Sintomas, sentimentos e dúvidas sobre ansiedade e depressão estão entre os temas levados aos chatbots, que ficam disponíveis a qualquer hora e podem ser acessados sem o custo de uma consulta. Quando a situação exige uma decisão mais delicada, porém, a relação de confiança com a tecnologia muda.
Uma pesquisa realizada pela Doctoralia com 3.903 usuários da plataforma mostra que 70% dos brasileiros já usaram ou considerariam usar um aplicativo ou chatbot de Inteligência Artificial para lidar com uma questão emocional ou psicológica. Diante de uma crise de ansiedade forte, entretanto, apenas 4% afirmam que recorreriam primeiro à IA. O psicólogo ou psiquiatra seria a primeira opção para 39% dos entrevistados.
Em entrevista à Consumidor Moderno, Flavia Soccol, Diretora Global de Patient Care da Doctoralia, explica que a diferença está no tipo de necessidade que o paciente apresenta. Segundo ela, a IA pode ajudar a organizar informações e responder dúvidas do cotidiano, mas situações de crise demandam uma dimensão humana que a tecnologia ainda não consegue reproduzir.
“A tecnologia, por mais avançada que seja, ainda não consegue substituir a empatia e o direcionamento que um profissional médico ou terapeuta provê à um paciente em tal situação”, afirma.
Entre os entrevistados, 63% dizem que não confiariam em um diagnóstico de ansiedade ou depressão feito exclusivamente por IA. Além disso, entre aqueles que receberam uma orientação da ferramenta e levaram o resultado para avaliação de um profissional de saúde mental, 47% foram informados de que a resposta estava errada ou poderia representar um risco.
Acesso ao cuidado ajuda a explicar adesão
O avanço da IA na saúde mental também está relacionado a uma dificuldade anterior à própria tecnologia: o acesso ao cuidado. Disponibilidade 24 horas e custo são os dois principais motivos citados por quem já utilizou ou consideraria utilizar a ferramenta. Juntos, representam 57,4% das respostas: 31,2% apontam a disponibilidade permanente e 26,2%, o custo. A vergonha de conversar com outra pessoa aparece em terceiro lugar, com 14%.
Para Flavia, a combinação entre acesso imediato e ausência de custo ajuda a explicar por que a IA se torna uma alternativa atraente, principalmente para quem encontra barreiras para buscar acompanhamento profissional.
“No Brasil, o acesso à saúde ainda é limitado a uma parcela pequena da população que tem poder aquisitivo para buscar suporte em saúde mental”, afirma. Segundo ela, embora existam alternativas no sistema público, o acesso pode envolver espera e procedimentos burocráticos.
A executiva também chama atenção para o horário em que muitas dessas necessidades aparecem. Sentimentos relacionados à saúde mental podem surgir durante períodos de solidão ou fora do horário comercial, justamente quando não há um profissional disponível de forma imediata.
“A questão do imediatismo entra nos momentos em que as pessoas têm uma maior tendência a encontrar a necessidade do suporte ou sentimentos que têm maior tendência de surgir em momentos de solidão e fora dos horários comerciais, o que explica o comportamento de acesso à IA para sanar dúvidas ou pedir auxílio em questões correlatas à saúde mental”, explica.
Nesse contexto, a IA ocupa um espaço de disponibilidade que o atendimento tradicional nem sempre consegue preencher. A própria pesquisa mostra, porém, que essa utilização pode levar o paciente até o cuidado profissional. Entre os que já recorreram à ferramenta para uma questão emocional, 47% afirmam ter sido incentivados pela IA a buscar acompanhamento humano. Apenas 15% consideraram a conversa com a tecnologia suficiente.
Paciente chega ao consultório com informação produzida por IA
A mudança também aparece dentro do consultório. A pesquisa realizada pela Doctoralia com mais de 1.700 psicólogos e psiquiatras mostra que 37% dos psiquiatras já tiveram pacientes pedindo ajuste de medicação com base em uma sugestão feita por Inteligência Artificial. Entre os psiquiatras, 47,1% relatam que pacientes chegaram à consulta com uma hipótese diagnóstica sugerida por IA em uma parcela dos atendimentos dos últimos seis meses.
Para Flavia, a dinâmica não surgiu com a IA. Antes dos chatbots, pacientes já chegavam aos consultórios depois de pesquisar sintomas e possíveis diagnósticos na internet.
“Hoje falamos em IA, porém antes tínhamos o Google”, afirma. A diferença é que a nova tecnologia pode oferecer respostas mais estruturadas e personalizadas, o que aumenta a necessidade de preparo dos profissionais para lidar com pacientes que chegam à consulta munidos de informações e argumentos.
“Isso muda o papel dos profissionais que terão de ter muito mais preparo, empatia, resiliência e tranquilidade para endereçar as perguntas que já vêm respondidas pela IA”, diz. Para ela, a construção de uma relação de confiança passa pela capacidade do profissional de explicar os motivos de determinada conduta e discutir alternativas com o paciente.
A relação deixa de ser baseada apenas na autoridade do especialista. O paciente passa a participar mais ativamente das decisões sobre o próprio cuidado, levando informações externas e questionando recomendações.
Tecnologia como porta de entrada
O desafio para empresas de saúde, portanto, está em desenhar uma experiência na qual a IA facilite o acesso sem criar a impressão de que uma resposta automatizada equivale a um diagnóstico ou tratamento.
“O papel da tecnologia nessa jornada deve ser o de aproximar o paciente do cuidado, e não o de substituí-lo”, afirma Flavia. Para ela, a IA pode ajudar o usuário a organizar o que está sentindo, perceber que determinado sintoma merece atenção e encontrar o profissional adequado.
O ponto de atenção aparece quando a conversa termina com uma resposta apresentada como definitiva. Nesse caso, o paciente pode interpretar a interação como suficiente e adiar a busca por atendimento.
A orientação da executiva é que as empresas deixem explícitos os limites da tecnologia e ofereçam uma transição simples para o atendimento humano. Isso inclui facilitar a busca por especialistas, o agendamento de consultas presenciais ou online e o acesso a informações confiáveis.
“Na Doctoralia, acreditamos que a tecnologia deve tornar a experiência de saúde mais humana”, afirma. “Quem conduz o cuidado, porém, deve ser sempre o profissional.”
A discussão ganha relevância diante do avanço das normas para o uso de IA na medicina. A Resolução CFM nº 2.454/2026, estabelece que a decisão diagnóstica, terapêutica e prognóstica final permanece sob responsabilidade do médico e determina que o paciente seja informado quando a tecnologia for utilizada em seu atendimento.
A pesquisa também mostra que os próprios profissionais defendem regras para o uso da tecnologia. Entre os entrevistados, 58,9% dos psicólogos e 59,2% dos psiquiatras afirmaram que a IA generativa em saúde mental deveria ser regulamentada por lei, com regras claras, e não apenas por autorregulação do mercado.
Nesse contexto, a Inteligência Artificial passa a ocupar um espaço específico na jornada de saúde mental: o de ferramenta de acesso, informação e orientação inicial. A decisão sobre diagnóstico e tratamento, especialmente em situações de maior vulnerabilidade, permanece vinculada à relação entre paciente e profissional.







