Ela criou um ecossistema de negócios e tecnologia para conectar talentos da periferia ao mercado internacional

Fonte: Redação

Quando Marcelle Chagas, 41, entrou pela primeira vez nos grandes espaços de comunicação corporativa, o que viu não foram apenas oportunidades, mas um vácuo. “Era muito violento sentir, todos os dias, como a desigualdade estava naturalizada ali”, relembra. Para a jornalista, mulher negra e de origem periférica, o ambiente excludente foi o gatilho. “Esse incômodo virou ação. Eu entendi que não bastava denunciar — eu precisava criar caminhos reais.”

Dessa inquietação nasceu uma trajetória empreendedora que não seguiu a cartilha tradicional das startups de garagem, mas a urgência da sobrevivência e da inclusão. Chagas construiu uma carreira que a levou de comunidades no Rio de Janeiro a posições de prestígio global como pesquisadora da Mozilla Foundation e integrante do Columbia Leadership Network (vinculado à Columbia University).

Agora, ela dá seu passo mais ambicioso: o lançamento do ComuniHub. Anunciada oficialmente em 30 de outubro, durante a apresentação de projetos da rede da Columbia, a plataforma é o primeiro hub brasileiro de inovação em comunicação desenhado para conectar talentos locais a oportunidades globais.

“O ComuniHub nasce para usar a tecnologia como ferramenta de transformação. Queremos que comunicadores de favelas, quilombos e territórios indígenas tenham voz, recursos e visibilidade global”, afirma Chagas.

O ComuniHub opera com uma lógica de plataforma digital bilíngue e sistema de colaboração. A estrutura assemelha-se à do LinkedIn, permitindo que usuários cadastrem perfis e portfólios, mas com um diferencial estratégico: o foco em territórios historicamente marginalizados e a conexão transnacional.

Como funciona na prática:

  • Conexão: o hub conecta talentos locais a organizações globais e vagas de trabalho.
  • Recursos: oferece um Banco de Fontes bilíngue e cadastro de organizações.
  • Capacitação: disponibiliza formações, mentorias e bolsas Premium.
  • Soberania: diferente das Big Techs, a plataforma busca a soberania digital, armazenando e gerindo dados com a ótica do Sul Global.

Até 2026, o plano de negócios prevê conectar mais de 1.000 comunicadores em 10 países, financiar mais de 500 bolsas Premium e produzir relatórios multilíngues sobre integridade informacional. A iniciativa já nasce robusta, integrada ao Caucus Panafricano de Jornalistas, o que lhe garante capilaridade em 55 países, incluindo nações da África e da diáspora (EUA, Caribe, Europa).

“Atualmente, a plataforma está aberta para inscrições gratuitas. Futuramente, avaliamos modelos onde os inscritos possam ajudar a manter os programas”, explica a fundadora. O modelo de sustentabilidade é híbrido, baseando-se em parcerias estratégicas, editais (grants) e serviços de impacto.

A virada de chave de Chagas — de jornalista para empreendedora — aconteceu quando ela percebeu que redes comunitárias muitas vezes se perdiam pela falta de método e continuidade.

“Percebi que precisava estruturar, amadurecer e fortalecer a base”, diz. Sua primeira experiência empreendedora, ainda informal, foi a criação da Rede de Jornalistas Pretos (Rede JP). O que começou como um grupo intuitivo em um aplicativo de mensagens para troca de apoio, explodiu em demanda após a realização de três conferências internacionais.

“Começamos a ser cobradas como organização grande — mas ainda éramos uma comunidade orgânica”, conta. Sem referências institucionais no Brasil para gerir uma rede desse porte, ela teve que aprender gestão “na marra”: governança, comunicação institucional e negociação internacional.

O ComuniHub não é uma iniciativa isolada, mas o “guarda-chuva” de um ecossistema de negócios de impacto que Chagas desenvolveu ao longo dos anos:

1. Rede JP

A Rede JP serviu como a prova de conceito. Hoje, a organização já capacitou mais de 500 comunicadores e estabeleceu parcerias com gigantes como a Unesco. O aprendizado, diz ela, foi sobre logística e comunidade: gerir pessoas em diversos fusos horários e culturas diferentes, mantendo o propósito. “Aprendi que mulheres negras podem ser líderes e inovadoras, mesmo que o mundo não espere isso de nós”, diz Chagas.

2. Repcone

O Repcone (Rede de Proteção Digital para Comunicadoras Negras) surgiu de uma análise de mercado somada a uma urgência pessoal. Após ver casos graves de violência digital — como o apedrejamento virtual da jornalista afro-peruana Sofía Carrillo e ataques a membros da própria rede —, Chagas identificou um nicho não atendido: a cibersegurança com recorte de gênero e raça.

A Solução: Um programa que une proteção técnica (segurança de dados) com suporte jurídico (parceria com a Associação Nacional dos Advogados Negros) e psicossocial.

Resultados: Com apoio do Fundo ELAS+, o projeto treinou 50 mulheres e financiou três bolsistas (na Argentina, Maranhão e Minas Gerais) para replicar a metodologia localmente. O produto final é o Guia Latino-americano de Proteção Digital, lançado na UnB.

3. GriôTech

O braço de pesquisa e tecnologia é o GriôTech, criado em parceria com o Instituto Peregum. O projeto tem o objetivo de atacar a desinformação em territórios quilombolas e indígenas.

Diferencial Competitivo: Em vez de usar softwares de raspagem de dados da internet, Chagas desenvolveu uma metodologia de coleta de dados local, feita por lideranças comunitárias.

Reconhecimento: A metodologia foi selecionada pelo Governo Federal (Celeiro de Inovações) e pela Unesco como prática estratégica. “Territórios tradicionais exigem outra lógica. O GriôTech vai compor o relatório internacional ‘Territórios Digitais’ em 2026, analisando como essas populações percebem a inteligência artificial”, detalha.

Para manter essa estrutura de pé, Chagas aposta em um modelo financeiro diversificado. “Eu prefiro editais e grants onde posso disputar em pé de igualdade”, afirma, embora esteja aberta a investimentos privados que tenham alinhamento ético absoluto.

A gestão financeira é um desafio constante. “Sabemos da dificuldade que é o apoio financeiro para negócios liderados pela população negra. É mais um desafio, mas nada diferente do que já estamos acostumados”, pondera. O segredo tem sido transformar projetos em produtos: cursos, guias, relatórios e, agora, a plataforma SaaS (Software as a Service) do ComuniHub.

A ambição de Chagas a levou, recentemente, a Barcelona, na Espanha, para o MozFest, um dos maiores festivais de inovação do mundo. Lá, ela participou de mesas ao lado de lideranças da Índia, Quênia e EUA, apresentando o Brasil não como consumidor, mas como produtor de tecnologia soberana.

“Quem constrói algo a partir da inovação precisa ser minimamente ambicioso. Hoje entendo que ambição não é defeito, é uma ferramenta de sobrevivência”, decreta.

A empreendedora não esconde o desejo de consolidar suas iniciativas. “No futuro, vejo o crescimento como uma holding que tenha coerência ética. O ComuniHub será o eixo que integra tudo isso”, projeta.

“Quero que o mercado deixe de ser centralizado e colonizado. Se eu parar, muitas portas deixam de existir para quem vem depois. Tenho um compromisso com as próximas gerações.”

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