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Empresas do setor moveleiro do RS ainda calculam prejuízos com chuvas, mas já notam maior demanda

Fonte: Redação

Entre o fim de abril e o decorrer de maio, 475 dos 497 municípios do Rio Grande do Sul sofreram danos pelas chuvas e enchentes que atingiram o estado, segundo levantamento da Defesa Civil. Cerca de um mês depois, empreendedores do setor moveleiro ainda calculam todos os prejuízos gerados pela catástrofe climática. Entre os principais desafios enfrentados no processo de reconstrução estão a perda total de matéria-prima e maquinários e queda brusca no faturamento. Por outro lado, já foi possível notar uma mudança na demanda, movida pela necessidade de moradores de substituir móveis afetados pela água.

O estado do Rio Grande do Sul é o segundo maior produtor e exportador de móveis do Brasil, concentrando 30% do total nacional, atrás apenas de Santa Catarina, segundo levantamento de 2023 da Associação das Indústrias de Móveis do Estado do Rio Grande do Sul (MOVERGS). O setor local é composto por aproximadamente 2.400 indústrias moveleiras, responsáveis pela geração de mais de 35 mil empregos.

Grande parte da produção mobiliária do Rio Grande do Sul está centralizada nas cidades de Bento Gonçalves, Caxias do Sul, Erechim, Restinga Seca, Santa Maria, Lagoa Vermelha, Cena, Gramado e Passo Fundo. “A região da cidade de Bento Gonçalves concentra grandes empresas e boa parte delas não foi atingida, o que é ótimo. Mas temos milhares de pequenos negócios espalhados pelo estado”, diz Ana Cristina Schneider, assessora de mercado e estratégia da associação e professora na escola de negócios da PUC-RS.

Luiz Eduardo Lima, de 57 anos, proprietário da Ritter Móveis, fabricante de móveis de alto padrão, conta que o negócio teve de suspender a operação por mais de um mês. Isso porque a fábrica, localizada no município de Cachoeirinha, região metropolitana de Porto Alegre, perdeu quase todos os materiais utilizados na produção dos móveis sob medida. Foram 18 dias de alagamento e 476 chapas de madeira levadas pelas chuvas. Além disso, todas as máquinas da empresa gaúcha ainda estão em fase de conserto.

“A gente nunca teve problemas com água, porque ficamos em um ponto alto. Mas com o decorrer dos dias, 88 centímetros de água entraram na minha fábrica. Isso afetou toda minha matéria-prima, todos os maquinários, porque as minhas máquinas são estacionárias, feitas para cortar chapas de MDF. São instrumentos grandes que não podiam ser erguidos tão brevemente. Nunca pensei que aquilo fosse acontecer. O estrago foi muito grande”, explica Lima.

A água chegou a cerca de 88 centímetros de altura na fábrica da Ritter Móveis — Foto: Arquivo pessoal/Luiz Eduardo Lima
A água chegou a cerca de 88 centímetros de altura na fábrica da Ritter Móveis — Foto: Arquivo pessoal/Luiz Eduardo Lima

O empreendedor estima prejuízo de aproximadamente R$ 500 mil, contando com as perdas de chapas de MDF e a recuperação da parte elétrica dos maquinários. Segundo o empreendedor, a expectativa de faturamento para o mês de maio era de mais de R$ 450 mil. Porém, na realidade, a única movimentação financeira registrada foi menos de R$ 50 mil.

Chapas de MDF destruídas pela água — Foto: Arquivo pessoal/Luiz Eduardo Lima
Chapas de MDF destruídas pela água — Foto: Arquivo pessoal/Luiz Eduardo Lima

Ainda no processo de recalcular a rota, Lima explica que a empresa está dando prioridade para produzir, novamente, mobiliários que já estavam semi-prontos e foram perdidos pela enchente. Aos poucos, com a casa mais estabilizada, o empreendedor conta que almeja captar novos projetos e clientes. “A perspectiva é fazer isso o quanto antes para que a gente possa retomar as vendas em breve. Ainda estamos retomando os processos [de fabricação]”, diz.

Apesar da retomada ser lenta, Lima já observa alguns avanços no cenário logístico local. A fábrica tem recebido novas matérias-primas com mais frequência, diferentemente dos primeiros dias de catástrofe. “Agora está voltando ao normal, mas ainda temos um pouco de dificuldade de acabamento em chapas de MDF específicas. Isso às vezes é mais complicado de encontrar e conseguir [com os fornecedores]. Antes eu conseguia os meus materiais entre um a dois dias, mas agora eu levo cerca de quatro”, pontua.

Em Garibaldi, cidade também conhecida por ser um dos grandes polos moveleiros do Brasil, encontra-se a GenialFlex Móveis, comandada por Basílio Vivan, de 43 anos. A empresa não foi diretamente afetada pelas chuvas, mas, já nos últimos dias de abril, teve a produção paralisada em função das dificuldades logísticas, com grande parte das rodovias bloqueadas e devastadas por enchentes e deslizamentos de terra. Com isso, registrou uma perda de 30% no faturamento esperado para a época.

No mês de maio, com a retomada da operação, a principal dificuldade foi justamente com a expedição de produtos. A empresa teve de criar rotas alternativas para evitar rodovias que ainda estavam bloqueadas, como a BR-470 e a RS-122. A solução para acessar a região metropolitana de Porto Alegre foi recorrer à “Rota das Colônias”, situada no interior do município de Caxias do Sul e a primeira a ser liberada aos veículos. “Antes disso, na primeira semana, estávamos simplesmente bloqueados”.

Embora a GenialFlex tenha segurado a fabricação e comercialização por cerca de 15 dias, agora o negócio aponta para um crescimento nas vendas. “Devido ao aumento na procura de móveis, fechamos maio com um acréscimo de 15% no faturamento. Mesmo enfrentando problemas com a logística nas duas primeiras semanas, conseguimos recuperar. Em junho, estamos com uma demanda acima da média, justamente pelo fato das pessoas estarem voltando para suas casas e tendo a necessidade de [repor] móveis”, relata Vivan.

O setor moveleiro do Rio Grande do Sul encerrou 2023 com um faturamento de R$ 11,9 bilhões, um aumento de 3,4% na comparação com 2022, segundo levantamento da MOVERGS. Além disso, também no ano passado, o segmento registrou mais de US$ 245 milhões em exportações. Segundo Schneider, assessora de mercado e estratégia da associação, a reestruturação do setor moveleiro gaúcho será árdua e prolongada.

“Os principais desafios [de retomada] estão na manutenção de equipamentos quase perdidos, recuperação de matéria-prima que teve contato com a água e, claro, a questão logística. A perda de estoques tem impactado diretamente na descapitalização dos negócios”, aponta Schneider. “Agora as rotas alternativas e as estradas estão mais normalizadas, mas ainda tem uma coisa ou outra que ainda será mais devagar, como o aeroporto, que só tem previsão de voltar em dezembro”.

A especialista ressalta a importância da disponibilidade de crédito para a retomada do setor. “[A recuperação] depende de muitas variáveis externas, pois a primeira dificuldade que aparece é o capital. Quem tem uma reserva consegue se reconstruir ‘devagarinho’, mas, para uma recuperação plena, é evidente a necessidade de capital de giro aos pequenos negócios e aquisição de novos equipamentos e matérias-primas”, reforça. “Essas linhas de crédito que estão vindo são extremamente importantes, mas ainda têm negócios que precisam, de fato, de recursos a fundo perdido.”

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