- Pela primeira vez em 20 anos, a qualidade de vida é o principal motivo de permanência (37%), à frente do crescimento profissional (33%)
- A fatia de colaboradores com seis anos ou mais de casa caiu de 39%, em 2000, para 29% em 2026
- As mulheres ocupam 40% dos cargos de gestão (eram 24% em 2005), mas apenas 10% dos cargos de CEO
- O faturamento das premiadas cresceu 12,3% em média, ante 2,3% projetados para o PIB brasileiro em 2025
Pela primeira vez em duas décadas, a oportunidade de crescimento deixou de ser o principal motivo para os profissionais permanecerem nas empresas. Segundo a 30ª edição do Ranking das Melhores Empresas Para Trabalhar no Brasil, divulgada pelo Great Place To Work (GPTW), a qualidade de vida assumiu o primeiro lugar em 2026, citada por 37% dos colaboradores. Em seguida aparecem crescimento profissional (33%), remuneração e benefícios (16%), alinhamento de valores (9%) e estabilidade (5%).
O levantamento, um dos mais abrangentes sobre clima e cultura organizacional do país, reuniu nesta edição 5.897 empresas participantes. Cerca de 5.580 delas foram elegíveis ao ranking nacional, que impacta mais de 5 milhões de pessoas e abrange mais de 16 segmentos.
Por que a qualidade de vida passou à frente da carreira?
Para Maria José Tonelli, professora titular e coordenadora do Núcleo de Estudos em Organizações e Pessoas na FGV EAESP, alguns pontos ajudam a explicar a mudança. O primeiro é a pandemia. “Embora isso não esteja nunca diretamente ligado em algumas pesquisas, eu poderia dizer que esse foi um contexto de sociedade que disparou uma alerta sobre essa questão de qualidade de vida”, diz.
O segundo é o fator geracional, que, na avaliação da professora, não se limita aos mais jovens: “a qualidade de vida é sim algo que importa para todas as gerações”. A observação dialoga com o amadurecimento do perfil das premiadas. Em 2000, profissionais com até 34 anos representavam 63% do total; em 2026, são 48%. Já 52% têm 35 anos ou mais, sendo 32% entre 35 e 44 anos, 15% entre 45 e 54 e 5% acima de 55 anos, o que reforça a importância da gestão multigeracional.
Há ainda um terceiro ponto que, para ela, amarra os anteriores. “É um ponto que eu acho que na pesquisa talvez não apareça, mas que a gente pode considerar aqui como uma hipótese: é que hoje crescer nas empresas nem sempre é possível. As empresas estão, de fato, com os níveis hierárquicos bem mais achatados. Então, isso não é necessariamente possível, mesmo quando você se esforça muito. E ainda dentro desse contexto existe a relação custo-benefício. Nem sempre as pessoas vão estar ganhando muito mais”, completa.
Se ficam pela qualidade de vida, por que os vínculos longos diminuíram?
O tempo de casa mostra um movimento que, à primeira vista, contrasta com esse resultado. No início dos anos 2000, havia uma distribuição mais equilibrada: 30% dos colaboradores tinham menos de dois anos de empresa, 31% estavam entre dois e cinco anos e 39% acumulavam seis anos ou mais. Após a pandemia de Covid-19, a recomposição de quadros e a reorganização das formas de trabalho levaram a picos de colaboradores com menos de dois anos de casa, que chegaram a 45% em 2022 e 49% em 2023.
Em 2026, esse percentual recuou para 39%, enquanto a faixa de dois a cinco anos alcançou 32%, sinal de que parte da renovação pós-pandemia começa a migrar para as faixas intermediárias. Já os vínculos de seis anos ou mais ficaram em 29%, dez pontos abaixo de 2000.
Para Maria José, essa aparente contradição pode estar relacionada ao estilo de liderança. “Muitas vezes isso faz com que as pessoas saiam das empresas. Embora seja um dado mais subjetivo, e diga respeito à dinâmica que se estabelece, é um ponto a ser avaliado com mais acurácia”, conclui.
Mulheres avançam na gestão, mas seguem minoria no topo
A própria liderança também mudou de perfil ao longo das três décadas de pesquisa. Em 2000, os homens representavam 73% do quadro médio de colaboradores, e as mulheres, 27%. Nesta edição, a distribuição foi de 44,5% de mulheres, 55% de homens e 0,5% de pessoas de outro gênero, proporção próxima à da população ocupada no país, de cerca de 57% de homens e 43% de mulheres. Entre os colaboradores sem cargo de gestão, as mulheres são 46%.
Nos cargos de gestão, a presença feminina chegou a 40%, ante 24% em 2005. O avanço, porém, perde força à medida que o nível hierárquico sobe: as mulheres ocupam 43% das posições de supervisão ou gerência operacional, mas apenas 10% dos cargos de CEO, o que mostra que o acesso aos postos mais altos de decisão ainda é um desafio.
O mesmo padrão aparece na diversidade racial. Apesar dos avanços, pessoas brancas representam 53% dos colaboradores sem cargo de gestão, percentual que chega a 73% entre presidentes e diretores, evidenciando o desafio de ampliar a representatividade nos cargos de liderança.
Crescimento acima do PIB e empresas mais longevas
As premiadas registraram crescimento médio de 12,3% no faturamento no último ano, mais de cinco vezes os 2,3% projetados para o PIB brasileiro em 2025. Elas também se destacam pela longevidade: enquanto a idade média das empresas brasileiras é de cerca de 11 anos, segundo o IBGE, entre as Melhores Empresas Para Trabalhar a média chega a 51 anos e a mediana, a 37 anos, o que sugere uma associação entre culturas de confiança e bases mais consistentes para a continuidade dos negócios.
Mais confiança para inovar
O Índice de Velocidade da Inovação reforça a diferença. Em 2026, dois terços (66%) das organizações não premiadas permanecem no estágio de atrito. Entre as premiadas, essa proporção cai para 31%, enquanto quase metade (48%) alcança o estágio funcional e 21% chegam ao acelerado. Ou seja, os colaboradores das Melhores Empresas demonstram mais confiança para inovar e relatam encontrar mais oportunidades para isso.
Onde estão as premiadas
As empresas reconhecidas estão distribuídas em 18 estados, abrangendo quatro das cinco regiões do país. São Paulo lidera, com 81 empresas, seguido por Rio de Janeiro (17), Paraná (13) e Santa Catarina (13). Serviços Financeiros e Seguros, Tecnologia da Informação e Produção e Manufaturas lideram entre os setores pelo segundo ano consecutivo e, juntos, representam cerca de seis em cada dez organizações premiadas.






