituição de excelência, trilíngue (português, inglês e Libras), que cumpre as exigências do MEC, mas inverte a lógica tradicional. O objetivo é socializar a história da diáspora africana com a mesma relevância dada à cultura europeia.
“A gente traz intelectuais negros na matemática, na ciência, na geografia. Trazemos a representatividade em todo o âmbito da escola”, explica Bárbara. A escola destaca que não é um espaço exclusivo para negros, mas para todas as crianças, visando superar o racismo estrutural pela via educacional.
O nome por trás da marca
A escolha do nome não é estética, é um posicionamento político. A escola homenageia Maria Felipa, marisqueira e heroína da Independência do Brasil na Bahia, muitas vezes apagada dos livros de história.
Líder de um grupo de 200 pessoas — entre mulheres negras e indígenas tupinambás —, ela foi estratégica nas batalhas contra os portugueses a partir de 1822 na Ilha de Itaparica. A história conta que o grupo de Maria Felipa foi responsável por queimar mais de 40 embarcações inimigas. É esse espírito de “pensamento estratégico e quilombola” que a gestão da escola busca imprimir.
O negócio enfrentou seu teste de fogo pouco tempo após abrir. Em fevereiro de 2020, Maju Passos conheceu a escola buscando vaga para seu filho, Ayo. “Quando eu conheci essa escola aqui, eu falei: ‘É essa que meu filho vai estudar'”, relembra. Porém, em março, a pandemia de Covid-19 fechou as salas de aula.
O que poderia ser o fim do negócio virou o momento da virada. Bárbara convidou a então cliente para se tornar sócia-gestora. Juntas, elas pivotaram o modelo de negócio criando a Afroeducativa, um braço de cursos de formação para profissionais e empresas focado em letramento racial e diversidade.
“A gente criou nosso curso com baixo custo e alta intelectualidade. Na pandemia, vendemos como água”, diz Passos. A receita vinda do B2B sustentou a escola durante a crise e permitiu a criação de um instituto.
A sustentabilidade financeira vinda dos cursos permitiu que a Maria Felipa estruturasse um sistema de subsídio cruzado. Parte do lucro financia a inclusão: alunos negros e indígenas de baixa renda contam com 100% de bolsa.
“Está no nosso propósito ensinar para todas as crianças, mas os ‘nossos’ precisam estar aqui”, afirma Carine. Para as famílias pagantes, o valor agregado está na formação crítica. “Não é só o desafio de pagar, mas pagar para quem vai realmente educar meu filho e ser minha rede de apoio”, relata um dos pais.
Expansão e sócia famosa
Com o modelo validado e consolidado na Bahia, a marca iniciou sua expansão nacional em 2024, com uma unidade no Rio de Janeiro. A chegada ao Sudeste trouxe para o quadro societário a atriz Leandra Leal, que atua como sócia-investidora na operação carioca.
A escola projeta formar futuros adultos críticos, prontos para “reconstruir impérios” e atuar em uma sociedade que valorize a diversidade não apenas no discurso, mas na estrutura. “Quando a gente fala de uma gestão decolonial, a gente tem que estar aberto para o que está por vir”, finaliza Maju Passos.
Veja a seguir a reportagem completa que foi ao ar no programa Pequenas Empresas & Grandes Negócios:
De crise à expansão: escola vira referência ao colocar ancestralidade no centro do ensino







