Crise de ansiedade leva bancária a empreender com confeitaria. Agora, ela projeta faturar R$ 1 milhão

Fonte: Redação

Bastante ativa nas redes sociais, a confeiteira Dariane Vieira, 35 anos, proprietária e confeiteira da DariCake, confessa que se surpreendeu nos últimos dias com a repercussão negativa de um vídeo polêmico publicado em 16 de agosto, em que ela chama a atenção de funcionários por terem deixado a “raspinha” de um recheio em um recipiente – o que é a “desculpa perfeita” para ela montar um doce do zero: o afogadinho.

“Tô montando o meu próprio afogado com a raspadinha que não fizeram do tabuleiro porque infelizmente deixaram raspinha”, afirma na publicação que alcançou 4,4 milhões de visualizações e 4.885 comentários no TikTok.

Com o viral, vieram os comentários. Parte da web defendeu a posição da confeiteira dizendo que, para o empreendedor, desperdício é dinheiro. Outra parte, acreditou que Vieira não se comunicou direito com suas funcionárias e adotou uma fala interpretada como “passivo-agressiva“.

A realidade, segundo ela, não corresponde a nenhuma das duas hipóteses. “40% entendeu ‘nossa ela tá chamando atenção de uma funcionária no vídeo’ e os outros 40% foi ‘ela tá certa porque não pode ser desperdiçado’, o resto entendeu ‘gente, é encenado, vocês não estão vendo?’, que era o que estava acontecendo”, afirma.

A PEGN, Vieira explica que os vídeos com as “raspinhas” não são uma novidade nas redes da DariCake, confeitaria localizada no Rio de Janeiro (RJ), e já tiveram até a participação de clientes nos conteúdos. Dessa vez, a ideia foi falar diretamente com a funcionária sobre a “raspinha”.

“Me deu uma sensação de tristeza quando viralizou porque tudo o que a gente vê nos comentários é exatamente o que eu deixei da porta para fora [do antigo trabalho]. Por isso que eu falei: ‘A gente precisa reverter isso, porque essa não é a minha imagem, a minha essência’”, explica.

Ela conta que os colaboradores da confeitaria deixam as vasilhas com a sobra do recheio de propósito para serem transformadas em conteúdos e que, depois de montado, o doce é distribuído para eles. Essa interação apareceu no vídeo publicado dias após a polêmica onde Vieira e sua social media, Maria Eduarda Cardoso Paes Leme, 33, ironizam algumas das críticas e mostram uma das funcionárias recebendo o afogadinho.

Segundo ela, a filmagem foi real e aconteceu no dia da gravação do viral, embora alguns internautas tenham “achado que era encenado” quando ela postou.

Doce com memória afetiva e transparência com o cliente

A primeira loja DariCake abriu as portas em outubro de 2022 com três funcionários – incluindo Vieira – e R$ 40 mil de investimento inicial do marido dela, Rubem Vinicius Ferreira do Espírito Santo, 36. De lá para cá, essa mesma loja conta hoje com 28 colaboradores, em que 70% dos cargos de liderança são ocupados por mulheres, e tem uma média de faturamento entre R$ 550 a R$ 600 mil reais por mês.

Em novembro de 2026, Vieira e o marido, que agora se dedica completamente à empresa, vão inaugurar a segunda unidade da DariCake, chegando a cerca de 80 funcionários nas duas lojas. Também localizada na capital carioca, o novo espaço possui mais estruturas para o crescimento da confeitaria com três andares e doze vagas para carro.

Para a expansão, eles investiram cerca de R$ 1 milhão, valor que esperam faturar com a nova loja mensalmente depois de ser inaugurada. Apesar do sonho da expansão, “a gente não tem o objetivo de franquear porque queremos manter o padrão, a qualidade”.

Embora esteja em uma das principais capitais do Brasil, a confeitaria está fora do eixo turístico. Localizada no bairro Campo Grande, eles estão a cerca de 45 quilômetros de Copacabana, um dos pontos mais badalados da cidade. Mesmo assim, o negócio vem se destacando entre os empreendimentos alimentícios cariocas. No TripAdvisor, por exmplo, site de viagem que reúne avaliações sobre estabelecimentos ao redor do mundo, a DariCake conquistou a 10º posição entre os Melhores Restaurantes do Rio de Janeiro na categoria por pontuação.

O diferenicial do negócio, para Vinicius, é a honestidade com o consumidor. “Criamos a loja com um foco de ser verdadeiro naquilo que fazemos. Não temos medo de filmar de nenhum ângulo, de nenhum momento, porque se não estamos fazendo a coisa correta, vamos ajustar e fazer da forma correta”.

Presença nas redes sociais

A presença da DariCake nas redes é intensa e a social media revela acompanhar a confeiteira em diferentes postos dentro da loja para gravar conteúdo – o que reforça a impressão, para o cliente, de que ela está em todos os lugares. “Os consumidores gostam muito da transparência. Porque a Dari é muito real. Se tem um problema, ela conta, se deu um problema na embalagem, vamos contar essa história”, afirma Maria Eduarda Cardoso Paes Leme, e Vieira complementa que “se a receita deu errado, também conto”.

Além da comunicação diária e transparente com os seguidores, o que constrói um senso de comunidade entre eles, Vieira reconhece que seus doces e a memória afetiva que eles remetem também são responsáveis pelo crescente sucesso da DariCake. Sobretudo o bolo gelado, o carro-chefe da loja.

“É algo que a gente traz para remeter a memória afetiva mesmo, de lá de antigamente, que todo mundo fazia naquele tabuleiro retangular. Aquele bolo molhadinho, da forma como dava para ser feito”, lembra. Cada fatia grande do bolo sai por R$ 29,90 e o mais pedido é o de olho de sogra, de ameixa, doce de leite e creme de coco.

“Eu comia muito na minha infância, e ele é o nosso carro-chefe porque hoje é muito difícil comprar aquela torta de olho de sogra. Você vai ter de Kinder, de diversos outros sabores, mas aquele de antigamente, molhadinho, do jeito que sempre foi feito, é mais difícil de encontrar”, afirma.

A mudança de carreira e o sonho do empreendedorismo

É essa paixão pelo doce e a felicidade em cozinhá-lo que impulsionou a criação da DariCake — além de uma mudança de carreira de Dariane Vieira. Durante 12 anos, ela atuou como bancária, profissão que passou a prender cada vez mais seu tempo à medida que ela assumia mais responsabilidades.

“Você tem horário de entrada, mas não tem horário de saída. Com dez anos de banco isso começou a me adoeçer de verdade, a ponto de não conseguir mais ir trabalhar, de começar a passar mal no meio do caminho e isso começou a me afetar psicologicamente”, explica.

A virada de chave veio depois de diversas crises de ansiedade e de um episódio, às vésperas de seu aniversário, em que estava com a filha e o marido em um shopping e apagou. Encaminhada para um hospital e, posteriormente, para um psiquiatra, Vieia foi afastada do trabalho por seis meses. Foi nesse período que ela deu os primeiros passos em direção ao empreendedorismo.

“Eu sempre tive vontade de ter um negócio, mas imaginava que era desafiador demais e eu tinha muito medo de dar errado. Eu queria ter minha independência financeira com a minha filha crescendo”, lembra. Ela conta que com o apoio e a confiança de Rubem Vinicius, começou a fazer o que mais amava: doces.

Sua primeira criação foi o creme de ninho que, unido a um brownie e a Nutella, gerou o afogadinho, a primeira sobremesa da DariCake e a do vídeo da raspadinha que viralizou.

De início, as vendas dos doces começaram dentro do condomínio do casal, sem nenhuma plataforma de venda ou de divulgação. “Eu lembro de sentir logo no começo que aquilo estava me dando uma sensação de que ‘é isso’. Por mais que eu não esteja recebendo o que recebia no banco, eu tô feliz”.

No final de 2022, com o fim dos seis meses da licença, Vieira entendeu que não queria mais voltar para o banco. “A DariCake nasceu desse sonho, desse problema que o banco me causou, que me fez entender o que é bom e o que é ruim”, explica, ressaltando que, dentro do seu negócio, as “coisas ruins” que vivenciou no antigo trabalho “jamais entram aqui dentro”.

Ela explica que sua experiência na instituição financeira e as consequências na sua saúde física e psicológica que a levaram “ao fundo do poço” a transformaram como empreendedora e a incentivam a ser o oposto dos chefes que ela costumava ter. É por isso que, com o viral das “raspinhas”, ela sentiu que não podia deixar essa imagem ser mantida.

“Não é isso que eu quero transbordar para ninguém. Como mulher, empreendedora, que trabalhou 12 anos como bancária, que passou por diversas situações dentro de uma empresa e sabe muito bem como funciona, não quero trazer essa visão para a minha empresa”.

Aprendizados

Apesar do susto, a confeiteira sabe que a experiência do viral é mais um aprendizado na trajetória do empreendedor, que não é linear. Entre dificuldades para encontrar um time de colaboradores unidos e confiáveis, até lidar com as diferentes opiniões e falta de reconhecimento das pessoas, Vieira confessa que uma das principais lições aprendidas nesses quase quatro anos empreendendo com a DariCake foi a de se apoiar em somente um sim e não ouvir as pessoas que duvidavam do seu potencial.

Ela lembra que, no início da venda dos doces, tinha muito medo de não ter sucesso no negócio e, embora o marido a apoiasse, seus pais questionavam sua decisão de largar um trabalho seguro no banco pelo sonho da confeitaria.

“Se você tiver somente um sim, segue seu objetivo e seu propósito, porque se eu tivesse ouvido meus pais, por exemplo, eu não tinha chegado aonde eu cheguei”, afirma, contando ter ouvido questionamentos como: “Olha aí, agora você tá dentro de casa, olha sua cozinha, seus cabelos todo pro alto, o brigadeiro todo espirrando em cima de você. Porque você quer isso para tua vida, filha? Tua filha vai sentir muito”.

Em resposta, Vieira fingia que não ouvia e seguia em frente. “A gente tem que entender por onde começar e seguir realmente o que é a prioridade, porque senão a gente não faz nada. A gente só precisa de um sim”.

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