Marcas próprias deixam de disputar apenas preço e redefinem a estratégia do varejo

Fonte: Bianca Alvarenga

Já foi o tempo em que as marcas próprias eram associadas principalmente a preços menores. Hoje, elas ocupam uma posição cada vez mais estratégica no varejo: passaram a ser utilizadas pelas redes para fidelizar clientes, ampliar a diferenciação e conquistar espaço em novas categorias.

Por outo lado, depois de anos marcados por inflação elevada, perda de poder de compra e mudanças nos hábitos de consumo, o cliente passou a fazer escolhas menos baseadas em tradição e mais orientadas pela relação entre custo, qualidade e confiança.

Segundo levantamento global da NielsenIQ realizado em 25 países, 69% dos consumidores acreditam que as marcas próprias oferecem excelente custo-benefício, enquanto 68% consideram esses produtos boas alternativas às marcas tradicionais. Além disso, 58% afirmam que a marca deixou de ser determinante na decisão de compra: o importante é encontrar um produto que atenda às necessidades.

Essa mudança de comportamento levou grandes varejistas brasileiros a ampliar seus investimentos em marcas próprias. Ao lançar linhas exclusivas, as redes conseguem oferecer itens que não podem ser encontrados nos concorrentes, fortalecem a fidelização dos consumidores e ampliam sua capacidade de responder rapidamente às mudanças de comportamento do mercado.

O Assaí Atacadista, por exemplo, ampliou recentemente sua estratégia de marcas próprias com o lançamento de duas novas bandeiras: Assaí, voltada ao consumidor final, e Assaí Chef, direcionada aos pequenos empreendedores e ao food service. A empresa também reformulou a Econobom, sua marca de primeiro preço.

Segundo Loiane Silveira, diretora de Marcas Próprias do Assaí, a iniciativa faz parte de uma estratégia de longo prazo. “As marcas próprias representam um novo passo na nossa estratégia e uma importante avenida de crescimento sustentável a longo prazo, conectando nossa escala, eficiência operacional e profundo conhecimento do cliente.”

Categorias de alto consumo orientam lançamentos

Silveira afirma que a estratégia começa pelas categorias de maior giro e presença no cotidiano dos consumidores, mas também por novas ocasiões de consumo para ampliar o portfólio.

“Priorizamos categorias que possuam alta penetração e alto giro no cotidiano dos nossos clientes”, explica. Entre os lançamentos recentes está a linha de vegetais congelados do Assaí Chef Profissional, voltada principalmente ao segmento de alimentação fora do lar.

De acordo com Loiane, a estratégia também considera aspectos como qualidade, embalagens adequadas e competitividade.

“O desenvolvimento das nossas marcas próprias visa fortalecer a competitividade e a eficiência na nossa relação comercial com os fornecedores e as indústrias parceiras. Acreditamos que um portfólio diversificado em nossas lojas atrai ainda mais fluxo de clientes, o que beneficia todo o ecossistema de fornecimento”, explica.

Além dos produtos de consumo recorrente, o Assaí também acompanha sazonalidades e ocasiões específicas para ampliar seu portfólio. Um exemplo são os lançamentos voltados para momentos de confraternização, como discos com mix de amendoins e versões tradicional e picante de pão de alho comercializadas sob a marca Assaí.

“O objetivo do Assaí não é reduzir o espaço da indústria, mas oferecer mais opções ao cliente e fortalecer sua própria competitividade”, diz a executiva.

Loiane Silveira, diretora de Marcas Próprias do Assaí

Marcas próprias ganham novos atributos

No Grupo Pão de Açúcar (GPA), as marcas próprias também deixaram de ser sinônimo de preço baixo para ocupar diferentes nichos de consumo.

O grupo estruturou um portfólio segmentado, que reúne marcas voltadas para perfis distintos de consumidores. A Taeq concentra produtos ligados à saudabilidade; a Qualitá atua em diversas categorias de alimentos, higiene, limpeza e cuidados com a casa; a marca Pão de Açúcar atende ao segmento gourmet e premium; enquanto a Club des Sommeliers reforça a atuação da companhia no mercado de vinhos.

Segundo Anderson Gonçalves de Brito, gerente de Desenvolvimento de Marcas Exclusivas do GPA, o objetivo é oferecer uma proposta de valor que vá além da economia.

“O consumidor já não precisa escolher entre preço e qualidade. Hoje ele encontra ambos reunidos na mesma proposta de valor. Exatamente por isso, percebemos um cliente muito mais aberto a experimentar produtos que entreguem qualidade, inovação, saudabilidade, conveniência e uma experiência diferenciada”, diz Brito.

Para chegar a esse resultado, o desenvolvimento de um novo produto pode levar até dois anos, passando por testes laboratoriais, avaliações sensoriais e um processo conjunto de desenvolvimento com fornecedores.

Para o executivo, essa arquitetura permite acompanhar diferentes jornadas de consumo e responder às novas demandas do mercado. Para isso, a Inteligência Artificial é decisiva ao apoiar o entendimento do que é apenas tendência e o que é demanda real.

“O desenvolvimento das nossas marcas próprias parte de uma leitura contínua do comportamento do consumidor. Utilizamos dados e inteligência de mercado para identificar oportunidades de inovação, ajustar o portfólio e desenvolver produtos que tragam diferenciação dentro de categorias já consolidadas”, explica Brito.

Apesar do avanço da IA e da personalização no varejo, o futuro das marcas próprias dependerá da construção de vínculos mais fortes com os consumidores. A Circana, consultoria global especializada em inteligência de mercado e comportamento do consumidor, aponta que a Geração Z já lidera essa transformação, com maior percepção de qualidade e forte engajamento com essas marcas nas redes sociais.

O avanço também é global

O fortalecimento das marcas próprias também avança para além dos supermercados. Empresas de diferentes segmentos têm apostado na estratégia para oferecer produtos exclusivos e fortalecer o relacionamento com os clientes.

A Amazon reúne linhas próprias em diversas categorias com a Amazon Basics, a Renner aposta na Alchemia para ampliar sua presença na perfumaria de nicho e a RD Saúde expande o papel da Needs, que ganhou espaço além dos itens tradicionais de higiene e cuidados pessoais.

Nos Estados Unidos, grandes redes como Walmart, Costco, Kroger e Target também vêm ampliando seus portfólios exclusivos como estratégia para diferenciar a oferta, fidelizar clientes e aumentar a competitividade.

Os números reforçam essa tendência. De acordo com relatório da Private Label Manufacturers Association (PLMA), com dados da Circana, as marcas próprias continuaram ganhando espaço no primeiro semestre de 2026 e superaram as marcas nacionais na principal métrica do setor: o volume de produtos vendidos.

Nos primeiros seis meses do ano, as vendas em unidades de marcas próprias cresceram 0,2%, enquanto as das marcas nacionais recuaram 0,5% em relação ao mesmo período do ano anterior. Com esse desempenho, a participação de mercado das marcas próprias atingiu 23,8%, o maior patamar já registrado pela série histórica da Circana.

Um consumidor menos fiel às grandes marcas

A expansão das marcas próprias acompanha uma mudança importante no comportamento de compra. A fidelidade às marcas tradicionais perdeu força à medida que os consumidores passaram a avaliar mais a experiência de uso do que o nome estampado na embalagem.

Dados da NielsenIQ mostram que 58% dos consumidores afirmam comprar hoje mais variedade de marcas do que compravam anteriormente, enquanto 65% acreditam que conseguem encontrar produtos capazes de atender às suas necessidades independentemente do fabricante.

O resultado é um consumidor mais aberto a testar produtos de marca própria, um fator que tem contribuído para a expansão da categoria.

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