A indústria de consumo entra em uma nova fase de adoção da Inteligência Artificial (IA). A tecnologia deixa de ser apenas objeto de testes e pilotos e passa a ganhar escala dentro das operações, segundo o estudo ‘State of AI in the Consumer Industry: The untapped edge‘, da Deloitte. A pesquisa contou com a participação de 963 líderes de negócios e de tecnologia de empresas da indústria ao redor do mundo, e revela também uma aposta forte do mercado na próxima geração de IA, com destaque para agentes autônomos, robótica e automação física.
A maioria das organizações, no entanto, ainda não redesenhou processos, funções e modelos de trabalho para capturar todo o potencial da tecnologia. O acesso dos profissionais a ferramentas de IA dobrou em um ano, passando de menos de 30% para cerca de 60% da força de trabalho, e as empresas aceleram a migração de projetos-piloto para aplicações em produção. Mesmo assim, a lacuna entre adoção e geração de valor segue significativa. Hoje, apenas 25% de quem tem acesso à IA utiliza a tecnologia em mais de 60% de sua rotina de trabalho, e só 18% das empresas já veem aumento de receita atribuído à IA, ante 75% que esperam esse resultado no futuro.
Ao mesmo tempo, desafios ligados à governança, à qualificação de talentos e à infraestrutura seguem como os principais obstáculos para transformar o avanço da IA em impacto efetivo e sustentável para os negócios. Apenas 20% das empresas afirmam ter um modelo maduro de governança para agentes autônomos, mesmo com 73% planejando adotar IA agêntica nos próximos dois anos, e 82% ainda não redesenharam cargos e funções para capturar o potencial da tecnologia.
“A indústria de consumo está deixando de tratar a IA como experimento e começando a colocá-la no centro da operação, mas essa passagem exige mais do que ferramenta disponível. Governança, capacitação de times e uma infraestrutura de dados robusta vão definir quem realmente converte esse avanço em resultado”, afirma Paulo de Tarso, sócio-líder para a indústria de Consumer da Deloitte.
Hoje, pouco mais de duas em cada 10 empresas da indústria afirmam ter levado 40% ou mais de seus experimentos de IA à produção, e metade espera alcançar esse patamar nos próximos três a seis meses. Na prática, o salto do piloto para a operação em escala esbarra em integração com sistemas legados, revisões de segurança, monitoramento contínuo e a exigência de que os casos de uso funcionem de forma confiável em diferentes canais, marcas e países, muitas vezes em tempo real.
Setores que mais avançaram e a IA física
O estudo também identifica diferentes níveis de transformação entre as empresas da indústria. Um pouco mais de um terço (35%) já usa a IA para transformar profundamente produtos, processos e modelos de negócio, 28% redesenham processos-chave ao redor da tecnologia mantendo o modelo de negócio como está, e 37% ainda aplicam a IA de forma pontual, sem mudanças relevantes nos processos existentes.
Na comparação entre setores, o de consumo (com 35% em transformação profunda) supera energia, recursos e industrial (23%) e serviços financeiros (31%), empata com ciências da vida e saúde (35%) e fica atrás apenas de tecnologia, mídia e telecomunicações (41%).
O estudo dedica atenção especial à chamada IA física, categoria de sistemas que percebem o ambiente real, tomam decisões e acionam robôs, máquinas ou equipamentos automatizados. Segundo o estudo, 65% das empresas já utilizam IA física em algum grau, e a expectativa é de que esse percentual chegue a 87% em dois anos. O índice coloca a indústria na liderança da adoção de IA física entre as indústrias analisadas, à frente de segmentos como tecnologia, mídia e telecomunicações, saúde e serviços financeiros, reforçando o avanço de robótica e automação nas operações de consumo.
O custo mais alto, os ciclos de desenvolvimento mais longos e as exigências regulatórias e de segurança próprias da automação física são alguns dos entraves para uma adoção maior. Entre os tipos de IA física com maior impacto esperado na indústria estão o varejo conectado por IoT (26%), a logística autônoma (22%) e a robótica colaborativa (20%), soluções hoje concentradas em centros de distribuição, hubs de micro-fulfillment e “dark stores”, e não em lojas físicas voltadas ao consumidor final.
“A indústria de consumo lida historicamente com grande volume, margens apertadas e uma cadeia logística complexa, o que ajuda a explicar por que a automação física avança tanto em centros de distribuição e operações de fulfillment. O próximo passo é levar parte dessa disciplina para a loja e para o contato direto com o cliente, onde o comportamento humano ainda impõe limites à automação”, avalia Paulo de Tarso.
Agentes autônomos avançam mais rápido que a governança
A adoção de agentes de IA, sistemas capazes de definir metas, executar tarefas em múltiplas etapas e agir com autonomia, deve crescer de forma acelerada na indústria. Hoje, 24% das empresas utilizam agentes de IA de forma ao menos moderada. Em dois anos, essa proporção deve chegar a 73%, sendo 23% com uso extensivo e 4% com integração total aos processos, o que confirma a aposta forte nessa nova geração de ferramentas autônomas.
Apesar da corrida por adoção, apenas uma em cada cinco empresas (20%) afirma ter um modelo maduro de governança para agentes autônomos. Os riscos que mais preocupam os líderes da indústria estão concentrados em privacidade e segurança de dados (75%), seguidos por qualidade, consistência e explicabilidade dos modelos (48%), capacidade de governança e supervisão (47%) e conformidade legal, regulatória e de propriedade intelectual (46%).
Os dados reforçam o principal desafio apontado pela pesquisa: enquanto as empresas aceleram a adoção de agentes autônomos e ampliam o acesso dos profissionais à IA, a preparação de processos, estruturas de governança e modelos de trabalho ainda avança em ritmo mais lento. Como os agentes de IA podem influenciar diretamente preços, promoções, alocação de estoque e comunicação com clientes, falhas de governança tendem a se traduzir rapidamente em risco para a marca, para as margens e para a conformidade regulatória.
A localização da tecnologia também ganhou peso nas decisões estratégicas. Para 81% das empresas do segmento, a chamada IA soberana – o desenvolvimento e a operação de IA sob legislação, infraestrutura e governança do próprio país ou região – é ao menos moderadamente importante no planejamento estratégico, e 78% já consideram a origem da solução na escolha de fornecedores. Mais da metade (53%) monta hoje sua stack de IA priorizando fornecedores locais.
“A indústria de consumo está diante de uma oportunidade concreta de repensar como opera, compete e cresce a partir da IA. Capturar esse potencial depende de investimento contínuo em infraestrutura e dados, de qualificação real dos times e de uma governança capaz de acompanhar a velocidade dos agentes autônomos. As empresas que avançarem nesses três pilares ao mesmo tempo tendem a se diferenciar da concorrência”, conclui Paulo de Tarso.
Força de trabalho não acompanha o ritmo
Sobre o trabalho, o sentimento dos profissionais em relação à IA ainda é moderado. Apenas 13% se dizem altamente entusiasmados e buscam usar a tecnologia de forma proativa, 56% estão ao menos abertos a explorá-la, 19% preferem não utilizá-la mas o fariam se exigido, e 5% evitam a ferramenta de forma ativa. A expectativa de automação, por sua vez, segue crescente. Em um horizonte de três anos, ela chega à grande maioria das empresas da indústria (82%).
Para os líderes pesquisados, a insuficiência de habilidades da força de trabalho é a maior barreira à integração da IA. Menos da metade das empresas, porém, promove ajustes mais profundos em suas estratégias de talentos. A maioria concentra esforços em capacitar o time (54%) e em programas de upskilling e reskilling (49%), enquanto ações mais estruturais, como redesenhar cargos e trajetórias de carreira (32%) ou revisar os níveis de contratação de talentos especializados (35%), aparecem com menor frequência. Mais da metade (54%) das empresas já avalia modelos organizacionais mais horizontais, com menos camadas de supervisão, mas apenas 17% avançaram de forma consistente nessa direção.
Principais insights do estudo
- O acesso dos trabalhadores à IA dobrou em apenas um ano, passando de menos de 30% para cerca de 60% da força de trabalho com ferramentas de IA, segundo o estudo “State of AI in the Consumer Industry: The untapped edge”, da Deloitte;
- 73% das empresas de consumo pretendem adotar IA agêntica nos próximos dois anos, mas apenas 20% dizem ter um modelo maduro de governança para agentes autônomos;
- 82% das empresas ainda não redesenharam cargos e funções em torno da IA, apesar de 37% acreditarem que ao menos 10% dos empregos serão totalmente automatizados já no próximo ano;
- 65% das empresas já utilizam IA física, como robótica e automação industrial, índice que deve chegar a 87% em dois anos e representa uma das maiores taxas de adoção entre os setores analisados;
- Apesar do otimismo com a tecnologia, apenas 18% das empresas já veem aumento de receita com IA, enquanto 75% esperam esse resultado no futuro.







