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IA no atendimento: eficiência depende de resolver, não de reter cliente

Fonte: Danielle Ruas
  • 24/09/2026

IA no atendimento: eficiência depende de resolver, não de reter cliente/Foto: Rodrigo Sodré

Fato é que a Inteligência Artificial pode atender mais rápido, automatizar tarefas e ampliar a produtividade. Mas nenhuma dessas vantagens importa muito para o consumidor se, no fim da jornada, seu problema continuar sem solução. É nesse ponto que eficiência e frustração começam a se separar.

Nesse ínterim, à medida que a IA ocupa mais espaço no atendimento, empresas enfrentam um novo desafio: decidir quando automatizar, quando antecipar uma necessidade e quando abrir caminho para uma pessoa.

“Essa discussão hoje é muito menos sobre máquina versus humano e muito mais sobre resolução versus frustração”, resumiu Elisa Midori Moreira, co-founder & COO/CXO da IUVO.

Ela mediou o painel “IA no atendimento: solução, eficiência ou um novo labirinto?”, na Arena A Era do Diálogo, dentro no CONAREC 2026. O debate reuniu Luiz Orsatti Filho, diretor-executivo do Procon-SP; Gustavo Morais, CDO da AeC; Thayane Luna, superintendente de Experiência e Produtos Digitais da CNP; e Paula Gomes, gerente-executiva do banco BV.

As diferentes experiências apontaram para uma mesma direção: colocar IA na jornada não significa, automaticamente, melhorar a experiência.

Tecnologia precisa começar pela dor

Para Gustavo Morais, a tecnologia deve entrar no atendimento para solucionar um problema concreto. O raciocínio inverte uma prática ainda comum: adotar uma ferramenta e, depois, procurar onde aplicá-la. “A tecnologia tem que sempre entrar para resolver alguma dor, algum pain point ali no processo da jornada”, afirmou.

Isso também muda a discussão sobre custos. Segundo Morais, uma IA sofisticada inserida em uma jornada mal desenhada pode, inclusive, aumentar despesas. Por isso, a AeC olha para a tecnologia também como ferramenta de apoio aos profissionais. A IA pode atuar em treinamento, análise das interações e suporte durante o atendimento.

Nesse modelo, automação e relacionamento humano não ocupam lados opostos. “A gente foca muito na relação humana”, disse Morais. Segundo ele, a tecnologia pode preparar melhor o profissional para uma interação rápida, simpática e resolutiva.

Essa lógica também vale para o transbordo entre IA e humano. Se o consumidor precisa lutar para escapar da automação, o desenho já começou errado. “Se a gente precisar fazer o desenho para reter o consumidor, já começou a errar”, afirmou.

O consumidor não quer outro obstáculo

A perspectiva dos órgãos de defesa do consumidor adiciona uma exigência básica à equação: a ferramenta precisa funcionar para quem está do outro lado.

Para Luiz Orsatti Filho, diretor-executivo do Procon-SP, a transformação tecnológica já faz parte das relações de consumo. No entanto, ela não pode criar mais uma dificuldade. “O consumidor é a parte principal do que a gente está conversando. Muita gente tem solução de gabinete, solução de técnica, mas quem está na rua? Quem paga essa conta é o consumidor”, afirmou.

Segundo dados apresentados por Orsatti, 25% das reclamações relacionadas ao atendimento no Procon-SP têm ligação direta com sistemas. Entre os problemas estão ferramentas que não atendem, travam ou simplesmente não resolvem a demanda apresentada.

Para ele, a tecnologia muda, mas uma velha insatisfação permanece. “Antes era por telefone, por e-mail, agora pelo uso de uma Inteligência Artificial pela empresa”, comparou.

A IA, portanto, não pode representar uma nova etapa que o consumidor precisa superar para exercer um direito. “A ferramenta é uma ferramenta. Ela deve nos atender. Ela não deve ser, para o consumidor, mais uma questão que ele deve superar.”

O humano pode se tornar especializado

A automação das demandas simples também pode mudar profundamente a função das centrais de atendimento.

Para Thayane Luna, da CNP, tarefas transacionais tendem a migrar cada vez mais para ambientes digitais. Ao humano restariam situações excepcionais e de maior complexidade. Nesse cenário, permitir a saída da automação se torna essencial. “A gente precisa, inclusive, dessa porta de entrada para o atendimento humano, para ser transbordado. Não deixar ele perdido num labirinto”, afirmou.

A mudança também altera o perfil do profissional de atendimento. Se segunda via, consultas e outras solicitações simples forem automatizadas, a pessoa assumirá problemas que exigem mais conhecimento e autonomia.

“Eu brincaria que a gente não vai ter mais o primeiro nível de atendimento. A gente só vai trabalhar com o segundo nível”, disse.

Consequentemente, alguns indicadores tradicionais podem perder protagonismo. Para Thayane, o futuro tende a exigir menos preocupação com o tempo médio de atendimento e mais atenção à capacidade de solucionar situações complexas. “Provavelmente, o que elas vão ter não é um problema de TMA. É sobre a resolutividade.”

A própria IA pode participar dessa transformação. Além de atender consumidores, a tecnologia pode ajudar a treinar profissionais para lidar com casos cada vez mais especializados.

Tecnologia abre espaço para empatia

Na ouvidoria, essa divisão de tarefas ganha outro significado. O consumidor costuma chegar ao canal depois de tentativas anteriores e, muitas vezes, já carrega frustração. Por isso, Paula Gomes, do banco BV, vê a automação como uma forma de liberar pessoas para aquilo que exige capacidade humana.

“Quanto mais tecnologia eu colocar no meu processo, mais sobra espaço para o relacionamento humano”, afirmou.

A IA pode organizar informações, recuperar o histórico da jornada e até identificar o nível de atrito. Assim, o analista recebe contexto antes de iniciar a interação.

Mas existe um limite. “Por mais que você coloque prompts para trazer empatia, fazer uma resposta empática, isso não é um sentimento humano”, afirmou.

De acordo com Paula, o humano continua necessário para fazer a curadoria, interpretar regras de negócio, negociar e compreender situações particulares. Essa visão também orienta a implementação da tecnologia. Antes de adicionar IA, a empresa precisa organizar processos e informações.

“O grande aprendizado foi que a IA sozinha não resolve nada”, afirmou.

Para ela, dados estruturados, fluxos revisados e equipes preparadas são condições para obter respostas melhores e mais padronizadas. Além disso, a transformação exige mudança cultural. Os profissionais precisam entender que a IA não necessariamente elimina o trabalho, mas pode mudar sua natureza.

A empresa deve saber a hora de tirar a IA

Conhecer o consumidor também significa reconhecer que nem todos percorrem uma jornada digital da mesma maneira. Há diferenças de familiaridade tecnológica, capacidade de compreensão e contexto emocional. Um mesmo cliente também pode reagir de maneiras diferentes conforme a situação enfrentada.

Por isso, Paula defendeu que a responsabilidade pelo transbordo não seja colocada apenas sobre o consumidor. “O humano precisa intervir. Não necessariamente o humano tem que ser pedido”, afirmou.

Cabe também à empresa identificar quando a automação deixou de funcionar e direcionar o consumidor para outro tipo de atendimento. Essa capacidade ganha importância à medida que a IA assume mais tarefas. Afinal, eficiência não significa manter o cliente dentro do canal automatizado pelo maior tempo possível.

Significa identificar o caminho mais adequado para resolver sua demanda.

Da reação à prevenção

A Inteligência Artificial também pode alterar o momento em que o atendimento começa. Nesse sentido, na visão de Thayane, tecnologias preditivas e dispositivos conectados podem permitir que empresas reconheçam determinadas necessidades antes mesmo do contato do consumidor.

No setor de seguros, por exemplo, dados gerados por dispositivos conectados podem ajudar a identificar um evento e iniciar uma interação de forma proativa. A mudança leva o atendimento de uma lógica reativa para outra, baseada em antecipação.

Isso exige, porém, capacidade para compreender dados que hoje podem estar fora das jornadas tradicionais. “Talvez o nosso trabalho vá ser antecipar as necessidades”, afirmou Thayane.

O avanço também amplia questões relacionadas à governança, contexto e uso responsável das informações.

IA precisa de contexto, não de mágica

Se a tecnologia oferece novas possibilidades, o entusiasmo também pode produzir projetos sem objetivo claro. Para Gustavo Morais, empresas precisam evitar esse caminho. “Foca na dor”, recomendou.

Em seu parecer, modelos e algoritmos evoluem rapidamente e tendem a oferecer capacidades cada vez mais semelhantes. Por isso, o diferencial passa pelo contexto em que a tecnologia será aplicada. “O que a gente precisa fazer é a engenharia do contexto”, afirmou.

Isso envolve definir onde a IA entra no processo, qual autonomia terá e quando uma pessoa deverá revisar sua atuação. Além disso, Morais recomenda tratar novas aplicações inicialmente como experimentos. “Essas IAs mais novas são tecnologias muito recentes. Então, a gente tem que tratar sempre como experimental no começo.”

Paula acrescentou outro ponto de partida: simplificar processos antes de automatizá-los. “Olhar o seu processo por inteiro, tirar da frente o que é desnecessário e deixar ele mais simples”, recomendou.

Depois vêm a preparação das equipes e o conhecimento sobre quem utilizará aquela jornada. “Conheça o seu cliente”, reforçou.

No fim, a Inteligência Artificial pode transformar profundamente o atendimento. Porém, sua eficiência não será determinada pela quantidade de interações automatizadas. O teste será mais simples: o consumidor conseguiu resolver seu problema ou ganhou apenas um novo labirinto?

  • A Era do Diálogo, AeC, atendimento ao cliente, atendimento humano, automação, Banco BV, CNP, CONAREC 2026, CXCONAREC 2026, Defesa do Consumidor, experiência do consumidor, IA no atendimento, inteligência artificial, IUVO, ouvidoria, Procon-SP

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