Singapura é o país que reúne um dos ecossistemas financeiros e digitais mais avançados da Ásia e do mundo. Por lá, mesmo com a expansão dos pagamentos instantâneos, a modalidade não representa necessariamente o fim dos cartões.
A afirmação parte de um estudo recente da Nuvei. Mesmo com o PayNow, sistema de pagamentos instantâneos criado pela Associação de Bancos de Singapura com apoio das autoridades e dos principais bancos do país, os cartões de crédito em Singapura devem continuar liderando as compras online.
No país, a participação dos cartões de crédito no e-commerce deve passar de 56% em 2024 para 57% em 2028. Enquanto as transferências bancárias, impulsionadas principalmente pelo PayNow, devem subir de 8% para 9% no mesmo período. Já a participação dos cartões de débito deve recuar de 21% para 18%.
A jornada determina a forma de pagamento
Os números do estudo apontam para um cenário interessante. Cartões, carteiras digitais e pagamentos instantâneos entre contas coexistem e atendem a diferentes necessidades durante a jornada de compra. Segundo Daniel Moretto, vice-presidente sênior da Nuvei para a América Latina, Singapura mostra que a evolução dos pagamentos não acontece necessariamente pela substituição de um meio por outro. Mas se dá pelo comportamento do cliente.
“Mesmo em um dos ecossistemas de pagamentos instantâneos mais avançados da Ásia, os cartões continuam relevantes, enquanto carteiras digitais e transferências entre contas ganham espaço. Para as empresas, o desafio é entender o papel de cada opção e oferecer a combinação que melhor atende ao consumidor em cada jornada de compra”, avalia Daniel.
PayNow amplia a experiência
Por outro lado, o PayNow avança em Singapura como uma infraestrutura compartilhada que conecta bancos, consumidores, empresas e sistemas de pagamentos instantâneos de outros países. O sistema já possui conexões com o PromptPay, da Tailândia; o DuitNow, da Malásia; e a UPI, da Índia. Somente a integração com o sistema indiano já é suportada por 19 bancos participantes no país.
Do ponto de vista da experiência, Xiaoxi Zhang, head de Produto da Nuvei para a Ásia-Pacífico, diz que o PayNow é muito simples e atrativo para o consumidor. “Basta ter um número de telefone ou um código QR para pagar pessoas ou estabelecimentos. Por ser um sistema no qual o pagamento é iniciado pelo próprio pagador, também reduz determinados riscos de fraude”, afirma. Além disso o PayNow geralmente oferece tarifas inferiores às das redes de cartões. Depois de habilitado no sistema, um estabelecimento pode receber pagamentos de clientes de qualquer banco participante.
Limitar a opções é interromper o consumo
Em análise, os dados do estudo nos mostram que limitar os meios de pagamento pode criar atrito justamente no momento em que a intenção de compra é mais alta. Em muitos casos, o consumidor não está decidindo se concluirá a transação, mas qual opção de meio de pagamento oferece a melhor combinação de conveniência, velocidade e benefícios para que possa decidir pela compra.
Ou seja, cada vez mais, a variedade de opções de meios de pagamento no checkout deve ser tratada hoje pelas empresas como uma alavanca de conversão, e não apenas como uma linha de custo.
Outro dado interessante do estudo diz respeito ao comportamento do cliente que vai ao encontro dessa variedade de meios de pagamento. Hoje a marca precisa acompanhar o perfil altamente digitalizado do consumidor. Segundo o estudo, em Singapura, 85% dos compradores realizam compras pelo smartphone e 67% utilizam aplicativos de marketplaces. Apesar do elevado poder aquisitivo do país, o preço e a percepção de valor continuam influenciando as decisões: 54,3% apontam o frete grátis como estímulo à compra, enquanto 42,6% são atraídos por descontos e cupons.
Entre os consumidores que compram de outros países, 54% buscam preços melhores, 48% procuram produtos indisponíveis no mercado local e 39% querem conhecer produtos novos e interessantes.
O estudo ressalta que aproximadamente 40% da população de Singapura nasceu no exterior, característica que contribui para a familiaridade com marcas internacionais e reduz algumas das barreiras de confiança normalmente enfrentadas pelo comércio transfronteiriço.
Semelhança com o Brasil
A experiência de Singapura para outros mercados e países mostra que pagamentos instantâneos, carteiras digitais e cartões podem crescer de maneira complementar. Enquanto as transferências em tempo real oferecem liquidação imediata e custos geralmente menores, os cartões continuam relevantes por causa do acesso ao crédito, do parcelamento e de benefícios em alguns casos.
Daniel Moretto, da Nuvei, avalia que para mercados como o Brasil, que avançam na expansão e na internacionalização dos pagamentos instantâneos, o caso de Singapura oferece um aprendizado importante. “Singapura demonstra que a principal transformação não depende necessariamente de estar na substituição completa de um meio de pagamento por outro, mas da construção na criação de uma infraestrutura capaz de ampliar e oferecer mais opções disponíveis, atender a diferentes jornadas de compra e conectar transações entre diferentes países”, conclui.
Assim como em Singapura, o avanço do pagamento instantâneo como o Pix no Brasil não empurrou o cartão para a irrelevância. Veja esse dado da Pesquisa Visa Conecta “Panorama E-commerce” deste ano: o Pix já aparece como escolha de 45% dos consumidores na última compra online, aproximando-se do cartão de crédito, que ainda lidera com 47%.
No cenário de meios de pagamento, o que aproxima de fato os dois mercados não é a tecnologia, e sim o comportamento do consumidor. Assim como o singapurense, o brasileiro é um consumidor cada vez mais mobile, que combina modelos conforme a sua jornada e necessidade. A chegada de modalidades híbridas como o Pix Parcelado e o Pix Crédito (BNPL) só confirma essa tendência. O mercado brasileiro não está migrando de um meio de pagamento para o outro de forma aleatória, está construindo uma infraestrutura capaz de ampliar as opções disponíveis em reflexo ao comportamento de consumo do Brasil.
Enfim, tratar a diversidade de meios de pagamento, especialmente num país de dimensões continentais e desigualdades regionais e socioeconômicas como o Brasil, é atender e entender esse consumidor em sua essência: diverso, plural e adaptativo.
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