Raphael Brandão nasceu e cresceu em Araruama, no interior do Rio de Janeiro, mas foi na Baixada Fluminense, já adulto, que descobriu sua paixão pelo café. O empreendedor de 31 anos mora desde 2011 em Nova Iguaçu, onde trabalhou diretamente com os grãos em uma fábrica e aprendeu, com a rotina, os processos de torra, moagem e empacotamento do produto. No entanto, ele se sentia incomodado ao perceber uma baixa representatividade negra entre as pessoas que eram donas desse tipo de negócio, e percebeu que poderia intervir.
Em 2020, ele idealizou a marca Café di Preto e começou a produzir cafés especiais na mesma empresa onde trabalhava, nos horários de folga, e a vendê-los na Shopee. Entretanto, a parceria inicial com a fábrica foi rompida e as operações foram suspensas temporariamente. Em 2021, a produção foi retomada por meio de financiamento coletivo e rifas. Dos R$ 112 mil que precisava, Brandão conseguiu arrecadar R$ 45 mil – mas não desistiu do negócio.
Com poucos recursos para investir em maquinário e estrutura física, o empreendimento foi pausado novamente e voltou a funcionar somente em 2022. Brandão comprou equipamentos mais básicos e baratos, instalou a produção em um dos cômodos da própria casa e deu continuidade ao propósito de tornar sua marca 100% protagonizada por pessoas negras. O objetivo de Brandão era trazer representatividade a partir dos fornecedores dos grãos. A busca, entretanto, não foi fácil.
“O mercado de café é muito branco e elitizado”, conta Brandão. “E minha preocupação surgiu ao procurar no Google pessoas negras e café e só achar coisas que remetem à escravidão”.
Negócios de alimentação:
Foi só por meio de uma reportagem de televisão que empreendedor teve a oportunidade de conhecer o trabalho de famílias de produtores negros e conseguiu estabelecer as primeiras parcerias. Hoje, ele conta com fornecedores fixos de Minas Gerais e do Espírito Santo.
Com a consolidação do negócio, ele instalou a fábrica em um espaço próprio e chega a produzir 60 quilos de café por mês. Para conservar os sabores e o frescor dos produtos, a produção é feita sob demanda, com pedidos recebidos via e-commerce e distribuídos por todo o Brasil. Os cafés são vendidos em embalagens de 100 gramas, 250 gramas e 1 quilo, com valores que variam de R$ 15 a R$ 162. Em média, ele recebe entre 100 e 110 pedidos por mês.
Representatividade

O Café di Preto tem quatro tipos de produtos disponíveis. Cada um deles leva o nome de uma mulher negra, com o intuito de homenagear ícones históricos, como Dandara (heroína do Quilombo dos Palmares), e produtoras de café que fornecem para a empresa, como Edilaine. “Faz parte da visibilidade que eu quero dar para essas famílias”, explica Brandão.
Por enquanto, a empresa ainda está enquadrada como MEI, mas Brandão, que é estudante de Engenharia de Produção, projeta uma mudança de porte para 2024, com a ampliação de fornecedores para 20 famílias negras. A ideia é que a expansão caminhe com os objetivos iniciais de fazer da marca um diferencial em diversidade no mercado.
“Eu acredito muito em uma mudança da sociedade através de uma construção coletiva. Historicamente, os avanços que a população negra teve nunca foi com uma pessoa sozinha lutando por ela. Então, estou sempre abraçando os meus e querendo que eles prosperem junto comigo”, afirma o empreendedor.





