Fim da escala 6×1: o desafio de transformar tempo de trabalho em produtividade

Fonte: Benito Pedro Vieira Santos

O trabalhador que encerra seu expediente é também o consumidor que espera encontrar uma loja aberta, receber uma entrega no prazo ou resolver um problema com rapidez. Essa conexão ajuda a compreender por que o fim da escala 6×1 ultrapassa as relações trabalhistas e alcança toda a organização do mercado.

A mudança envolve qualidade de vida, competitividade, formação de preços e capacidade de atendimento. Para as empresas, representa uma revisão da maneira como o trabalho é distribuído e de como os resultados são produzidos.

Em 16 de outubro, o Congresso Nacional promulgou a Emenda Constitucional 141. Segundo a Agência Senado, a transição prevê dois dias de descanso semanal remunerado e redução da jornada máxima para 42 horas após 60 dias da publicação. Um ano depois desse prazo, o limite passa a 40 horas semanais, sem redução salarial. A implementação será, portanto, gradual.

A partir desse novo cenário, o desafio empresarial é preservar a qualidade da operação e a sustentabilidade financeira enquanto reorganiza o tempo de trabalho.

É legítimo reconhecer o valor de mais tempo para descanso, convivência familiar e vida pessoal. Também é necessário compreender que uma mudança dessa dimensão produz impactos diferentes conforme a atividade, o porte e a estrutura de cada organização.

Uma empresa com processos automatizados e demanda previsível tem condições de adaptação distintas das de um negócio que depende de presença física, atendimento contínuo ou equipes especializadas. Mesmo dentro de um único segmento, duas companhias podem enfrentar desafios completamente diferentes.

Uma regra comum precisa ser implementada com atenção a essas diferenças. Segurança jurídica, clareza nas orientações e negociação coletiva, dentro dos limites legais, são fundamentais para reduzir incertezas e organizar a transição.

Em busca do equilíbrio

O primeiro cuidado na análise econômica é distinguir custo por hora de custo total da empresa.

Em uma simulação simples, a passagem de 44 para 40 horas semanais, mantido o mesmo salário, eleva em 10% o custo salarial por hora. Isso não significa aumento automático de 10% na folha, nos custos totais ou nos preços ao consumidor. O efeito final dependerá da necessidade de contratação, da reorganização dos turnos e dos ganhos de produtividade que cada operação conseguir alcançar.

Se for necessário manter exatamente a mesma cobertura de horas, sem ganhos de eficiência, poderá haver necessidade de reforçar equipes. Onde existem retrabalho, ociosidade e atividades mal distribuídas, parte da adaptação poderá ocorrer com melhorias de gestão. Essas possibilidades precisam ser demonstradas por dados.

Também não é possível afirmar, de maneira generalizada, que a mudança produzirá uma onda de contratações ou de demissões. Empresas poderão contratar para completar escalas, investir em tecnologia, reorganizar horários ou rever planos de expansão. A combinação dessas decisões dependerá da demanda, das margens e da disponibilidade de profissionais.

As médias empresas merecem atenção especial. Muitas já operam com a complexidade de grandes organizações, mas dispõem de estruturas de gestão, tecnologia e capital mais limitadas. Para um negócio com margens estreitas, uma despesa adicional recorrente pode reduzir a capacidade de investir e pressionar o caixa.

Por isso, o tema precisa chegar à direção da companhia. Recursos humanos e jurídico são essenciais, mas a adaptação exige também a participação das áreas financeira, operacional, comercial e de tecnologia.

O planejamento deve começar por perguntas objetivas: em quais horários a demanda se concentra? Quais atividades exigem presença contínua? Onde há horas extras recorrentes? Quanto custa atender cada cliente? Quais processos consomem tempo sem agregar valor?

As respostas permitem construir cenários e dimensionar necessidades antes que decisões precipitadas comprometam o negócio.

Para o consumidor, os efeitos aparecerão na prática. Uma transição mal planejada pode gerar filas, atrasos, dificuldade de contato e perda de qualidade. Quando faltam pessoas nos horários de maior demanda, a promessa feita pela marca deixa de ser cumprida.

O movimento contrário também é possível. Equipes com descanso adequado, treinamento e organização podem oferecer um atendimento mais atento e consistente. A empresa deve acompanhar se a nova estrutura contribui para reduzir faltas, rotatividade, erros e reclamações, sem tratar esses ganhos como automáticos.

Adaptação necessária

Há ainda uma possível mudança nos hábitos de consumo. Mais tempo disponível pode abrir espaço para lazer, compras e utilização de serviços em novos horários. Esse potencial dependerá da renda e das escolhas das famílias, mas merece entrar no planejamento comercial.

A tecnologia pode apoiar a adaptação. Sistemas de gestão, automação e Inteligência Artificial ajudam a prever demanda, distribuir tarefas e reduzir atividades repetitivas. Seu valor, porém, depende da qualidade dos processos e das informações utilizadas. Automatizar uma operação desorganizada pode apenas acelerar seus erros.

Produtividade precisa significar mais resultado por hora, com qualidade e condições adequadas de trabalho. Simplesmente concentrar a mesma sobrecarga em menos tempo pode comprometer o propósito da mudança e deteriorar o atendimento.

O acompanhamento da transição deve combinar indicadores financeiros e operacionais com a experiência das pessoas. Margem, caixa e custo por atendimento precisam ser analisados ao lado de horas extras, absenteísmo, rotatividade e satisfação dos clientes.

O fim da escala 6×1 coloca a capacidade de gestão das empresas em evidência. A qualidade dessa transformação dependerá de planejamento, diálogo e execução: trabalhadores precisam usufruir do descanso, empresas precisam sustentar suas operações e consumidores precisam continuar recebendo o que lhes foi prometido.

Em meio ao enorme desafiado, podemos enxergar uma oportunidade de corrigir possíveis erros de gestão, se uma empresa está com margens muito estreitas, este é o momento de precificar corretamente, pois todo mercado o fará.

*Benito Pedro Vieira Santos é CEO do Grupo Avante Assessoria e especialista em governança corporativa, reestruturação empresarial e gestão de crises

Compartilhe:

WhatsApp
Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Telegram
+ Relacionadas