Empresa fundada por ex-caminhoneiro processa 400 toneladas de amendoim por mês e fatura R$ 153 milhões

Fonte: Redação

Cansado de percorrer estradas de todas as regiões do país transportando cargas como caminhoneiro, Saul Pedroso Guimarães tomou a decisão de empreender no ramo alimentício na década de 1980. Movido pelo desejo de fixar residência e estar mais próximo da família, ele identificou oportunidades no município gaúcho de Santo Antônio da Patrulha, a cerca de 50 km de Porto Alegre, que tem tradição no cultivo de cana-de-açúcar. Em abril de 1982, fundou nesse município a Guimarães Alimentos, que transformou a tradicional produção de rapadura e doces de amendoim em uma operação nacional de grande escala.

Atualmente a empresa processa 400 toneladas de amendoim por mês e produz mais de 1,2 milhão de unidades de paçocas por dia. Com faturamento de R$ 153 milhões em 2025, a empresa, que iniciou suas atividades com a fabricação de rapadura de melado, mira agora a expansão para os Estados Unidos e a Europa. Com cerca de 400 funcionários, a companhia projeta, para este ano, crescimento da receita acima de 30%. A meta é atingir R$ 200 milhões em faturamento, com a venda dos mais de 200 itens produzidos no complexo fabril de 10 mil metros quadrados.

Ao longo da trajetória da companhia, o já falecido irmão de Saul, João Carlos Guimarães, também integrou a sociedade, enquanto Ivone Teresinha Guimarães, esposa de Saul, desempenhou papel fundamental no suporte à construção do negócio familiar. Nos primeiros dez anos de operação, o portfólio expandiu com a linha de amendoim, introduzindo itens como pé de moleque, pé de moça e a paçoquinha, que, décadas depois, tornou-se o carro-chefe da marca.

Mariana Guimarães, filha do fundador e diretora de marketing, comunicação e inovação da empresa, conta que entrou por acaso na empresa. “Sou formada em direito e, inicialmente, não tinha pretensão de entrar. Enxergava meus irmãos mais velhos tocando a empresa e não via muito espaço. Só que meu pai sempre quis muito que todos estivessem presentes. No final da faculdade, acabei me envolvendo em projetos com viés social com a comunidade e fui me descobrindo na área criativa”, diz.

A transição geracional incluiu um período de capacitação prática em que os herdeiros do negócio, os irmãos Mariana, Rafael, Rodrigo e Matheus, passaram por diversas áreas operacionais da fábrica (logística, setor jurídico, financeiro e fiscal) antes de assumirem cargos na diretoria. Diretor comercial e de operações industriais, Rafael é responsável pela gestão das áreas fabris e pela estratégia de vendas. À frente da diretoria financeira, contábil e fiscal, Rodrigo responde pelo controle orçamentário e pela conformidade tributária da companhia. Na área administrativa, Matheus, que é integrante mais novo da segunda geração, é o executivo que atua na estruturação de processos operacionais. Atualmente mais afastado da rotina operacional, o fundador da empresa atua como conselheiro e apoia os quatro filhos nas decisões estratégicas e em novas iniciativas para a marca.

Média é Mais:

Pé de moça conquistou executivos de multinacional

Um dos marcos recentes na aceleração dos negócios ocorreu em 2024, quando a Guimarães firmou uma parceria colaborativa com a Nestlé para a criação de um produto, movimento conhecido como co-branding (colab). A aproximação foi iniciativa da diretoria de marketing durante a edição de 2024 da feira de negócios APAS, em São Paulo.

Nesse evento, que é um dos maiores do setor de alimentos e bebidas, a executiva apresentou o tradicional Pé de Moça da Guimarães aos executivos da multinacional suíça. A ideia era fazer um projeto unindo o doce da empresa gaúcha e o leite condensado da Nestlé.

“Ninguém acreditava nessa colab, falavam: ‘Uma multinacional, maior empresa de alimentação do mundo, como é que eles vão dar bola pra gente?’. Mas eu fui cara de pau. Foi meu otimismo tóxico que me fez chegar lá”, diz a executiva.

Dez dias depois do encontro na APAS, representantes da Nestlé foram a Santo Antônio da Patrulha para conhecer a operação da fábrica gaúcha. Marina ressalta que, embora parecesse simples no início, o projeto desacelerou porque a Nestlé precisou reavaliar os impactos da entrada dos produtos no varejo e checar se haveria concorrência com suas próprias linhas. Cerca de um ano após a aproximação, as empresas lançaram o Creme de Amendoim com Negresco.

O projeto original, com o Pé de Moça e o Leite Moça, ficou temporariamente parado durante esse processo de avaliação. Mas, após o lançamento, no ano passado, tornou-se o item mais vendido entre os projetos da colaboração, com crescimento contínuo mensal de 50% nas vendas.

Hoje, a linha da Guimarães com a Nestlé conta com 12 itens do portfólio, incluindo paçocas saborizadas com Neston, Nesquik e Negresco. Desde o início da parceria, a Guimarães registrou um crescimento de 80% na receita global da empresa. Os produtos específicos da colab com a multinacional representam, atualmente, 10% do faturamento total da marca, afirma a executiva.

“Quando a gente traz o Pé de Moça feito com Moça, que é um produto muito querido e muito brasileiro, a gente teve certeza dessa validação da Nestlé. É esse caminho aqui mesmo, a gente precisa reforçar isso. Conseguimos trazer junto da Nestlé valor e percepção de qualidade, mantendo a essência de uma empresa que tem 45 anos”, aponta Mariana.

Expansão para mercados dos EUA e Europa

O caminho para a expansão internacional da Guimarães começou no final de 2025. Desde então, a empresa embarcou cerca de 10 contêineres para o mercado externo, concentrando esforços nos mercados dos Estados Unidos e da Europa.

A aposta é maior no mercado norte-americano, onde a pasta de amendoim, matéria-prima das paçoquinhas, é amplamente difundida no cotidiano. A estratégia nesse mercado está baseada no chamado “mercado da saudade”, voltado a consumidores brasileiros residentes no exterior. O planejamento prevê a inserção gradual no varejo norte-americano, por meio de grandes redes, diz Mariana.

Como parte do trabalho de comunicação e adequação cultural, a empresa realizou uma ativação em março deste ano durante o festival South by Southwest (SXSW). No evento focado em inovação, que acontece anualmente em Austin, Texas (EUA), o marketing da Guimarães promoveu uma adaptação da pronúncia de “paçoquinha” para contornar a dificuldade do público estrangeiro com a palavra devido ao cedilha. A embalagem e a sinalização utilizaram transcrição fonética em formato de dicionário.

“O americano hoje não consegue pronunciar paçoquinha. Trouxemos uma escrita de dicionário da pronúncia de como sai o som para gerar conexão. Eles ficavam super impressionados quando a gente explicava que o produto tinha três ingredientes: amendoim, sal e açúcar. Além de entregar proteína, tem rótulo limpo e é de fácil consumo como snack”, ressalta Mariana.

A marca também vem reformulando seu portfólio para posicionar a paçoca, a rapadura e as pastas de amendoim como suplementos energéticos naturais e lanches de alto valor proteico voltados a praticantes de esportes e corridas de rua. “Por muito tempo a gente olhou para o portfólio como se fosse tudo commodity, sem diferenciar. Hoje, a gente percebe que a nossa maior fortaleza são os produtos brasileiros. Precisamos abraçar isso”, afirma a executiva.

Responsabilidade social

A empresa criou em 2020, durante a pandemia de Covid 19, o projeto socioambiental Raspinha Solidária, desenvolvido em Santo Antônio da Patrulha. Mariana não esconde que a iniciativa foi importante para sua trajetória profissional e um dos motivos pelos quais ela ingressou na operação da família. A iniciativa, que nasceu sob o formato de drive-thru para a venda da “raspinha” (versão quentinha e tradicional da rapadura recém-saída do tacho), destina recursos arrecadados a entidades sociais da região.

Nas primeiras edições, a receita obtida beneficiou a APAE (rede de defesa e garantia de direitos das pessoas com deficiência intelectual e deficiência múltipla) local e o Lar Oscar Vargas. A partir de 2022, a iniciativa foi estruturada como um evento esportivo anual, Corrida e Caminhada da Raspinha Solidária. O valor arrecadado pela corrida é revertido para a revitalização de infraestrutura de escolas públicas de educação infantil em Santo Antônio da Patrulha, em parceria com uma ONG local.

Até o momento, o programa promoveu a reforma completa, em mutirões de um dia de duração, das instituições Escola Municipal de Educação Infantil (EMEI) Fátia do Sol (2022), Fundação Educacional Agrícola de Santo Antônio da Patrulha (2023) e EMEI Costinha (2025).

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