Ambiente interno de um apartamento de alto padrão com vista para o skyline urbano, ilustrando o avanço do mercado imobiliário de luxo e a formação de patrimônio no Brasil.
O Brasil costuma ser descrito pelos seus indicadores de renda média, desigualdade social e vulnerabilidade econômica. Essa fotografia é verdadeira, mas incompleta. O mesmo País marcado por restrições de consumo, possui um outro lado: o da aviação executiva, dos imóveis de luxo, da gestão patrimonial, da hospitalidade premium e das experiências exclusivas. A pergunta é: quem está consumindo tudo isso?
A provocação ganha força quando os números entram em cena. Estudo da Bain & Company sobre o mercado de luxo no Brasil aponta que o setor pode chegar a R$ 130 bilhões até 2030, impulsionado por uma taxa média de crescimento anual entre 6% e 8%.
A consultoria analisou nove segmentos: imóveis, automóveis, saúde, aeronaves privadas, iates, hotéis, moda, arte e bebidas finas. Em suma, o levantamento mostra que o consumo premium no País vem se tornando cada vez mais diversificado.

Um panorama do mercado premium
Os imóveis lideram esse movimento. Segundo levantamento da Brain Inteligência Estratégica, o mercado residencial de luxo e superluxo encerrou 2025 com R$ 52,2 bilhões em vendas e 10.607 unidades comercializadas nas capitais brasileiras. Embora representem apenas 3,75% do volume de imóveis vendidos, essas unidades responderam por 29,4% de todo o valor movimentado pelo mercado residencial, evidenciando o peso econômico desse segmento.
Ou seja, o luxo deixou de ser apenas uma categoria associada a marcas, roupas ou acessórios. Ele passou a representar um ecossistema de consumo, patrimônio, mobilidade, serviços e estilo de vida.

O dado dialoga com um movimento mais amplo: imóveis de alto padrão, condomínios fechados, hotelaria premium e experiências exclusivas passaram a funcionar não apenas como consumo, mas também como preservação patrimonial, proteção do tempo, segurança e pertencimento.
Esse é o ponto central desta reportagem. A questão não é negar a desigualdade brasileira, nem sugerir que o País tenha se tornado rico de forma homogênea. O que está em discussão é outra coisa: se os indicadores médios mostram apenas uma parte da economia, o mercado premium pode revelar outra camada da realidade brasileira.
O luxo deixou de ser um nicho?
Para Carlos Ferreirinha, fundador e presidente da MCF Consultoria, o crescimento contínuo de segmentos como luxo, hospitalidade premium, imóveis de alto padrão e experiências exclusivas indica, antes de tudo, que o Brasil é “muito mais complexo e diverso” do que normalmente se interpreta.
“Quando olhamos apenas para os indicadores médios de renda, o País parece caminhar em uma direção. Quando observamos patrimônio, mobilidade de capital, sucessão familiar, ativos imobiliários, agronegócio, serviços premium, viagens, saúde, educação, hospitalidade e experiências de alto valor, existe também uma outra leitura, que demanda outra interpretação”, afirma.
Segundo ele, as desigualdades brasileiras são profundas, evidentes e estruturais. No entanto, isso não elimina a existência de uma capacidade expressiva de consumo, investimento e formação de patrimônio que a narrativa econômica tradicional nem sempre captura.
“O crescimento do mercado de luxo, alto padrão e premium não diz apenas que há mais dinheiro circulando. Ele revela que há um potencial de clientes buscando mais qualidade de entrega, mais segurança, mais privacidade, mais curadoria, mais pertencimento, mais tempo bem resolvido e mais significado nas escolhas”, diz Ferreirinha.
Na visão da MCF, esse movimento não deve ser lido como celebração da riqueza, mas como sinal de transformação das expectativas. O consumidor de maior poder aquisitivo no Brasil, afirma Ferreirinha, passou a exigir mais consistência, repertório e precisão de marcas, empreendimentos e serviços.
Quem está consumindo tudo isso?
A resposta não cabe mais em um retrato antigo da alta renda brasileira. Para Ferreirinha, o mercado premium do País ainda conta com famílias tradicionais, patrimônios consolidados e consumidores dos grandes centros urbanos. Porém, a expansão recente não vem apenas desse grupo. “Estamos falando de uma base mais ampla, mais fragmentada e muito mais diversa do que no passado”, afirma.
Essa base inclui empresários regionais, profissionais liberais de alta performance, executivos, sucessores de negócios familiares, investidores, produtores do agronegócio, empreendedores digitais, influenciadores, gestores de patrimônio, pessoas ligadas à economia criativa e uma geração que combina renda, informação e desejo de pertencimento.
Nesse contexto, o desafio, segundo Ferreirinha, é não tratar todos esses perfis como um bloco único chamado “alta renda”.
“Alta renda é uma condição econômica. Mercado de luxo, alta renda e premium exigem leitura comportamental”, diz Carlos Ferreirinha.
Em outras palavras, consumidores com elevado poder aquisitivo podem compartilhar uma condição financeira semelhante, mas apresentar motivações, expectativas e formas de consumo bastante distintas.
Por isso, o consumo de alto padrão não pode ser explicado apenas pelo preço. Ao contrário, para parte desse público, o valor está em comprar melhor, ser melhor atendido, ganhar tempo, sentir-se reconhecido e perceber qualidade antes, durante e depois da compra.

O mercado premium mostra a economia real
Do ponto de vista macroeconômico, o crescimento do luxo em um País desigual não é exatamente uma contradição. Para Fernando Chertman, professor de Macroeconomia e Finanças da Faculdade Belavista, indicadores tradicionais como renda média, renda mediana ou renda do trabalho captam o comportamento geral da população. No entanto, mercados premium são movidos por uma fração específica da sociedade.
Esse grupo, explica ele, decide consumo não apenas com base na renda corrente, mas também no patrimônio acumulado, na liquidez financeira, na valorização de ativos e na expectativa de renda futura. “O contraste pode ser explicado pela diferença entre a economia agregada e a economia segmentada”, afirma Chertman.
Em seu parecer, o crescimento de setores como aviação executiva, imóveis de luxo e gestão patrimonial não contradiz a concentração de renda. Pelo contrário: pode ser justamente uma consequência dela. “Em uma economia muito desigual, a média da população enfrenta restrição orçamentária, enquanto uma pequena parcela com patrimônio elevado sustenta mercados altamente sofisticados”, explica.
Renda é fluxo; riqueza é estoque
A leitura é importante porque desloca o debate. O mercado premium não revela necessariamente uma melhora ampla da renda brasileira. Mas mostra que há grupos com patrimônio, ativos e liquidez suficientes para sustentar segmentos que operam muito acima da média de consumo nacional.
Chertman resume a diferença com uma distinção essencial: renda é fluxo; riqueza é estoque. A primeira mostra o que entra em determinado período. A segunda revela o que foi acumulado ao longo do tempo.
No Brasil, essa distinção é decisiva. Parte relevante da riqueza está associada a imóveis familiares, empresas fechadas, propriedades rurais, participações societárias, aplicações financeiras e heranças. Esses ativos nem sempre aparecem como salário, mas geram poder econômico, acesso a crédito, capacidade de consumo e proteção contra choques.
Assim, para entender quem sustenta o mercado premium brasileiro, é preciso olhar além da renda mensal.

Patrimônio não é renda
Se o mercado premium revela uma economia mais sofisticada do que os indicadores médios sugerem, a pergunta seguinte é inevitável: por que essa riqueza nem sempre aparece nas estatísticas?
A resposta começa por uma distinção fundamental, frequentemente negligenciada no debate público: renda e patrimônio não são a mesma coisa.
Enquanto a renda representa o fluxo de recursos recebidos ao longo de determinado período (como salários, dividendos, aluguéis ou honorários), o patrimônio corresponde ao estoque de riqueza acumulado ao longo da vida. É justamente essa diferença que ajuda a explicar por que determinados grupos exercem elevado poder econômico sem necessariamente figurar entre os maiores rendimentos declarados.
Segundo Alexandre Evaristo Pinto, vice-presidente da Associação Paulista de Estudos Tributários (APET), grande parte da riqueza brasileira está concentrada em ativos cuja mensuração é muito mais complexa do que a simples observação da renda corrente.
“Há uma diferença importante entre medir renda, consumo e patrimônio. Muitas estatísticas tradicionalmente utilizadas para analisar desigualdade ou capacidade econômica estão mais voltadas à renda corrente das pessoas e das famílias e não capturam integralmente o patrimônio acumulado ao longo do tempo.”
Na avaliação do especialista, uma parcela relevante da riqueza nacional está distribuída entre imóveis adquiridos há décadas, participações societárias, empresas familiares, holdings patrimoniais, propriedades rurais e outros ativos que frequentemente aparecem registrados pelo custo histórico, e não pelo valor efetivamente alcançado no mercado.
“Mesmo quando esses bens são declarados para fins fiscais, muitas vezes aparecem pelo custo histórico de aquisição, e não necessariamente pelo valor de mercado. Um imóvel comprado há décadas, por exemplo, pode estar registrado por um valor muito inferior ao seu valor econômico atual.”
Esse cenário, explica Alexandre, exige cautela sempre que se pretende definir quem são os ricos brasileiros apenas com base em pesquisas de renda. “A riqueza patrimonial brasileira é mais ampla, mais heterogênea e, em muitos casos, menos visível do que os indicadores tradicionais sugerem.”
A riqueza está cada vez mais organizada
Essa transformação também aparece na forma como famílias e empresários passaram a administrar seus ativos. Na avaliação de Alexandre Evaristo, o crescimento das holdings familiares, do planejamento sucessório e da gestão patrimonial demonstra um processo crescente de profissionalização da riqueza privada.
De acordo com o especialista, esse movimento já não está restrito às famílias mais tradicionais do País.
“Esse fenômeno tem se expandido para empresários médios, produtores rurais, profissionais liberais de alta renda e famílias que acumularam patrimônio imobiliário ou societário ao longo de décadas.”
Muito além de um instrumento tributário, afirma o especialista, estruturas como holdings familiares passaram a cumprir funções relacionadas à governança, sucessão, organização patrimonial e preservação dos ativos ao longo das gerações.
“Famílias que antes administravam patrimônio de modo informal passaram a buscar advogados, contadores, gestores financeiros, consultores sucessórios e estruturas de governança familiar. Isso aproxima o Brasil de uma tendência internacional de institucionalização da riqueza privada.”

O patrimônio conta uma história diferente da renda
A mesma percepção é compartilhada pelo advogado tributarista Raul Iberê Malagò, sócio do escritório M&A Law. Para ele, boa parte das análises econômicas captura apenas uma parcela da riqueza efetivamente existente.
“Quando olhamos apenas para o fluxo de renda anual declarado na pessoa física, capturamos apenas a ponta de um iceberg, deixando de fora o estoque real de patrimônio.” Para ele, a riqueza contemporânea está cada vez mais associada a ativos patrimoniais.
Participações societárias, imóveis, fundos exclusivos, empresas familiares e estruturas internacionais concentram volumes expressivos de patrimônio sem necessariamente produzir rendimentos tributáveis elevados em todos os anos. “O patrimônio possui dinâmica própria. Ele pode permanecer valorizando-se durante décadas sem que isso se traduza imediatamente em renda tributável.”
Na avaliação de Raul Iberê Malagò, justamente por isso setores como mercado imobiliário de alto padrão, gestão patrimonial e family offices funcionam como indicadores indiretos de concentração de riqueza.

Wealth management cresce junto com a sofisticação patrimonial
Essa transformação também é percebida dentro das empresas especializadas na administração de grandes patrimônios.
Segundo Gabriel Cintra, CIO da Eleva Invest, o mercado brasileiro de wealth management vive um processo acelerado de profissionalização impulsionado por maior transparência regulatória e por investidores cada vez mais exigentes.
“Houve aumento da procura por serviços mais profissionais, alinhados com os interesses do cliente. A população de alto patrimônio percebeu que transparência faz diferença.”
Cintra afirma que mudanças regulatórias promovidas pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) reforçaram esse movimento e estimularam investidores a buscar modelos independentes de consultoria.
O resultado aparece na própria operação da Eleva Invest. “Em 2025 praticamente dobramos de tamanho. E, apenas nos primeiros meses deste ano, já crescemos cerca de 40%”, diz ele. Mais do que crescimento quantitativo, o executivo destaca uma mudança de perfil.
Ou seja, empresários do agronegócio, médicos, profissionais liberais, atletas, artistas e empreendedores passaram a procurar planejamento financeiro de longo prazo, diversificação internacional e estruturas patrimoniais mais sofisticadas.
“O empresário do agronegócio percebeu que investir apenas no próprio negócio significa concentrar capital. A diversificação patrimonial passou a fazer parte da estratégia.”
Segundo ele, esse movimento não se restringe aos grandes centros. A Eleva já possui consultores distribuídos por praticamente todo o país, acompanhando a expansão de novos polos econômicos e de famílias que acumulam patrimônio fora do eixo tradicional Rio-São Paulo. “Existe um mercado enorme a ser explorado em estados onde antes havia pouca oferta de consultoria especializada. Hoje vemos riqueza sendo construída em diversas regiões do Brasil.”

Os sinais da economia real
Se patrimônio é uma forma de compreender a riqueza, a economia real oferece outra. Ao observar determinados mercados, torna-se difícil ignorar uma pergunta: quem está sustentando essa demanda?
Voltando ao mercado imobiliário, levantamento da Brain Inteligência Estratégica, mostra que o segmento residencial de luxo e superluxo encerrou 2025 com resultados históricos. Foram comercializadas 10.607 unidades, movimentando R$ 52,2 bilhões apenas nas capitais brasileiras.
Embora representem menos de 4% das unidades vendidas, esses imóveis responderam por quase 30% de todo o valor negociado no mercado residencial nacional. São Paulo lidera esse movimento.
Bairros como Itaim Bibi, Jardins e Vila Nova Conceição concentram apartamentos avaliados entre R$ 40 milhões e R$ 60 milhões, enquanto condomínios fechados do interior paulista, como Fazenda Boa Vista e Quinta da Baroneza, consolidaram um novo eixo de alto padrão voltado para privacidade, natureza, segurança e qualidade de vida.
Muito além das capitais
Na avaliação de Carlos Ferreirinha, fundador e presidente da MCF Consultoria, a expansão do mercado premium acompanha justamente uma mudança no mapa econômico brasileiro.
“O luxo continua tendo São Paulo, Rio de Janeiro e algumas capitais como vitrines importantes. Mas já deixou de ser um fenômeno exclusivamente metropolitano.”
Segundo ele, novas regiões passaram a concentrar riqueza relevante.
“Há uma expansão clara para novos polos de riqueza, especialmente no interior paulista, no Centro-Oeste, no Sul e em regiões impulsionadas pelo agronegócio, pela indústria, pela tecnologia e pelo mercado financeiro regionalizado.”
Para Ferreirinha, muitas dessas cidades permanecem praticamente invisíveis no debate nacional. “O Brasil tem cidades que não aparecem tanto na narrativa nacional, mas que concentram empresários, famílias, produtores, investidores e consumidores com altíssima capacidade de consumo.”
Esse consumidor, afirma, muitas vezes possui comportamento bastante diferente daquele tradicionalmente associado ao luxo. “São públicos mais discretos, menos interessados em visibilidade e muito mais orientados à confiança, relacionamento, conveniência e reputação.”
A segunda maior frota de jatos executivos do planeta
Outro indicador chama atenção. O Brasil possui aproximadamente 1.103 jatos executivos em operação, configurando a segunda maior frota de aviação executiva do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, segundo análise da Airbus Corporate Jets (ACJ) baseada em dados da JETNET.
Mais do que quantidade, o setor também mudou de perfil. Fabricantes internacionais registram aumento da demanda por aeronaves de longo alcance e modelos ultraluxuosos, capazes de superar R$ 400 milhões por unidade.
A expansão desse mercado acompanha o crescimento de empresários ligados ao agronegócio, à indústria, ao mercado financeiro, à tecnologia e a novos polos econômicos espalhados pelo país. Não por acaso, a própria Bain inclui aeronaves privadas entre os principais segmentos responsáveis pela expansão do mercado brasileiro de luxo.

O luxo passou a revelar comportamento
Para Ferreirinha, entretanto, interpretar esses números apenas como demonstração de riqueza seria um erro. Na sua visão, o mercado premium deixou de vender exclusivamente produtos caros.
Hoje, ele comercializa tempo, conveniência, segurança, hospitalidade e experiência. “O consumidor passou a comparar tudo com tudo. Compara o atendimento do hotel com o do banco, o condomínio com o resort, o clube com o aeroporto internacional. A régua subiu.”
Essa mudança ajuda a explicar por que setores tão diferentes passaram a crescer simultaneamente. Mais do que bens materiais, eles oferecem qualidade de vida, proteção patrimonial, curadoria e redução de fricções no cotidiano.
“O imóvel deixa de ser apenas ativo. O hotel deixa de ser apenas hospedagem. O destino deixa de ser apenas viagem. Tudo passa a operar como extensão da identidade, da reputação e da experiência.”
O outro retrato da economia brasileira
O Brasil continua sendo um dos países mais desiguais do mundo. Nenhum dos especialistas ouvidos pela Consumidor Moderno questiona esse diagnóstico. O que eles propõem é ampliar a lente.
Enquanto indicadores tradicionais ajudam a compreender renda, emprego e distribuição econômica, sinais emitidos pela própria economia real revelam outra dimensão da riqueza brasileira – aquela formada por patrimônio, ativos, empresas familiares, imóveis, investimentos e novos polos de desenvolvimento espalhados pelo país.
Em outras palavras, compreender a economia brasileira contemporânea exige observar não apenas quanto as pessoas ganham, mas também o que acumulam, onde investem e como consomem.
Talvez seja justamente nesse ponto que patrimônio e mercado premium deixem de ser apenas temas de luxo para se tornarem instrumentos importantes de leitura econômica.
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Esta reportagem faz parte de uma série especial da Consumidor Moderno sobre riqueza, patrimônio e os novos sinais da economia brasileira.
Na primeira reportagem da série, mostramos por que renda e patrimônio contam histórias diferentes e por que medir riqueza se tornou um desafio crescente para economistas, tributaristas e pesquisadores. Leia ➡️ O Brasil tem mais ricos do que os números mostram?



