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Da África para o Brasil: empreendedora prospera com venda de tecidos tradicionais

Fonte: Redação

Toalá Antonia Joaquim Marques, 33 anos, nasceu e cresceu em Itaquera, na zona leste de São Paulo. Filha de pai angolano e mãe brasileira, é ela quem comanda a bem-sucedida Casa das Kapulanas, uma loja especializada em tecidos africanos. Além de ser sua fonte de renda, o negócio tem outro propósito para a empreendedora: aproximar pessoas pretas de suas histórias.

Foi numa viagem a Angola para visitar a família, em 2016, que Toalá Antonia descobriu as kapulanas e teve a ideia de unir sua paixão pela cultura africana e a vontade de empreender. Atualmente, ela fatura mais de R$ 1 milhão ao ano com o empreendimento.

Kapulana é o nome dado aos tecidos estampados, com padrões geométricos, formas variadas e cores vibrantes, que simbolizam o continente do outro lado do Atlântico. As kapulanas são tradicionais e, mais do que servirem de base para vestimentas e acessórios, são consideradas presentes especiais em datas simbólicas.

O primeiro negócio

Oito anos atrás, com uma sócia, Toalá abriu a Alogna, sua primeira investida. Sempre que visitava os parentes angolanos, ela trazia os tecidos e, aqui, fabricava turbantes e brincos, peças que eram enviadas e comercializadas em Angola.

“Depois de mais ou menos um ano, a gente quebrou, porque se endividou muito. Eram contas altíssimas de cartão de crédito. Havia uma dificuldade muito grande de mandar o dinheiro de lá para cá. Minha parceira se casou e se mudou para outro país e eu não podia me mudar para a África porque estava no início da faculdade. Acho que eu não tinha maturidade para criar um negócio e trabalhar a distância”, revela a empreendedora, que tinha 24 anos na época.

Seguindo o conselho de uma amiga, resolveu fazer o caminho inverso e comercializar os tecidos no Brasil. “Eu nem imaginava se havia mercado para isso por aqui”, admite. Foi quando nasceu a Casa das Kapulanas.

Passou a oferecer alguns tecidos que haviam sobrado do estoque da Alogna em grupos de afroempreendedorismo no Facebook e foi ali que conquistou os primeiros clientes. “Comecei de forma bem amadora mesmo: ia para Angola, comprava 30, 50 peças de tecido e trazia na mala”, relata. A paulistana já não viaja o tempo todo a fim de comprar mercadoria. Atualmente, escolhe os itens diretamente dos fornecedores — também de Moçambique, Senegal e Nigéria —, que enviam para o Brasil.

Aos 33 anos, Toalá é mãe solo de Antônio, 5, que cria com a ajuda dos pais. Designer por formação, quando o filho nasceu, optou por voltar ao mercado corporativo pela necessidade de segurança financeira. Há cerca de quatro anos, entretanto, decidiu focar apenas no seu empreendimento.

Mulheres empreendedoras:

“Boom” com máscara

No começo, as vendas aconteciam via Facebook e em feiras de arte e artesanato de que a empreendedora participava. Ela mantinha uma loja, mas entre 2016 (ano em que lançou a página) e 2020 registrou menos de 20 pedidos — reflexo de não ter adotado estratégias para alavancar o negócio e alcançar mais compradores.

Na pandemia, precisou se reinventar, pois os eventos presenciais deixaram de acontecer. A mãe sugeriu que produzisse máscaras de proteção com os tecidos. Foi a chave para a guinada no negócio. Em um ano, registrou 1.400 pedidos — com as máscaras, as pessoas conheciam os tecidos e os compravam junto.

A demanda começou a aumentar e, por ter dupla cidadania, ela aproveitava a facilidade para viajar a Angola a cada 15 dias. Na época, atuava como designer em uma consultoria de treinamento e fazia um bate e volta em fins de semana — na sexta-feira, ia direto do trabalho para o aeroporto, fazia as compras em Luanda, a capital angolana, no sábado e retornava no domingo à noite para trabalhar na segunda-feira pela manhã.

Negócios na infância

A veia empreendedora vem de família, tanto do lado angolano como do brasileiro. O avô materno tinha uma oficina, a avó fazia pães e sonhos para o tio vender de porta em porta. A mãe seguiu a mesma linha, preparando bolos e coxinhas para comercializar na vizinhança.

A avó paterna mantinha uma barraca na feira dos congoleses, em Angola, onde vendia de tudo. “Sempre tive essa referência na família, de ver meus pais fazendo de tudo para fazer acontecer, sendo os próprios chefes”, comenta.

Tanto que o primeiro empreendimento que Toalá teve foi por volta dos 9 anos, quando quis vender doces no prédio — não deu muito certo, pois comia boa parte dos produtos. “Sempre gostei dessa dinâmica de ‘eu te dou um produto e você me dá um dinheiro e esse dinheiro se multiplica. Quando criança, achava isso fantástico”, comenta.

Depois da experiência em sociedade, começou a Casa das Kapulanas sozinha. Quando o negócio deu mostra de que iria crescer, com a venda de máscaras, trocou o espaço que se tornou limitado no apartamento por uma garagem no prédio em que morava. Precisou até de uma colaboradora.

A primeira funcionária, realmente contratada, com carteira assinada, só veio no ano passado, depois de a loja física ser inaugurada, em 2022. Agora, tem quatro ajudantes. À frente do negócio, assume várias funções, principalmente cuidar das estratégias de marketing, vendas, produção de conteúdo, captação de imagem, gestão de equipe e finanças.

Casa das Kapulanas, da empreendedora Toalá Antonia, faturou R$ 1,2 milhão em 2023 — Foto: Divulgação
Casa das Kapulanas, da empreendedora Toalá Antonia, faturou R$ 1,2 milhão em 2023 — Foto: Divulgação

Indo além dos tecidos, tem buscado diversificar o portfólio e já disponibiliza meias e guarda-chuvas, feitos a partir de estampas digitalizadas, em empresas terceirizadas. Neste ano, espera lançar mais dois produtos diferentes, não divulgados, por enquanto.

Quebra com chargeback

O investimento para abrir o negócio foi baixo, segundo a empreendedora, uma vez que “herdou” alguns tecidos da primeira loja — que hoje valeriam algo em torno de R$ 1,5 mil. “Como comecei com recurso da outra empresa, não tive um aporte financeiro, não coloquei dinheiro para comprar as primeiras coisas e tudo mais”, relata.

Em 2016, no primeiro ano de atividades, sofreu com um chargeback indevido de quase R$ 10 mil. O cliente comprou, alegou não ter recebido e cancelou o pagamento junto à operadora de cartão de crédito. Toalá ficou sem mercadoria e sem dinheiro e precisou emprestar dos pais para reorganizar a empresa.

“Foi um dos maiores aprendizados que tive, porque eu não tinha a menor ideia de que isso existia. Fui atrás, me informei sobre o que era que tinha acontecido e só depois entendi que toda vez que eu contratar um gateway de pagamento, tenho de contratar um seguro de charging back, como as grandes empresas fazem”, compartilha.

Depois disso, já passou por situações similares, mas não teve problemas financeiros grandes. “Isso é algo que não se fala muito sobre vendas online e é importantíssimo, porque é muito difícil. Na época, eu quebrei por conta disso e tive que contar com a ajuda dos meus pais para adquirir um novo estoque”, pontua.

Negócios de moda:

Presença em desfiles e na TV

O crescimento da Casa das Kapulanas começou a trazer exposição. Nos últimos anos, participou do São Paulo Fashion Week, numa parceria com a marca Meninos Reis, fornecendo tecidos e meias.

Em junho passado, esteve no programa Domingão do Huck. Sua história empreendedora foi destaque no quadro Bomba Minha Arroba e ela saiu de lá com vários prêmios — tanto equipamentos como tecidos para que o negócio progredisse.

Até hoje, conta a empreendedora, a participação repercute. “A marca ganhou proporção enorme, visibilidade nacional. Todo dia chega alguém falando que conheceu meu negócio no programa e quer saber mais sobre a marca, mesmo depois de oito meses. Sempre brinco que a gente estava subindo a escada. Com o programa, pegamos um elevador e só continuamos subindo”, diz.

Além dos ganhos para a empresa, a visibilidade trouxe a Toalá a chance de fechar trabalhos como influenciadora: “Criei mais uma vertente de negócio. Foi muito bom. Se eu pudesse, iria de novo”.

Loja física e crescimento

Em 2022, veio a loja física, ainda em Itaquera. Hoje, a Casa das Kapulanas vende tanto para pessoa física quanto jurídica. “Atendo a população preta e pessoas interessadas em produzir roupas religiosas, assim como clientes que adquirem os tecidos para empreender, criando peças e trabalhando a questão do fortalecimento da cultura africana”, explica. O ticket médio gira entre R$ 180 e R$ 200.

Para os próximos meses, quer estruturar a equipe, distribuindo melhor as funções, já que o grupo é pequeno. Mas planeja ampliar o quadro, considerando a meta de dobrar o faturamento do ano passado, que foi de R$ 1,2 milhão.

Também quero produzir mais conteúdo educacional, pois tem a preocupação de ensinar o cliente a vender. “Quero que ele passe a ter resultados como a Casa Kapulana tem, pois não faz sentido ele comprar comigo e demorar seis meses para vender o seu produto. Se acabar não vendendo, muitas vezes não tem a recompra e não faz sentido para o meu negócio”, argumenta.

Outro objetivo é apresentar mais a história, o conceito, o simbolismo dos tecidos africanos, dentro de suas redes sociais.

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