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Com bloqueios em aeroporto, estradas e ferrovias, reconstrução de malha logística do RS pode levar anos

Fonte: Redação

Com 428 municípios afetados pelas enchentes, segundo dados da Defesa Civil, o Rio Grande do Sul vive uma situação dramática desde a última semana. Foram contabilizados até o momento 107 mortos e mais de 165 mil desabrigados. O Sebrae estima que mais de 600 mil pequenos negócios tenham sido impactados, e o Estado enfrenta uma crise econômica sem precedentes e um futuro incerto, com a destruição de empresas, perda de empregos e impacto na malha logística.

Além do fechamento do principal terminal aéreo do Estado, o Aeroporto Internacional Salgado Filho, em Porto Alegre, há 73 trechos em 43 rodovias com bloqueios totais e parciais, entre estradas e pontes. Os dados são do Departamento Autônomo de Estradas de Rodagem (Daer), consolidados com o Comando Rodoviário da Brigada Militar (CRBM), e abrangem também rodovias concedidas e administradas pela Empresa Gaúcha de Rodovias (EGR).

Nos locais em que a água já baixou, o cenário é de destruição. É o caso de Lajeado, uma das primeiras regiões atingidas. O governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB/RS), diz que será preciso pelo menos R$ 19 bilhões para a reconstrução do Estado. “São necessários recursos para diversas áreas. Insisto: o efeito das enchentes e a extensão da tragédia são devastadores”, escreveu no X.

Impactos na indústria e comércio podem passar de 80%

As cidades atingidas correspondem a 80% da atividade econômica do Rio Grande do Sul, de acordo com um estudo preliminar realizado pela Unidade de Estudos Econômicos (UEE) da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs).

A indústria gaúcha corresponde a 6,1% do PIB Nacional e 7,7% dos empregos formais. Alimentos, móveis e veículos estão entre as principais frentes de atuação na região. De acordo com a Fiergs, a representatividade do Rio Grande do Sul na indústria brasileira é mais relevante nos seguintes segmentos:

  • Tabaco: 68,5% da produção brasileira;
  • Couro e calçados: 30,5%
  • Móveis: 21,5%
  • Máquinas e equipamentos: 20,2%
  • Produtos de metal: 13,3%
  • Químicos: 11,2%
  • Alimentos: 9,8%
  • Bebidas: 8,9%

SOS RS:

De acordo com o presidente em exercício da Fiergs, Arildo Bennech Oliveira, ainda não é possível prever as perdas econômicas. “Além dos danos gigantescos de capital, os problemas logísticos devem afetar de forma significativa todas as cadeias econômicas do Estado”, diz.

A estimativa dos assessores econômicos da Fecomércio-RS é de um impacto de 86% nas empresas de comércio, serviços e turismo do Estado. Ainda, há a estimativa de que 88,4% dos empregos do setor estejam comprometidos, de acordo o presidente da instituição, Luiz Carlos Bohn.

Segundo especialistas e lideranças empresariais consultados por PEGN, a solução para os problemas logísticos, que passam pela desobstrução ou reconstrução de estradas, pontes e vias férreas, pode levar meses ou até anos.

Velocidade dos repasses ainda é incerta

Nesta quinta-feira (9/5), o governo federal anunciou um pacote de mais de R$ 50 bilhões em incentivos a negócios, produtores rurais e trabalhadores, e auxílio ao Estado e municípios. A medida prevê R$ 200 milhões para fundos de estruturação e projetos de bancos públicos para apoiar a reconstrução de infraestrutura e reequilíbrio econômico do Estado. Está previsto que o plano entre em vigor a partir de junho de 2024. Em outra iniciativa, 14 municípios terão acesso operações de crédito com aval da União, orçadas em R$ 1,8 bilhão.

Durante a apresentação das medidas, o presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva adiantou que mais valores podem ser anunciados. “O que vocês viram aqui foram as primeiras medidas de crédito. Isso não termina aqui. Eu tenho dito aos ministros que nós temos que nos preparar porque a gente vai ter o tamanho da grandeza dos problemas quando a água baixar e quando os rios voltarem à normalidade”, afirmou.

Antes disso, na última terça-feira (7/5), o governo federal já tinha anunciado um repasse de cerca de R$ 1 bilhão em emendas parlamentares.

De acordo com Carla Beni, economista e professora de MBAs da Fundação Getúlio Vargas (FGV), a recomposição logística do Rio Grande do Sul dependerá da velocidade com que os recursos cheguem às cidades.

O estado de calamidade, decretado pelo governo do Estado e também pelo governo federal, nos municípios mais atingidos, pode fazer com que algumas etapas sejam aceleradas, como a necessidade de editais para licitações, mas outros fatores podem atrasar a retomada econômica.

“Não podemos nos esquecer de que estamos em ano de eleição municipal. [É preciso entender] como a verba vai ser alocada diante da tragédia [nesse contexto]. Essa tragédia é sem proporções, nós nunca tivemos nada nessa magnitude no país. Você pode até ter o dinheiro disponível na conta da prefeitura, mas pode não conseguir os materiais necessários a mão de obra para fazer a reconstrução da ponte ou da rodovia, por exemplo”, comenta Beni.

O presidente da Fecomércio RS, Luiz Carlos Bohn, diz que a recuperação do Estado e dos negócios depende de verba federal. No entanto, a reconstrução não será feita em pouco tempo. “Não há perspectiva de recuperação sem uma ajuda bilionária, ‘colossal’ do governo federal. E mesmo quando esses recursos chegarem, não vi ser um trabalho de meses, será de três a cinco anos”, diz.

Para o presidente da Fiergs, Arildo Bennech Oliveira, o prazo de retorno da indústria ainda é incerto, pois além dos impactos diretos das enchentes, existem os indiretos. Ele diz que a interrupção indefinida de negócios pode acabar afugentando empresas da região, e de pessoas, em busca de melhores condições de vida.

“É importante ressaltar que esta situação é diferente do que enfrentamos durante a pandemia. Há uma perda permanente de capital, danos significativos à infraestrutura e problemas logísticos que afetam diretamente a capacidade de recuperação econômica”, afirma.

Dessa forma, ele avalia que sejam necessárias “medidas extraordinárias” e um investimento significativo tanto do governo como da iniciativa privada para a celeridade na reconstrução do Estado.

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