Você já deve ter visto um vídeo de Everton Miranda. O empreendedor e criador de conteúdo de 34 anos alcança números altos nas redes sociais com conteúdos em que aparece rotulando basicamente qualquer coisa como “rica” ou “não. De marcas de água e salgadinhos a carros e raças de cachorro, Miranda seleciona tudo categoricamente. “Sempre estive muito atento ao comportamento social e sempre soube que a ‘riqueza’ é um fator extremamente relevante para as pessoas. Utilizei essa percepção para criar um formato que tivesse um grande potencial de aderência e também tivesse um grande poder de escala e engajamento”, diz.
Em um ano, ele soma mais de 1 bilhão de visualizações nas redes sociais. São 100 milhões de views mensais, com 950 mil seguidores no TikTok e 59 mil no Instagram. Em outubro de 2025, impulsionado pelos resultados digitais, ele fundou a Eletuz Educação, escola de empreendedorismo e negócios, com modelo baseado em educação, mentorias e conteúdo digital. Em quatro meses, a empresa já atendeu mais de 1,5 mil alunos e tem nas redes sociais seu principal canal de aquisição.
Essa trajetória de sucesso começou no interior da Bahia. Miranda nasceu em Seabra, na região da Chapada Diamantina. Cresceu em uma família de renda baixa e estudou toda a vida em escola pública. “Nasci de parteira, não tinha maternidade na cidade”, afirmou.
Ainda jovem, começou a trabalhar para ajudar em casa. Antes de completar 20 anos, passou pela roça com o padrasto e, depois, por um pequeno açougue da cidade. “Trabalhava de segunda a sábado, das sete da manhã às sete da noite. Ganhava R$ 250 por mês.”
A renda limitada e a falta de oportunidades no município levaram à decisão de migrar. Em 2008, juntou parte do salário, comprou uma passagem de R$ 350 para São Paulo e chegou à capital com R$ 40 no bolso. “Minha mãe estava desempregada. Eu vim morar de favor na casa de uma tia, dormia no chão da cozinha.”
O primeiro emprego na cidade foi em uma floricultura na zona sul. Trabalhava de domingo a domingo e ganhava R$ 650 por mês. Foi nesse período que passou a considerar o estudo como caminho de ascensão profissional.
Formação e carreira no mundo corporativo
Sem histórico familiar de ensino superior, Miranda se matriculou em Publicidade e Propaganda, em 2009. Durante a graduação, conseguiu um estágio na área de marketing em um grande conglomerado bancário. “Foi quando saí do comércio e entrei no mundo corporativo.”
A partir daí, construiu uma carreira contínua em marketing e vendas. Atuou como estagiário, assistente, analista, gerente e chegou à posição de head de marketing e vendas em empresas de tecnologia, sempre no segmento B2B. “Construí uma carreira sólida liderando times de alta performance.”
Ele conta que sempre buscou ler clássicos da literatura e se aprofundar em referências teóricas. Segundo Miranda, o movimento influenciou de forma essencial sua forma de pensar comunicação e estratégia.
O início dos vídeos e a constância
Os primeiros vídeos na internet foram publicados em 2015. O objetivo, diz, já estava definido desde o início. “Compartilhar conhecimento e inspiração.” O conteúdo começou no YouTube, gravado com celular e microfone simples. Desde então, não houve interrupção. “Até agora, não teve uma única semana que eu não publiquei um vídeo.” Hoje, o acervo ultrapassa 2 mil vídeos publicados.
“O nosso objetivo desde o primeiro vídeo é ser o maior e o melhor canal de empreendedorismo do mundo. E isso não se resume à abertura de empresas. É a capacidade de transformar sonhos em realidade.”
A partir de 2024, o crescimento acelerou. Em um ano, os canais somaram mais de 1 bilhão de visualizações. O TikTok passou de zero a 950 mil seguidores em 12 meses. O crescimento não é atribuído à intuição. “Nada é intuitivo. A gente tem indicadores de desempenho, metas, plano estratégico e de comunicação.”
Miranda compara o algoritmo a um oceano. “Quando a maré sobe, todos os barcos sobem.” Segundo ele, conteúdos virais aumentam a distribuição dos demais vídeos do perfil.
Os vídeos no formato “rico ou não” começaram em junho de 2025, mas o formato começou pouco mais de um ano antes. “Todos os dias publicamos dois vídeos. Um de topo de funil, para gerar volume, e outro para aprofundar.” De acordo com ele, riqueza, status social e comparativos são usados para atrair audiência, mas com a intenção de direcionar para conteúdos mais densos. “Mesmo no conteúdo viral, a gente tenta agregar valor.”
Nos comentários dos vídeos, a recepção do público aparece de forma direta. “Adoro esses vídeos, pois mostram a realidade dos pobres que se acham ricos”, escreveu uma seguidora. Outra relatou o efeito inverso: “Foi a primeira vez, assistindo aos seus vídeos, que me senti riquíssima”.
Há também reações bem-humoradas: “Até que enfim, ‘sou rica, muito, muito rica’. Puxa, meu dia chegou!!”. Entre elogios, um usuário resumiu a percepção de parte da audiência: “Isso é um verdadeiro influencer, agrega na vida do povo brasileiro. Obrigado pelos conteúdos”. Em outro comentário, um seguidor disse que os vídeos provocam reflexão: “Quando ele cita uma lista de pessoas que eu nunca tinha ouvido falar, me acho pobre — mas muito, muito pobre de conhecimento”.
Da audiência ao negócio: nasce a Eletuz
Em outubro de 2025, Miranda fundou a Eletuz Educação, uma escola voltada a empreendedorismo, comunicação e desenvolvimento profissional. A proposta surgiu de uma leitura de mercado. “Enquanto todo mundo vai para superficialidade e inteligência artificial, a gente entendeu que esse público quer profundidade.”
A empresa oferece cursos, mentorias, treinamentos corporativos e palestras. Há programas de seis meses a um ano, com foco em comunicação, retórica, marketing, vendas e desenvolvimento pessoal.
A aquisição de alunos ocorre majoritariamente pelas redes sociais. “As pessoas assistem aos conteúdos, entendem o negócio e entram pela nossa esteira via landing page.” Em poucos meses, mais de 1,5 mil pessoas passaram pela escola.
Os produtos variam bastante de preço, de acordo com formato, duração e nível de acompanhamento. O produto de entrada, no valor de R$ 197, é um curso gravado voltado a fundamentos de comunicação, mentalidade e organização profissional. Já os programas mais caros, que chegam a R$ 60 mil, incluem mentorias de longa duração, com acompanhamento direto de Miranda, encontros ao vivo, análise individual de projetos e acesso a conteúdos avançados sobre estratégia, comunicação e posicionamento.
A taxa de conversão gira entre 3% e 5%, principalmente no Instagram, considerado o público mais qualificado.
A equipe é dividida em produção de conteúdo, marketing digital, vendas, atendimento e operação. “A gente mantém uma estrutura simples, eficiente e focada em resultado.”
Rotina, publicidade e rendas
A produção de conteúdo é planejada para garantir escala. Miranda grava entre 25 e 30 vídeos em um único dia e mantém um estoque de cerca de 160 vídeos prontos. “Isso garante consistência mesmo se eu ficar doente ou precisar viajar.”
A rotina inclui acompanhamento diário de métricas, reuniões com o time e planejamento de pautas.
A publicidade existe, mas tem peso reduzido no faturamento. “Gira em torno de 1% a 2%.”
Há contratos pontuais e parcerias recorrentes, mas o foco segue nos produtos próprios. “Não é escalável para nós. O retorno dos produtos da Eletuz faz mais sentido.”
Além da escola e da publicidade, há monetização via Adsense, principalmente em YouTube e TikTok. Essa frente também representa 1% a 2% da receita total.
Faturamento e visão financeira
Miranda não abre números exatos de faturamento, mas compara com sua fase anterior.
“Eu saí do mundo corporativo ganhando acima de R$ 30 mil por mês. O resultado que a gente tem hoje é extremamente maior do que isso.”
Segundo ele, a empresa já opera com resultados consistentes, mas a divulgação de números não faz parte da estratégia atual.
Não há sazonalidade relevante de audiência ou vendas. “Nossa média de visualizações é extremamente regular.”
Isso se deve, segundo Miranda, ao foco em conteúdo atemporal. “95% do nosso conteúdo é perene. Eu não dependo de eleição, carnaval ou moda do momento.”
Momentos sazonais são usados apenas para ampliar alcance, não como base do negócio.
Próximos passos
O plano é escalar. “Assim como o objetivo com o canal é ser o maior do mundo, com a Eletuz é ser a maior e melhor escola de negócios do Brasil.”
O prazo estabelecido é de até dois anos, com novas formações, produtos e plataformas.
Questionado sobre o que surpreenderia o Everton do passado, Miranda diz que pouco. “Nada foi espontâneo. Tudo foi planejado.”
O que chama atenção é a velocidade do impacto. “Em um ano, o retorno do público foi muito intenso. Pessoas me param na rua, mandam mensagens, agradecem.”
Ao final da entrevista, ele acrescenta um dado de formação que ajuda a explicar a estratégia de comunicação: além da graduação e da especialização em marketing digital, estudou teatro por cinco anos. “Essa composição explica muito do tipo de conteúdo e produto que a gente constrói hoje.”







