CONAREC 2026 encerra com seis medalhas Olímpicas de ouro e lições sobre liderança e CX

Fonte: Bianca Alvarenga

A medalha olímpica é o resultado que aparece. Antes dela, existem anos de treino, derrotas, cobrança, escolhas difíceis e uma equipe capaz de permanecer unida quando a pressão aumenta. Foi a partir dessa experiência que os bicampeões Olímpicos do vôlei brasileiro Fabi Claudino, Serginho ‘Escadinha’ e Sheilla Castro encerraram o CONAREC 2026, maior congresso de CX do mundo, discutindo o que existe por trás da alta performance.

Mediado pela jornalista esportiva Renata Heilborn, o painel “Mentalidade de Alta Performance: Como se Tornar um Campeão?” levou a discussão para o ambiente corporativo ao lembrar que o desempenho individual só ganha força quando existe trabalho coletivo.

“A Seleção é um time. Ela funciona sempre como um time, seja na quadra, seja no escritório, seja em uma empresa. Trabalhar em time é uma arte”, afirmou Heilborn, durante o painel.

Na Seleção daquela geração, esse trabalho coletivo passava também por uma disposição compartilhada de chegar ao topo. A bicampeã Olímpica Sheilla lembrou que a seleção de sua geração treinava intensamente. “A gente olhava no olho uma da outra e via que todo mundo ali queria ser o melhor do mundo”, contou.

No vôlei, ninguém ganha sozinho. Para um ataque acontecer, alguém precisa receber, outro jogador precisa levantar e outro precisa finalizar. No atendimento, a cadeia é diferente, mas a dependência entre áreas permanece.

Sheilla explica que levou essa experiência para a vida profissional. “Eu podia ser a melhor jogadora de vôlei do mundo, mas eu jamais seria campeã olímpica sozinha”, afirmou.

A ex-capitã da Seleção, Fabi, tem a mesma percepção. Para ela, liderar exige conhecer as pessoas que fazem parte da equipe e entender o que cada uma consegue entregar. “Se eu não entender cada peça individual, para eu tentar explorar o melhor dela ou saber o meu limite, eu não vou conseguir me fortalecer dentro do grupo e não vou conseguir somar”, disse.

“Acho que isso que tornou o nosso grupo um grupo campeão de subir no pódio”, complementa, Fabi.

Sheilla Castro, Fabi Claudino, Renata Heiborn e Serginho ‘Escadinha’/Foto: Bruno Mooca

Cobrança precisa vir acompanhada de confiança

O relacionamento entre cobrança e desempenho sempre acompanhou a trajetória dos atletas. Serginho contou que sua geração tinha uma cultura de cobrança intensa, inclusive com discussões frequentes entre atletas e comissão técnica. O que permitia que esses conflitos não comprometessem o grupo, segundo ele, era a confiança na intenção de quem cobrava. “Nunca duvide da nossa intenção”, afirmou.

‘Escadinha’ explica que a cobrança era sempre pelo melhor. “Era sempre em prol do resultado final, que era o nosso time. Então, quando alguém ganhava o prêmio de melhor do mundo, era a valorização de todas as funções. A gente pensava nisso. Mas a melhor coisa era que a gente não duvidava da intenção do outro”, lembra.

Foi assim que Fabi descreveu um dos momentos mais importantes de sua trajetória como capitã. Mais reservada no início da carreira, ela precisou aprender a se posicionar diante de José Roberto Guimarães, então técnico da Seleção. “Eu tive que ser o mais honesta, o mais transparente, o mais aberta possível.”, contou.

Para Fabi, a experiência mostrou que liderar não significa eliminar a discordância. É preciso criar condições para que ela apareça, sem tirar o grupo do objetivo comum. “Porque eu sei que a gente tinha um objetivo ali comum, tanto com a comissão técnica quanto com as meninas”, comentou.

Preparação reduz a distância entre pressão e resposta

Outro ponto discutido aproximou diretamente o esporte de ambientes de atendimento. Para Sheilla, a pressão não cria uma nova capacidade no momento decisivo. Ela apenas expõe aquilo que foi construído anteriormente.

“Quando a pressão surge, a gente não ativa nenhum botão de emergência”, afirmou. “Quando a pressão surge, a gente está preparado com tudo o que a gente construiu durante dias, meses, anos.”

No relacionamento com clientes, uma crise, uma falha sistêmica, uma reclamação pública ou uma demanda fora do roteiro não permite que a empresa comece a descobrir naquele momento quem deve decidir, qual informação pode ser compartilhada ou até onde o atendente pode ir.

A preparação aparece justamente quando o roteiro deixa de funcionar. Serginho compartilhou essa visão ao falar sobre sua própria rotina. Para ele, não havia negociação com o processo: se o treino durasse dez minutos, aqueles dez minutos precisavam ser feitos no máximo de intensidade possível. “Eu sempre acreditei muito no processo”, disse. “Ganhar e perder no alto nível faz parte do processo, é normal, mas vai e faz o seu melhor”, complementou.

A alta performance não é sinônimo de pressão permanente. Serginho reconhece que o modelo de cobrança de sua geração não necessariamente funcionaria para os atletas de hoje. “Quando você fala em time, trabalha com pessoas e quando você tem propósito, a cobrança é bem-vinda. Mas há pontos de cobrança. A minha geração aguentava a cobrança na base da porrada. Talvez hoje essa geração não aguente e a gente tenha que mudar o diálogo”, afirmou.

Fabi relatou que José Roberto também mudou sua maneira de conduzir a equipe ao compreender melhor as particularidades das atletas. Segundo ela, quando o técnico passou a considerar fatores específicos das mulheres, conseguiu extrair o melhor da equipe de outra maneira. “Ele já conseguiu, ao mesmo tempo, explorar o nosso melhor, mas de uma forma mais delicada”, disse.

O campeão não é quem elimina a pressão

A conexão entre esporte e liderança surgiu quando Serginho falou sobre sua volta à Seleção brasileira em 2016. Aos 41 anos, o jogador retornou não apenas para disputar mais uma Olimpíada. Segundo ele, sua intenção era ajudar os atletas mais jovens a chegar ao título. Para isso, escolheu liderar pelo exemplo.

“Os meninos me viam treinando e falavam assim: a gente não pode treinar menos.”, lembrou. “Foi uma forma que eu achei para que os meninos vissem e falassem: a gente tem que treinar dessa maneira”, contou

Um líder não entrega apenas o próprio resultado. Ele influencia o padrão de comportamento que permanece depois que deixa a equipe. Serginho resumiu essa ideia ao falar sobre legado: “Não adianta você ganhar todos os títulos e você não ser uma boa pessoa, deixar um legado.”

Os três atletas chegaram a respostas diferentes para uma mesma pergunta: o que torna alguém um campeão?

Para Serginho, é acreditar no processo. Para Sheilla, é ter coragem para atravessar o desconforto e continuar preparado. Fabi resumiu a própria experiência na confiança sobre aquilo que cada pessoa é capaz de fazer nos momentos mais difíceis.

“Acreditar em você mesma. Acho que, a partir do momento em que a gente acredita na gente e no que nós somos capazes de fazer nos momentos mais difíceis, nos momentos em que todo mundo coloca a gente à prova, acho que, para mim, a gente se torna campeão, independentemente de qualquer coisa. Só eu sou capaz de saber onde posso chegar.”, disse Fabi.

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