23% dos brasileiros não sabem o que é bioeconomia; tema ganha força na COP30 e expõe desafios dos negócios na Amazônia

Fonte: Redação

O potencial da bioeconomia amazônica é grande e já conhecido: segundo dados da organização global de pesquisa WRI Brasil, gera R$ 12 bilhões ao ano e, com investimentos adicionais, tem potencial de alcançar R$ 38,6 bilhões até 2050, criando 833 mil empregos. A realização da COP30, que acontece até esta sexta (21/11), em Belém (PA), deu ainda mais destaque a negócios relacionados à preservação local. Mas, para especialistas ouvidos por PEGN, para que o crescimento continue e esse mercado se consolide, é importante fortalecer a exposição dos empreendimentos e criar incentivos contínuos.

“A sociobioeconomia traz o conceito social de fortalecimento de comunidades amazônicas, combinando impacto social e biodiversidade ambiental sustentável”, aponta Pricila Almeida, vice-presidente da Associação dos Negócios da Sociobioeconomia da Amazônia (Assobio), organização que tem 130 associados, que movimentam R$ 52 milhões e geram mais de 1 mil empregos diretos.

Mesmo com o potencial crescente, uma pesquisa da Assobio mostra que o tema ainda é pouco conhecido pelos brasileiros: apenas 34% dizem entender bem sobre bioeconomia, enquanto 36% afirmam conhecer superficialmente. Outros 23% já ouviram falar, mas não sabem o que é, e 7% nunca ouviram falar.

Esse é um dos desafios enfrentados pelos negócios amazônicos. “Na nossa pesquisa, 82% dos brasileiros acreditam que é possível desenvolver a Amazônia sem destruí-la. Porém, muitos ainda não conhecem o caminho que une inovação e preservação. Ainda carecemos de uma narrativa clara e de acesso a informações que mostrem o potencial que temos como potência econômica baseada na floresta para atrair um público nacional a esses negócios”, analisa Almeida.

COP30:

Para Claude Cohen, professora de economia da Universidade Federal Fluminense (UFF), a resistência dos brasileiros em relação à bioeconomia ainda é difícil de superar, e uma possível solução estaria em apresentar o tema ainda na escola. “Se essas discussões chegassem, por exemplo no ensino médio, ajudaria a mostrar a crianças e jovens a riqueza que temos aqui e que muitas vezes desconhecemos”, sugere a professora.

Além da falta de conhecimento, há um desafio logístico para acesso às diferentes áreas da Amazônia e para distribuição de produtos. “Muitas vezes, o transporte é realizado apenas por rios e nem sempre existe uma unidade de processamento próxima de onde aquele material natural é extraído e transportes demorados podem acarretar na perda de qualidade”, diz Nascimento. “Precisamos de políticas públicas que tratem a infraestrutura e o transporte desses insumos como a força motriz para o fortalecimento desse ecossistema”, acrescenta a vice-presidente da Assobio.

Acesso a financiamento também é apontado como desafio pelos especialistas. “Os existentes são restritivos, complexos, de difícil acesso e não atendem nossas necessidades”, opina Almeida. “Políticas de incentivos fiscais para produtos da sociobioeconomia e a inclusão desses itens como prioritários nas compras públicas seriam caminhos importantes”, acrescenta. Ainda, ela diz que seria importante o aumento de editais voltados especificamente à sociobioeconomia da Amazônia.

Para a especialista, incentivos e financiamentos justos garantem a competitividade dessa economia, já que se tratam de empresas com escala reduzida. “A resiliência climática tem sido constantemente cobrada das comunidades tradicionais, mas precisamos que o outro lado também se mova. É necessário promover mudanças em questões tributárias, nas exigências de crédito e nas métricas de risco, que ainda são incompatíveis com a dinâmica da Amazônia”, fala.

COP30

Com a realização da COP30 em Belém, a Amazônia ganha mais visibilidade. Durante o evento, ocorreram discussões que colocaram a bioeconomia em pauta e até mesmo o lançamento de financiamentos.

O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) lançou o Prospera Sociobio, programa que traduz as diretrizes do Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia (PNDBio) em ações concretas nos territórios, com foco em povos indígenas, povos e comunidades tradicionais e agricultores familiares. A iniciativa destinará cerca de R$ 120 milhões para os selecionados, que devem oferecer serviços para o fortalecimento do ecossistema de negócios sustentáveis para ativação de seis Núcleos de Desenvolvimento da sociobioeconomia na Amazônia.

Mesmo com a concretização de iniciativas como e de colocar a região em foco, os especialistas dizem ser fundamental que as discussões relacionadas aos negócios da Amazônia permaneçam. “Precisamos continuar com marketing e divulgação fortes pós-COP, precisamos estar em todos os lugares, porque quem não é visto não é lembrado”, reforça Almeida.

A Assobio esteve presente em discussões durante o evento, que abordaram os desafios e oportunidades desses negócios. A vice-presidente da associação acredita que a COP é um momento de desmistificar os estereótipos relacionados à sociobioeconomia. Para Nascimento, o evento ainda valoriza e dá visibilidade a quem de fato vive a Amazônia e seus negócios. “Queremos mostrar que a floresta não é intocável, e promover a ideia de conservação e produção consciente. Transformar a Amazônia em um espaço produtivo, com floresta em pé, gerando renda para suas populações e promovendo um futuro sustentável”, comenta. Com a concretização de benefícios e espaço dado a esse negócios a longo prazo, Cohen vê um potencial para o Brasil: uma possibilidade de tornar protagonista em relação ao desenvolvimento sustentável.

“A COP30 não é um ponto final, é o início de uma nova fase. Acreditamos que podemos partir dessa reverberação para uma consolidação institucional e política, esperando um legado que se traduza em instrumentos permanentes de política”, complementa Almeida.

Oportunidades

A visibilidade gerada pela COP30 reforça não só os desafios, mas também os caminhos para a expansão da sociobioeconomia — um mercado que, segundo especialistas, vai além da venda de matérias-primas.

A Assobio, por exemplo, trabalha com negócios de diferentes enfoques, mas Almeida percebe a predominância de negócios relacionados à alimentação, acompanhados de cosméticos, artesanato e serviços. “São negócios em sua maioria jovens, mas diversificados e inovadores. Muita gente pensa que a Amazônia é só floresta, mas nossos negócios também usam tecnologia e ciência”, diz. Dentro da associação, por exemplo, há segmentos de inovação, inteligência de mercado, corporativo, moda e artesanato — exemplificando a diversidade de atuação da bioeconomia.

Para o pesquisador da Universidade Federal do Pará, a sociobioeconomia é o resultado de pessoas criativas, ciência e conhecimento tradicional. “A biodiversidade amazônica é enorme, então há um grande potencial para fazer novos conhecimentos científicos e empreender”, analisa Nascimento.

Dentro do parque tecnológico onde o pesquisador atua, há a conexão de empreendedores com universidades e também grandes empresas – aumentando o alcance e a diversidade desses negócios. “A tendência de gerar mais valor é muito forte quando se agrega conhecimento científico ao negócio. Quando esses empreendedores buscam parceria com universidades e cientistas, conseguimos promover essa transformação garantindo as propriedades do produto que eles idealizaram”, opina Nascimento.

A empresa Tecer Projetos Ambientais, comandada por Lilian Mozini e Sandra Zanotto, é um exemplo de negócio que une conhecimento científico e empreendedorismo. A startup conecta pequenos produtores a empresas por meio da estruturação de cadeia e pesquisa de desenvolvimento de produtos. “Com a inovação de novos ingredientes atrelada à produção com manejo sustentável, rastreabilidade e comércio justo é possível gerar um modelo de negócio ético responsável com geração de renda para as comunidades e que mantêm a floresta em pé”, diz Zanotto.

Outra iniciativa baseada na valorização dos saberes tradicionais é a Aura Amazônia, que atua com turismo de experiência. Aline Alves, fundadora da empresa, acredita que o valor do negócio está na relação direta com as comunidades e com o território. “A bioeconomia, para mim, não é só produto. É vínculo, escuta e uma forma de transformar o conhecimento ribeirinho em oportunidade digna. O Tour Aromático da Amazônia mostra isso: ele gera valor com a floresta em pé e com a inteligência das pessoas que vivem nela, conectando ciência, ancestralidade e regeneração”, afirma.

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