Casal empreende com

Fonte: Redação

A jornada empreendedora de Pablo Silva, 40 anos, e Andreza Pardo, 30 anos, começou longe dos atabaques e das giras de Umbanda da Baixada Fluminense. Em meio ao isolamento da pandemia, entre a Irlanda e Portugal, o casal tentou emplacar um delivery de bebidas na Europa. O projeto, no entanto, esbarrou em questões familiares e no cenário incerto da época, forçando o retorno ao Brasil. A “startup de bebidas” ficou para trás, mas a mentalidade logística voltou na bagagem.

Reinstalados no Rio de Janeiro e frequentadores assíduos de um terreiro, eles se depararam com um problema que a fé, sozinha, não resolvia: a ineficiência do varejo religioso. “A gente já tem uma dor toda vez que chega aqui no terreiro: alguém precisa de vela, precisa de artefato religioso e sempre falta. E não tem a disponibilidade pra poder fazer a entrega”, relembra Silva, cofundador e CTO da startup.

O problema era claro: as lojas (“floras”) fecham às 19h, horário comercial padrão, mas os rituais religiosos geralmente começam depois desse horário. Se o praticante saísse do trabalho direto para o templo e esquecesse uma vela de sete dias ou um banho de ervas, o ritual ficava comprometido. Foi o “estalo” para o pivot. Se a lógica do delivery funcionava para o happy hour, funcionaria para a hora da fé. Nascia ali o Happ Fé.

Sem investidores anjos ou capital de risco, o casal apostou no bootstrapping (uso de recursos próprios). O investimento inicial foi de apenas R$ 1,5 mil, retirados do salário que ganhavam em empregos formais (CLT). A primeira versão do negócio (MVP) foi improvisada e “dentro de casa” — literalmente. “Nós alugamos uma casa que tinha um quartinho, onde a gente colocou todos os produtos”, conta Pardo, CMO da empresa. “Fazíamos a venda para dentro do nosso ‘cantinho’, que é o nosso terreiro.”

A validação veio rápido. O que era para ser uma conveniência para os “irmãos de santo” revelou uma demanda reprimida. Pessoas sem tempo de ir às lojas físicas começaram a encomendar itens para entrega via motoboy. Mas o modelo de estoque próprio tinha um teto de crescimento e custos fixos altos. Para escalar, eles precisariam de tecnologia.

Em 2023, Silva reescreveu o código do aplicativo para transformar o Happ Fé em um marketplace. Em vez de comprar e revender velas, a plataforma passou a conectar os estoques das lojas de bairro aos fiéis. Aqui, a startup encontrou seu segundo grande desafio: a falta de digitalização dos fornecedores, já que o varejo religioso no Brasil é majoritariamente familiar e analógico. “Muitas lojas hoje ainda operam nota fiscal em talão de papel, então o lojista não consegue saber quanto ele tem em estoque realmente”, diz Silva.

Para convencer esses comerciantes a entrar no app, o Happ Fé desenvolveu uma proposta de valor B2B: ao se cadastrar, a loja ganha acesso a um sistema de gestão (ERP) básico, que ajuda a controlar o fluxo de caixa e o estoque. Além disso, a barreira de entrada é zero: não há cobrança de mensalidade para o lojista, apenas uma comissão (take rate) média de 20% sobre as vendas realizadas.

Hoje, a operação conta com 14 lojistas parceiros divididos entre São Paulo (Capital e Guarulhos) e Rio de Janeiro (Baixada Fluminense). A logística de entrega é terceirizada via integrações com Uber e 99, eliminando o custo de frota própria.

Para vencer a desconfiança de lojistas tradicionais, Silva, que é o responsável pela tecnologia, teve que ir para a rua. E ele não foi de terno. O empreendedor adotou uma estratégia de prospecção caracterizada, vestindo-se em homenagem a Zé Pilintra (o “Seu Zé”), entidade da Umbanda conhecida pela malandragem, carisma e proteção.

“Ele vai caracterizado, usa camiseta, usa um chapeuzinho que é do ‘Seu Zé’. E aí acaba cativando as pessoas”, diz Pardo.

A estratégia quebra o gelo e gera identificação imediata. “É a maneira de mostrar que realmente não é uma pessoa de fora que encontrou um nicho. É uma pessoa que está dentro, entende qual é a dor”, completa Silva.

O faturamento saltou de R$ 1,5 mil em 2024 (validação) para uma projeção de R$ 20 mil ao fim de 2025 — alta de 400%. O tíquete médio gira em torno de R$ 50, impulsionado por produtos campeões como velas (a de quilo custa R$ 30), banhos de ervas, incensos e guias.

A startup também mapeou o comportamento do consumidor, identificando três perfis de recorrência: o dirigente (compra semanal), o médium (compra mensal) e o consulente (compra esporádica).

A sazonalidade é outro fator crítico. Diferente do varejo tradicional, o calendário do Happ Fé tem múltiplos picos. Em abril (Dia de São Jorge) e setembro (Cosme e Damião), as vendas disparam. “Se a gente converter isso para São Jorge, realmente percebe um aumento de 40% dentro do sistema”, analisa Silva. Em dezembro, a demanda migra para Iemanjá: “As pessoas já estão pensando que precisam fazer algum agradecimento, alguma oferenda.”

Acelerada pelo programa Vai Tec, da Prefeitura de São Paulo, e destaque (Top 10) na Expo Favela SP, a startup tem planos ambiciosos. A meta para 2026 é chegar a 21 lojas parceiras e atingir um faturamento anual de R$ 200 mil. Para isso, a expansão geográfica não seguirá o óbvio.

Andreza Pardo, cofundadora e CMO do Happ Fé, no estande da startup durante a Expo Favela Innovation São Paulo 2024, onde a empresa figurou no Top 10 — Foto: Divulgação/ Happ Fé
Andreza Pardo, cofundadora e CMO do Happ Fé, no estande da startup durante a Expo Favela Innovation São Paulo 2024, onde a empresa figurou no Top 10 — Foto: Divulgação/ Happ Fé

Embora a Bahia seja culturalmente associada às religiões afro-brasileiras, os dados apontaram outra direção. Segundo o Censo 2022 do IBGE, o Rio Grande do Sul é o estado com a maior proporção de adeptos de religiões de matriz africana no país. Cerca de 3,2% da população gaúcha se declara umbandista ou candomblecista — quase o triplo da média nacional (1%). Porto Alegre, por sua vez, é a capital com maior percentual de praticantes (6,36%), superando Salvador e Rio de Janeiro.

“A gente vai para Salvador, sim, mas não é o nosso grande foco no momento. O foco é ir para o Rio Grande do Sul”, revela Silva. Além dos dados demográficos, há uma maturidade de mercado: no Sul, as lojas (chamadas de “floras”) já possuem uma cultura forte de venda de ervas frescas, o que facilita a logística de perecíveis.

Por fim, o casal reforça que o Happ Fé é mais que um negócio de logística; é uma ferramenta política e social. Ao inserir produtos de matriz africana em um aplicativo com UX (experiência do usuário) moderna e entrega rápida, eles buscam combater o racismo religioso pela via da normalização e do profissionalismo.

“Nós somos um mercado que movimenta a economia. E toda vez que eu apresento esses dados para grandes investidores, eles ficam abismados”, diz Silva. “A gente quer mostrar que existe um poder, que existe potencial de ser um big player.” Pardo finaliza com a visão de longo prazo: “É a fé andando juntamente com a tecnologia. De fato, é mostrar, é ensinar que é uma religião como qualquer outra e que ela precisa, sim, ser respeitada.”

Compartilhe:

WhatsApp
Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Telegram
+ Relacionadas