A primeira semente de uma ideia de negócio que tinha como objetivo inovar nos métodos de cultivo de hortaliças surgiu quando o filho mais velho do empreendedor Diego Gomes, 40 anos, deu início à introdução alimentar, em 2014. Em busca de alimentos orgânicos para a criança, Gomes viu um mercado com opções limitadas e notou uma oportunidade de negócio. Cinco anos após o primeiro insight, ele fundou a 100% Livre, startup de fazendas verticais e tecnologia de cultivo indoor que já vai além da produção de alimentos.
“Antes do meu filho, eu nunca tinha buscado por comidas orgânicas. Quando vi que não era uma experiência fácil, fiquei com isso na cabeça enquanto consumidor. Em 2018, vi uma matéria falando sobre o conceito de produção em ambiente controlado no Japão e comecei a pesquisar de verdade”, diz Gomes.
Com uma carreira no mercado financeiro e pouco conhecimento sobre agronomia, o empreendedor estruturou uma equipe para criar a própria solução para cultivo indoor, incluindo especialistas em tecnologia aplicada à agronomia. Para acelerar o desenvolvimento do negócio, em 2019, Gomes buscou a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) e firmou uma parceria para pesquisas.
Para dar início ao projeto, o fundador investiu cerca de R$ 1 milhão, de capital próprio. De acordo com ele, foram dois anos do desenvolvimento da tecnologia patenteada até o lançamento dos produtos.
Como resultado, a empresa criou uma solução de cultivo hidropônico (sem terra), sustentável e livre de químicos. Na prática, as hortaliças são cultivadas com as raízes das plantas em contato direto com água enriquecida com nutrientes. A temperatura e a umidade também são controladas de acordo com a necessidade da espécie.
Em formato vertical, o plantio é feito em prateleiras empilhadas e suspensas, com o objetivo de maximizar a produção, que é 100% rastreável. De acordo com a startup, o método usa 90% menos água na comparação com a agricultura tradicional.
Do B2C ao B2B
Ao logo do processo de desenvolvimento da tecnologia, Gomes notou que poderia ir além da produção de alimentos de uma marca própria e traçou quatro frentes para o negócio: vendas diretas para o consumidor por meio do e-commerce (sob a etiqueta 100% Livre); vendas da marca própria para varejistas; vendas da marca própria para players do food service; e comercialização de projetos pensados de acordo com a demanda de cada empresa a partir da tecnologia proprietária.
Atualmente, para a produção dos produtos 100% Livre, que incluem folhas, cogumelos e temperos, a empresa conta com duas fazendas verticais nas cidades de São Paulo (SP), em uma unidade com 14 metros de pé direito, e Osasco (SP), com 21 metros de pé direito. Juntas, elas produzem cerca de 14 toneladas de produtos alimentícios por mês. Atualmente, cerca de 85% das vendas vêm das varejistas.
Na frente de parcerias com indústrias, a empresa firmou neste ano um acordo com o Grupo Boticário, que deu origem a uma terceira fazenda. Inaugurado em outubro, o espaço chamado de Jardim Floratta está localizado dentro de uma área dedicada a pesquisa e inovação dentro da fábrica do Grupo Boticário em São José dos Pinhais (PR). O jardim é dedicado ao cultivo de rosas e gardênias, flores usadas na fabricação das fragrâncias da linha Floratta, de O Boticário.

“O ambiente controlado da sala de cultivo, que abriga espécies de rosas e gardênias sob condições ideais de temperatura, luminosidade e umidade, garantem o desenvolvimento perfeito das flores e possibilitando o estudo detalhado de seus aromas”, diz Gustavo Dieamant, Diretor Executivo de Pesquisa & Desenvolvimento do Grupo Boticário.
De acordo com Dieamant, com o uso do nariz digital, ferramenta que analisa moléculas com precisão, o processo permite obter composições mais puras, intensas e fiéis ao natural, além de reduzir significativamente o impacto ambiental. Como resultado, ele afirma que a marca obtém uma fragrância de maior desempenho, potência e fidelidade olfativa.
Segundo Gomes, a expectativa da startup é que o projeto inspire outras aplicações nas indústrias farmacêutica, de cosméticos e de nutrição. “Queremos mostrar que nossa tecnologia é muito viável e carrega um valor agregado, já que a gente entrega mais ciclos produtivos ao longo do ano e conseguimos até aumentar o potencial de uma planta, como no caso de extração de óleo, em que é possível extrair uma maior quantidade, o que também melhora a produtividade”, afirma o empreendedor.
Atualmente, a empresa fatura anualmente cerca de R$ 10 milhões.







