Aos 32 anos, Breno Nogueira, fundador da Escola do Breno, transformou uma planilha criada para organizar a própria vida financeira em um negócio que faturou R$ 4,5 milhões em 2025. Ao lado da sócia Marcela Carvalho, ele opera uma empresa que vende assinaturas anuais de R$ 298,80, reúne aplicativo, planilha, comunidade e soma mais de 900 mil seguidores nas redes sociais.
O empreendedor nasceu em São Luís (MA) e entrou na Universidade Federal do Maranhão em 2011 para cursar Administração de Empresas. Antes mesmo da faculdade, já acompanhava o pai no trabalho e buscava formas de empreender. “Eu queria me mexer, construir meu caminho, ter empresa, crescer”, diz.
Ainda no início da graduação, entrou para a empresa júnior da universidade e passou a organizar um jornal informal da turma, no qual reunia anotações das aulas e distribuía por e-mail. No mesmo período, fez uma aposta na Quina e ganhou R$ 7 mil. “Se não fosse isso, ninguém ia me dar R$ 7 mil. Eu nunca mais queria voltar para o zero”, afirma.
Com o dinheiro, decidiu abrir um negócio digital. Em 2011, criou uma loja virtual de canecas personalizadas, chamada Muzs — uma referência à palavra mugs, em inglês. A escolha pelo e-commerce veio do custo reduzido em relação a um negócio físico. “Comprei a máquina, as canecas brancas e estampava conforme vendia”, explica.
Entre 2011 e 2014, a empresa faturava entre R$ 3 mil e R$ 4 mil por mês. O negócio também virou espaço de aprendizado prático para colegas da faculdade. “Quem queria treinar financeiro, marketing, vinha para a empresa. Virou quase um laboratório da turma”, conta.
Apesar do funcionamento, Nogueira sentia limitações. “Eu batia a cabeça com tudo. Sabia que faltava alguma coisa para fazer o negócio crescer”, diz.
A mudança para São Paulo
Em 2013, um amigo o convidou para ser voluntário na Campus Party, em São Paulo. A participação ocorreu em 2014 e se tornou um ponto de inflexão. Durante o evento, Nogueira conheceu uma empresa de lojas virtuais e recebeu um convite para trabalhar na capital paulista.
Aos 19 anos, decidiu aceitar. Vendeu a empresa no Maranhão, encerrou o namoro, trancou a faculdade e mudou-se para São Paulo. No início, morou de favor na casa de um amigo e passou por repúblicas e hostels. “Eu vim para São Paulo sem imaginar que estava mudando de vida”, afirma.
No mercado corporativo, atuou em empresas de tecnologia e comércio eletrônico e construiu carreira na área de marketing. Chegou a cargos de liderança, com salários que passaram de R$ 2 mil para R$ 5 mil.
Dois anos depois de chegar a São Paulo, Nogueira se endividou. “Eu achei que estava rico”, diz. A combinação de salário maior, vida em uma cidade com mais opções de consumo e ausência de planejamento financeiro levou a decisões impulsivas.
Parcelou uma viagem para Nova York, comprou um iPhone e acumulou gastos no cartão de crédito. Ao retornar, a fatura superava o salário e as reservas. “Eu cheguei no zero”, afirma.
Para lidar com a situação, contratou um empréstimo consignado, com desconto direto em folha. “Foi a pior sensação da minha vida. Dois anos morando mal, comendo mal, e o resultado era uma dívida”, diz.
Foi nesse momento que passou a buscar métodos de organização financeira. Testou aplicativos, planilhas e sistemas baseados em categorias de gasto. “Todos partiam da lógica de orçamento fixo, como se pessoa física fosse empresa”, afirma.
A planilha e o método
A insatisfação com os métodos existentes levou Nogueira a criar uma planilha própria. A lógica era diferente: em vez de limitar gastos por categoria, o sistema simulava decisões futuras. “Eu coloco o valor do que quero comprar e vejo, em tempo real, se vai faltar dinheiro lá na frente”, explica.
A planilha mostrava projeções de saldo futuro e alertava quando uma decisão levaria a saldo negativo. “Eu trago a consequência futura para o presente e decido com base nisso”, diz.
Segundo ele, o método parte da premissa de que pessoas são instáveis no consumo. “A gente passa na rua, vê um tênis, quer comprar. Eu assumi essa instabilidade”, afirma.
Durante a pandemia, Nogueira publicou um story no Instagram oferecendo ajuda gratuita para quem estivesse com dificuldades financeiras. Na época, tinha cerca de 500 seguidores e não produzia conteúdo profissional. Atendeu 12 interessados sem cobrar. “Eu vi o método funcionar na vida de outras pessoas e descobri um lado professor que eu não conhecia”, afirma.
Mesmo assim, continuou no mundo corporativo, onde chegou a ocupar o cargo de diretor de marketing em empresas como PagSeguro, Mercado Livre e VTEX.
Nogueira tentou estruturar o negócio digital três vezes. Nas duas primeiras, seguiu fórmulas de lançamento e modelos usados por outros criadores. “Eu tentava imitar. Não tinha audiência, não tinha engajamento, não vendia”, diz.
Na terceira tentativa, quase desistindo, um episódio pessoal mudou o rumo. Ao analisar o extrato de um empréstimo consignado da mãe, identificou juros que considerou abusivos. Gravou um vídeo indignado e publicou nas redes. O conteúdo viralizou. “Foi espontâneo, gravado com raiva”, afirma. A partir dali, passou a produzir conteúdo com foco em decisões financeiras cotidianas, não em investimentos ou multiplicação de patrimônio.
Construção da audiência
Os vídeos eram gravados na cozinha de casa, com roupa casual, falando sobre dinheiro de forma direta. “Quebrou a expectativa de que quem fala de dinheiro precisa estar de terno ou numa Ferrari”, afirma.
O público que se aproximou era formado principalmente por pessoas entre 25 e 36 anos, homens e mulheres em proporções semelhantes. “Gente que tem renda, mas não consegue fazer sobrar dinheiro”, afirma.
Segundo Nogueira, muitos já haviam tentado outros métodos ou seguiam influenciadores de investimentos, mas não se identificavam. “Eu cheguei falando de sobrar dinheiro, não de enriquecer rápido”, diz.
Após a pandemia, Nogueira passou a oferecer mentorias individuais, cobrando cerca de R$ 2 mil por oito horas de atendimento. A demanda cresceu, mas criou um gargalo. “Se alguém quisesse contratar, teria que esperar seis meses”, afirma.
Com a audiência em expansão, decidiu criar um produto mais acessível. Lançou a planilha para venda. Em três dias, faturou cerca de R$ 80 mil. “Era o que eu faturava em três meses de mentoria”, diz.
Esse teste levou à criação da empresa atual.
Fundação da Escola do Breno
A Escola do Nogueira foi fundada em maio de 2024. O modelo de negócio é baseado em assinatura anual de R$ 298,80, com opção de parcelamento em 12 vezes de R$ 24,90. O plano dá acesso a trilhas de conteúdo, planilha, aplicativo e comunidade.
Segundo Nogueira, trata-se de uma única fonte de receita. “É um combo de ferramentas para ajudar a pessoa a fazer sobrar dinheiro”, afirma.
De agosto a dezembro de 2024, o negócio faturou cerca de R$ 2,5 milhões. Em 2025, o faturamento chegou a R$ 4,5 milhões. Em janeiro de 2026, a receita dobrou em relação ao mesmo mês do ano anterior, alcançando R$ 560 mil.
A empresa tem hoje 12 pessoas na operação, além de fornecedores como agência de criação, advogados e contadores. A equipe atua em áreas como marketing, tecnologia, atendimento, comunidade e financeiro.
Pela manhã, Nogueira atua como gestor, acompanhando projetos e desafios de cada área, com foco em escala. À tarde, grava conteúdos para Instagram, TikTok e YouTube.
Aplicativo e métricas
Em outubro de 2025, a empresa lançou o aplicativo da Escola do Breno. Até janeiro de 2026, havia 12 mil contas criadas, das quais cerca de 6 mil ativas.
Segundo dados internos, aproximadamente 40% dos usuários ativos conseguem economizar dinheiro com o método. A soma das economias mensais declaradas por essa base gira em torno de R$ 23 milhões a cada 30 dias. “Esse é o meu farol”, afirma Nogueira. “Eu quero fazer as pessoas economizarem dinheiro.”
As redes sociais funcionam como topo de funil. Cerca de 50% das vendas vêm diretamente da bio do Instagram. O restante é impulsionado por mídia paga.
O orçamento mensal de anúncios varia entre R$ 35 mil e R$ 60 mil. As campanhas são direcionadas, principalmente, a pessoas que já interagiram com o conteúdo do criador.
Segundo Nogueira, se a audiência parar de crescer, as campanhas perdem eficiência. “Tudo depende da interação com o meu perfil”, afirma.
Transição para tecnologia
O principal plano de crescimento é migrar de uma empresa de educação para uma de tecnologia. Além do aplicativo, está prevista para depois do Carnaval de 2026 a versão web da plataforma.
A ideia é reduzir a dependência de cursos e instruções. “Ninguém baixa o Duolingo para assistir aula de como usar. Você baixa e usa”, diz.
A margem atual do negócio gira em torno de 70%. Para Nogueira, o desafio é tornar o produto mais acessível para ampliar o impacto. “Hoje o acesso ainda trava”, afirma.
A meta para 2026 é alcançar R$ 9 milhões em faturamento, impulsionada pela ampliação da plataforma tecnológica e pela redução da dependência da imagem do fundador.
“Eu virei influenciador por necessidade. No futuro, quero que seja uma empresa que funcione sozinha”, diz.
Nogueira afirma que tinha receio de colocar o método em escala e ele não funcionar. O retorno dos usuários reduziu esse medo. “Os comentários falam de sair da casa dos pais, comprar o primeiro apartamento, criar filhos”, afirma. Para ele, vender mais significa ampliar o impacto positivo. “É um método que vem se provando”, diz.
Se pudesse voltar no tempo, Nogueira mudaria várias decisões financeiras. “O aprendizado vem a conta-gotas”, diz. Segundo ele, as duas lições principais são economizar dinheiro e construir patrimônio. “Salário não traz paz. Patrimônio traz”, afirma.
Ele reconhece que, mesmo após começar a economizar, usou recursos para consumo e viagens, sem foco patrimonial. “Faltava essa parte”, diz.







