Apresentar os bastidores deixou de ser um detalhe simpático das redes para virar estratégia real de construção de reputação e vendas. Em um mundo saturado de informações feitas para atrair o interesse, o que chama a atenção é justamente o que não parece ensaiado: o cotidiano de uma pequena equipe, o ajuste final de um produto, o improviso de um criador que grava Reels e Stories no próprio quarto.
Mais do que uma saída para empresários com uma ideia na cabeça, uma câmera de celular na mão e pouco dinheiro no bolso, os vídeos informais passaram a movimentar decisões de empresas gigantes. A importância da comunicação espontânea cresceu tanto que o novo CEO global da Unilever, Fernando Fernandez, anunciou em março que irá trabalhar com 20 vezes mais influencers.
O low-fi funciona porque aproxima. Quando o público vê a preparação de um prato, a chegada de uma mercadoria, o processo criativo ou a rotina de quem trabalha na marca, sente que faz parte da empresa. “Essa estética crua reduz o custo, acelera a produção e aumenta a confiança – é exatamente o tipo de conteúdo que hoje ressoa melhor nas plataformas”, diz Giulia Inhaquite, gestora na agência Influency.me.
Luana Amy, fundadora da marca digital LA’s Clothing, lembra que, mesmo para quem está começando e ainda não é reconhecido, dividir bastidores ajuda a formar imagem, explicar propósito e criar expectativa em torno do que vem por aí.
Mas espontaneidade não significa improviso. Ana Paula Passarelli, cofundadora da agência de influência digital
Brunch, reforça que segurança, ética e limites são essenciais. Funcionários não podem se expor a riscos ou situações vexatórias, e marcas devem preservar sua reputação. “Evite qualquer coisa que prejudique a carreira, a empresa e a sociedade. A gente está influenciando pessoas para melhorar o mundo, não para piorar”, diz.
Este guia reúne oito sugestões práticas para transformar os bastidores do negócio em conteúdo atraente e estratégico.

Por que funciona
Bastidores têm aquela energia do “vem ver como fazemos”. Geram simpatia porque mostram esforço, tentativa, curiosidade, humor – e isso cria vínculo. É uma forma de dizer que somos reais, estamos aqui construindo algo. Passarelli, da Brunch, cita um estudo da Edelman, o Trust Barometer: “A pessoa que trabalha dentro de uma empresa está em segundo lugar na escala de influência, atrás apenas de amigos e familiares”, afirma. A conexão funciona porque o público valoriza quem conhece o processo, quem vive aquilo no dia a dia.
Para Inhaquite, da Influency.me, o low-fi se destaca em um mar de vídeos certinhos demais. “Tem um declínio da confiança do público em certos tipos de conteúdo, esses muito plastificados, muito irreais, muito editados”, diz. “A linguagem do TikTok pegou, mesmo em outras redes. Ganham mais engajamento os vídeos em que, aparentemente, a pessoa ligou a câmera, gravou e postou.”
Para quem faz sentido
Empresas com equipes visíveis, criadores de conteúdo, marcas criativas, startups, consultores, artesãos, profissionais autônomos: qualquer negócio que precise mostrar valor pode se beneficiar de bastidores. Funciona bem quando o relacionamento e o impulso de compra importam mais do que o preço. “Se você consegue contar uma história com caráter humano e único sobre sua empresa, os vídeos de bastidores são para você”, encoraja Inhaquite.
Ao mesmo tempo em que pode ser para todo mundo, Amy, da LA’s Clothing, ressalva que ficar offline é melhor do que produzir conteúdo sem saber como nem por quê. “Se você não tiver conhecimento da comunicação, não aparecer pode ser melhor do que colocar em risco a reputação de uma marca consolidada”, diz. “Se estiver inseguro, peça a ajuda de alguém de fora.”
O que vale mostrar
O desenvolvimento de produtos, a preparação para um evento, a chegada de mercadoria, o pet adotado pela empresa, um erro consertado. Vale apresentar tudo que ajude o público a entender que existe trabalho real por trás do resultado – e que aproxime as pessoas da sua rotina.
“O ideal é mostrar tudo que é diferente. Todas as fábricas têm alguma diferença. Filme a pessoa que está costurando o vestido, fale um pouco sobre quem está aparecendo no vídeo. Isso ajuda a humanizar o conteúdo”, defende Inhaquite.
Amy conta que os assuntos de seus posts foram mudando conforme ela e sua marca se tornaram conhecidas. “No começo eu ia à fábrica, tirava fotos de todos os processos e escrevia uma legenda gigante contando: ‘Vocês sabiam que o jeans é feito assim?’, explicava a técnica e trazia o nome das pessoas envolvidas no processo.” Mas ela alerta sobre a necessidade de estratégia. “Às vezes, a gente postava a foto de um lanche em cima da mesa, mas tomando o cuidado de deixar, no cantinho da imagem, um spoiler da bolsa que estaria vindo. Você precisa atingir algum objetivo com cada postagem.”
Quem pode aparecer
Quem fizer sentido pode estar na tela: a equipe inteira, alguns integrantes, o empreendedor principal, parceiros, clientes que toparem participar. Gente de verdade basta – não precisa fazer pose. Vale considerar alguém que se sinta confortável e autêntico na frente da câmera.
“Se o dono da empresa tem facilidade em falar na frente de uma câmera, ele é a pessoa certa. Do contrário, é melhor adotar o employer branding e incentivar o time a assumir esse papel”, avalia Inhaquite.
Passarelli dá um exemplo do trabalho que ela fez para o Banco BV, especializado em financiamento de automóveis. “Você precisa entender quais são os verdadeiros influenciadores do seu mercado. No caso, eram os vendedores de agência. São as pessoas que fecham negócio”, afirma. “Por isso, a gente deu a eles treinamento para criação de conteúdo para as lojas onde trabalhavam.”

Duração e ritmo
O conteúdo bom é aquele que mantém a atenção. Stories curtos funcionam para o dia a dia, vídeos um pouco mais longos servem para descrever processos ou contar histórias. Não é necessário postar todo dia, mas vale manter alguma frequência para criar familiaridade.
“A gente está um pouco impaciente, na fase de ouvir áudios em velocidade 2x… Então, uma dica é evitar aquelas falas de preenchimento, do tipo ‘é… é…’. Você pode cortar essas partes. Os vídeos no TikTok com cortes rápidos, sem nenhum respiro no meio, geram maior retenção”, observa a gestora de talentos na Influency.me.
A fundadora da LA’s Clothing, no entanto, prefere outra abordagem. “Gosto de uma duração maior, de dois a quatro minutos, para criar uma narrativa com começo, meio e fim. A pior coisa é o vídeo acabar de qualquer jeito, sem o público entender o que aconteceu.” Sobre o intervalo de publicação, ela aconselha: “A frequência ideal varia conforme o seu momento e o que você tem para mostrar. É importante evitar a superexposição”.
O básico necessário
Um celular basta. O importante é facilitar a produção – quanto maior a praticidade, mais espontâneo fica o resultado e mais chances você tem de continuar fazendo. “Qualquer telefone recente tem qualidade de imagem muito boa. Para complementar, acessórios baratos: um microfone de lapela para captar som em ambientes barulhentos, como os de uma fábrica; uma luz portátil quando não for possível usar a claridade do dia; e um tripé para apoiar a câmera”, diz Inhaquite.
Amy faz um alerta importante sobre a produção. “Adotar uma relação de informalidade e transparência não significa descuidar do senso estético. Às vezes, as pessoas acham que basta abrir a câmera diante de um escritório totalmente bagunçado, com uma luz horrível. Eu vou gravar no sofá de casa, mas sim, com a sala limpinha e com uma luz boa. Você não está em um estúdio, mas precisa de capricho.”
Tom e postura
Converse com leveza, explicando o que está acontecendo. Comente o desafio do dia, ria de algo que deu errado, apresente uma novidade, como se você estivesse mostrando aquilo para um amigo. Não precisa ter roteiro decorado. “Roteirização ajuda nas primeiras vezes ou diante de uma história complexa. Para conteúdos mais autênticos, se você é bom de fala, basta ligar a câmera e sair gravando”, diz Inhaquite.
Amy reflete sobre os limites da intimidade. “Ao se abrir demais, você pode acabar perdendo a admiração do público. Eu não abro a câmera para falar ‘Gente, hoje eu estou em dúvida sobre o que lançar na semana que vem’. Abro para anunciar ‘Vocês vão ficar bem felizes com o drop [lançamento pontual, exclusivo e geralmente limitado] que a gente decidiu lançar’.”
Como medir impacto
Além de métricas objetivas como curtidas, compartilhamentos e desempenho das vendas, valorize indicadores informais como comentários curiosos, DMs (mensagens diretas) perguntando detalhes, gente dizendo “amei ver você trabalhando”.
A percepção de proximidade também conta. “Mesmo que seu público seja muito pequeno, mesmo que seu vídeo renda três comentários, qual é o teor desse comentário? A pessoa que comentou um vídeo voltou para assistir aos outros? Comprou algum produto depois?”, diz Inhaquite. “O percentual das interações em relação à sua base de seguidores é uma métrica objetiva muito boa. Para você ampliar a sua rede, o ideal é ficar com uma taxa acima de 100%.”







